ATENAS À VISTA!

A primeira vez que vim a Atenas, cheguei exausto depois de atravessar toda a Itália de pé dentro de um trem com uma mochila nas costas, mais dezesseis horas de navio e um bocado de tempo dentro de um ônibus sacolejante, que levava também algumas galinhas vivas enroladas em jornal, apenas com a cabeça de fora.

Era início dos anos 1970 e eles caminhavam lado a lado com o meu sonho de correr mundo, correr perigo. A ideia de ir de Paris até Beirute – por terra – fazia parte desse sonho maluco beleza. E foi assim que acabei chegando a Atenas naquele verão, rumo a Istambul. Depois, ainda tínhamos muito chão pela frente, muita poeira pra comer até a capital do Líbano.

Não havia booking.com e eu cheguei com uma mão na frente e outra atrás. Carregava apenas uma velha mochila de lona nas costas e, dentro dela, poucas coisas. Alguns francos franceses, roupa leve de verão, um mapa da Texaco para me orientar e três exemplares da revista Planeta, ainda não lidos.

Um sobre Fidel Castro, um sobre Bob Dylan e outro sobre Krishnamurthy. Vestia uma camiseta desbotada pela água sanitária, uma velha calça Lee e calçava uma sandália com sola de pneu bem pesadona.

Isso é o que me lembro, quase cinquenta anos depois, porque anotei num velho caderno Clairefontaine quadriculado que guardo até hoje.

Lembro-me que encontrei uma cidade árida e meio bagunçada como o meu Brasil. Morando em Paris há algum tempo e já acostumado com aquele charme dos cafés no Boulevard Saint Germain, amei quando cheguei aqui e encontrei botequins como os meus bons e velhos botequins de Belo Horizonte. Aqueles com mesinhas cobertas com toalhas xadrez, flores de plástico num vasinho azul-calcinha e um conjunto para sal, pimenta do reino, vinagre e azeite.

Lembro-me pouco daquela Atenas. Da aula de arqueologia a céu aberto, dos luminosos que não entendia uma palavra sequer e das melancias. Era época de melancias e elas estavam por todos os lados, enormes, vermelhas e muito saborosas. Comi muita melancia a preço de banana.

Nunca me esqueci de uma grande praça, tomada de barracas coloridas de todos os cantos e nações. Foi ali que me instalei, na falta de um hotel barato – todos lotados – para dormir. Quem era eu pra bater na porta de um Holiday Inn com aquela mochila maltrapilha nas costas e pouco dinheiro no bolso?

Consegui um surrado sleep bag emprestado e ali, debaixo de uma árvore, me instalei por dois dias, estudando o caminho para o Oriente Médio até chegar a Beirute, meu destino final.
Além de melancias, comi muito sanduíche de carne de carneiro, muito pepino, muito tomate e muita azeitona. Tomava suco de romã, que só vim a saber que era romã algum tempo depois.

Andei por avenidas, ruas e ruelas de Atenas, deslumbrado com aquelas casas simples com alpendre e cadeiras de ferro pintadas de branco, coisa que não via desde que havia saído do Brasil. Ruas de pedra, um chorão ao lado de um pinheiro, ao lado de um eucalipto, ao lado de um cactus e a Acrópole lá longe. Fiquei apaixonado por aquela bagunça que não existia em Paris, onde estudava e lavava pratos.

Quando cheguei a Atenas pela primeira vez, ainda não havia para mim a canção que Chico Buarque fez para as mulheres daqui que, “quando amadas, se perfumam, se banham com leite, se arrumam suas melenas. Quando fustigadas não choram, se ajoelham, pedem imploram”.

Lembro-me das mulheres de Atenas vestidas de preto puxando seus filhos pelo braço, sempre com um ar severo de que não estavam ali pra brincadeira.

Voltei alguns anos depois, mas a história foi outra porque o mundo já era outro. A minha emoção é saber que acabo de chegar a Atenas para passar novamente dois dias. Mesmo não tendo mais nas costas uma mochila de lona rústica comprada no Mercado Modelo de Salvador, as três revistas Planeta, o sleep bag, aquela sandália de sola de pneu pesadona, nem a velha calça Lee e a camiseta desbotada pela água sanitária.

Sei que não vou dormir na praça ao relento esta noite, mas quando fechar os olhos, gostaria que aquele sonho antigo de continuar correndo mundo, correndo perigo, durasse uma eternidade.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

[foto Alberto Villas]

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