A AREIA DO SAARA

Estou fora do Brasil há três meses. Nesses noventa dias, andei por muitos lugares, cada um mais fascinante que o outro. Atravessei oceanos, vales e montanhas em busca do belo, cada dia mais belo. Molhei os pés no Mar Egeu, colhi figos no Peloponeso, flores na Toscana, catei pedras quadradas no Mar Jônico. Não tem foto, filme ou palestra que ilustre o que os meus olhos viram até aqui.

Se alguém me perguntar o que mais me surpreendeu, o que mais me deixou perplexo nesse trimestre sabático, não vou pensar duas vezes e responder na lata: A areia do Saara.

Explico. Acordamos cedo em Florença e o sol já estava forte. Tomamos o nosso café da manhã, café gostoso preparado na Bialetti e saímos pra caminhar pelas ruas da cidade, uma das mais lindas da Itália.

Nossa surpresa veio quando chegamos na primeira esquina do bairro de San Niccolò, onde estávamos morando, e vimos os carros enfileirados, estacionados rente aos muros da cidade, todos eles cobertos por uma estranha poeira amarelada.

Num primeiro instante, achei que tinha chovido pouco na madrugada e os carros sujos ganharam aqueles respingos que viram uma coisa medonha na lataria. Mas não, não havia chovido e todos os carros estavam com aquela poeira amarelada. Não só os carros, mas também as bicicletas, as lambretas e as motocicletas.

Foi a Paulinha que sacou que aquilo poderia ser a areia do Saara que o vento trouxe na calada da noite. Paramos, pensamos, lembramos  imediatamente e começamos a cantar a canção Reconvexo, de Caetano Veloso, que começa assim:  Eu sou o vento que lança a areia do deserto do Saara/Sobre os automóveis de Roma. Roma não estava tão longe de nós e certamente aquilo era sim a tal areia dos versos do compositor baiano.

Andamos, andamos e vimos que todos os automóveis da cidade estavam assim, pulverizados pelo fenômeno.

Quando chegamos em casa, à noite, fomos buscar mais informações no Google. A última notícia dizia que a paisagem em regiões montanhosas do Leste europeu havia sido modificada devido a uma tempestade de areia do deserto do Saara, no Norte da África. Aquele pó havia atingido a Ucrânia, a Rússia, a Bulgária e a Romênia.

Continuamos pesquisando e ficamos sabendo que cientistas da Nasa apresentaram um estudo que detalha como a areia do deserto do Saara viaja pelo Oceano Atlântico e chega até mesmo a fertilizar a floresta Amazônica. Ela contém fósforo, um dos principais ingredientes para o crescimento das plantas.

O estudo da Nasa feito pelo Goddard Space Flight Center, chegou à conclusão que mais de 27 milhôes de toneladas de areia viaja do Saara até a Amazônia, todos os anos. Ficamos deslumbrados.

A certeza absoluta veio quando Frederico, um italiano boa praça, veio inspecionar o apartamento que alugamos e apontou para a janela de vidro da sala, localizada no teto, e disse: Está um pouco suja hoje por causa da areia que vem do Saara.

Conectamos no Youtube a canção Reconvexo e ela virou nossa trilha sonora há três meses. Sei o valor dos versos de Caetano, mas, para nós, foi maravilhoso pensar que ele achou poesia no vento que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma.

Pensando bem, não era para se espantar, Caetano já encontrou poesia até mesmo no papel de seda azul que envolve a maça, não é mesmo?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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