ÁLBUM DE RETRATOS

Ainda bem que não vivemos mais na dinastia Fuji, nem mesmo na era Kodrakrome. Se ainda estivéssemos nesse tempo, eu estaria louco ou na miséria. Lembro-me bem que quando íamos viajar pro estrangeiro, comprávamos na Fotóptica uns seis filmes de 36 poses pra colocar na mala e fazer fotografias por esse mundo afora.

Cada foto era pensada, calculada, focada e não havia desperdício algum. Só quando todos estivessem à postos e com o sorriso nos lábios é que disparávamos o clic, exclamando: Olha o passarinho!

As fotos iam sendo tiradas e os rolos iam sendo guardados para quando, de volta ao Brasil, levarmos na mesma Fotóptica para serem revelados. Esperávamos cinco dias úteis pra ficarem prontas e quando abríamos aquele envelope, era sempre uma surpresa. Algumas fotografias ficavam fora de foco, umas cortavam o pé, outras a cabeça das pessoas e tinham aquelas que simplesmente queimavam.

Íamos admirando uma a uma e como o tempo havia passado, tinha fotos que nem lembrávamos mais que tínhamos tirado, como aquela na porta do hotel, todos reunidos, sorrindo, é claro.

Éramos econômicos. Não tirávamos fotos de qualquer coisa. De prato de comida, de por do sol, da lua cheia, da areia da praia ou de um cachorro dormindo na porta de uma loja, por exemplo. Hoje,  fotografo qualquer cachorro que vejo pela frente.

De galgo a pitbull, de poodle a vira-lata. Percebo isso, quando vou apagar as fotos para aliviar a memória do computador. Sim, hoje tiramos milhares de fotos e apagamos milhares. Eu e minhas manias.

Estou aqui há uma semana apagando fotos inúteis antes de voltar ao Brasil. Em três meses foram mais de doze mil fotos. O problema maior é que bato duas, três, quatro fotos da mesma coisa, sempre achando que uma pode não sair boa, ficar fora de foco ou cortar algum detalhe importante. Acontece que todas saem absolutamente idênticas e eu sou obrigado a eliminar todas as outras.

Só depois de ver mais essa quantidade monstruosa de fotos que passei do iPhone pro computador, é que a ficha cai e eu pergunto para os meus botões: Por que fotografei tanto cachorro? Por que fotografei tanto por do sol, todos eles muito parecidos?

Além de cachorro, não posso ver um gato que fotografo, um pombo que fotografo, não posso ver uma gaivota, um grafite bonito, uma placa que não entendo, uma onda do mar, uma árvore frondosa, um pardal, que fotografo. Tenho pardais dos quatro cantos do mundo, todos absolutamente idênticos. Chego num lugar e não sossego enquanto não fotografo um pardal local.

Na última semana, já eliminei 74 pombos, 56 grafifes, 88 gatos, 101 cachorros, 60 gaivotas, 29 placas que não entendo, 44 pratos de comida, sem contar um oceano inteiro de ondas do mar e 99 flagrantes do sol se pondo. Elimino, não porque as fotos não ficaram boas, mas por serem praticamente iguais.

É sempre assim. Quando saio de casa, faço uma pequena reflexão em grupo e anuncio que esse ano não vai ser igual aquele ano que passou. Não vou sair fotografando tudo o que vejo pela frente, e quando vejo, lá estou eu fotografando tudo o que vejo pela frente. Sofro com isso, mas, pensando bem, me divirto, tenho assunto pra crônica.

Não são apenas patos, mas toda a família: Gansos, cisnes, marrecos, mulards e cayugas. Patos, desses comuns, foram 142 só em Florença, deslizando pelo Rio Arno. Tenho fotos de todo tipo de pato, em todas as posições possíveis e imagináveis. Patos com a cabeça enfiada n’água, patos chacoalhando as penas, patos cochilando, patos batendo asas, ameaçando voar, todas as reações de um de pato, registrei. Muitas vezes, fotografo dez, quinze, vinte vezes pra tentar conseguir um lance bacana.

Esses dois aí que ilustram a crônica, por exemplo, foram clicados 17 vezes. Eu estava tentando fazer a foto perfeita dos dois juntos formando um coração. Como podem ver, quase consegui. Mas não desisti. Tenho certeza que um dia vou conseguir um casal de patos formando o tal coração com o pescoço e o bico. Repito: Não vou desistir. Nem que seja um pato laqué no prato de um restaurante, lá na China.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br 

[foto Alberto Villas]

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