COLÍRIO

Depois de mais de três meses fora do circuito, voltei à ativa com algumas decepções pela cidade, que vou evitar de falar aqui. Mas ontem à tarde, depois do almoço, peguei o ônibus Clínicas na Rua Catão, o metrô na Vila Madalena e fui até o Instituto Moreira Sales, na Avenida Paulista. Um oásis dentro de uma São Paulo onde andamos respirando pó nos últimos dias. Ao subir a escala rolante, já sentimos o clima de paz e cultura que existe ali. Fomos ver três exposições: A primeira, um retrospectiva do fotógrafo maliano Seydou Keïta. A segunda, Conflitos: Fotografia e violência política no Brasil. E a terceira, São Paulo, fora de alcance, de Mauro Restiffe. Como gosto cada vez mais de fotografia, passei a tarde por ali me deliciando. Sem antes, comer uma salada de frutas com iogurte e mel e um copo de mate gelado, delicioso, na lanchonete ao lado da Livraria da Travessa. As exposições são todas gratuitas e recomendo muito. Você faz uma viagem pelo tempo, tudo em preto e branco. Voltei revitalizado. Ah, lembrando que na Travessa encontrei – finalmente – o primeiro número da revista Granta, que andava procurando.

[foto Alberto Villas]

PROCURANDO GRANTA

Era fã de carteirinha da revista de literatura Granta, uma das melhores do mundo, há muito tempo. Vi meu sonho ser realizado quando, na primavera de 2007, lançaram aqui no Brasil, a edição em português. O número 1 trazia os melhores jovens escritores norte-americanos, entre eles Jonathan Safran Foer e Kevin Brockmeier, com um texto que amei, Periquitos. Reservei um lugar especial na minha revistaria para os números que viriam. E vieram. Foram 13 ao todo, alguns muito especiais como o dedicado ao sexo, a ambição, o trabalho, as medidas extremas, a traição e um sobre os escritores sírios e libaneses, coisa rara por aqui. A Granta tem um padrão de  qualidade impecável em  todas as suas edições, em várias partes do mundo. A edição brasileira não ficou devendo nada. Mas morreu. Morreu anunciando que ressuscitaria com uma edição conjunta Brasil-Portugal. Ao invés de uma Granta Brasil e uma Granta Portugal, teríamos uma Granta em língua portuguesa. Me reanimei. Fui-me embora passar uma temporada fora do Brasil e não tive mais notícia. Notícia que recuperei da memória e fui reavivá-la. O primeiro passo foi ir até a Livraria Cultura da Avenida Paulista procurar o número 1 da tal edição portuguesa. Decepção. Quando falei o nome da revista para o vendedor, antes de entrar no computador, já me deu o aviso: “Tem muito tempo que não recebemos”. Expliquei a ele que realmente a Granta havia deixado de circular, mas que voltaria no início de 2018. Ele consultou sua tela e disse que não tinha nenhum sinal da revista. “Nem pedido temos”. Sai de lá meio jururu mas não desisti. Liguei pra algumas livrarias mais descoladas daqui e realmente não havia sinal de vida da Granta. Entrei no Google e… Eureka! Lá estava a capa do primeiro número 1, Fronteiras! Nos nossos sites de venda online, nenhum sinal. Resolvi então procurar num site gringo e achei. No primeiro passo que dei para comprar, veio o aviso: “Produto  não disponível para entrega no Brasil”. Estou pensando em ir-me embora de novo. Quem sabe na Grécia eu encontro a Granta em língua portuguesa?

[foto Reprodução Internet]

MINHA VIDA DE CACHORRO

Todo dia depois de trabalhar desde a madrugada, descíamos a montanha onde estávamos morando, em Vryses, na Grécia, e ganhávamos a praia de Kyparessia. Era uma praia com um mar muito azul e pedras moldadas e coloridas por Deus, acredito eu. Aos poucos, fomos ficando conhecidos no pedaço. Nos instalávamos debaixo de uma barraca coberta com palha, alguns minutos depois o garçom com um chapéu caribenho vinha, simpático, sabendo que o que queríamos era um capuccino fredo, um café americano double e uma cerveja Mythos estupidamente gelada. Era isso. Levávamos os smartphones pra aproveitar o wi-fi, alguns livros e a edição do dia do La Repubblica. Ali, naquela praia, era o nosso momento de laser, o nosso momento de risos, de saber o que se passava no Brasil e no mundo, altos papos e banho de mar pra descarregar. Não passava muito tempo, antes mesmo do garçom voltar com a bandeja, ele aparecia. Um cachorro marrom, bem vira-lata, morador dali. Não tinha nome e parecia não ter dono. Escolheu – e bem – aquela praia pra viver. Mostrava-se sempre saciado, muitas vezes, recusando alguma coisa que oferecíamos a ele. O curioso é que ele chegava e sempre se instalava perto da gente, como se fôssemos seus protetores. Parecia gostar daqueles brasileiros forasteiros que resolveram passar uma temporada por ali, tão longe do nosso país. Era um cachorro metódico. Olhava para um lado, para o outro, escolhia a sombra de uma das barracas, arranjava sua caminha com as patas e se instalava preguiçoso. Devagarinho, ia fechando os olhos até começar o seu cochilo. Passava um tempo, abria um dos olhos, sentia calor e mudava de lugar, escolhendo uma sombra onde as pedras estavam mais frias, mas sempre pertinho de nós. Assim foi durante muitos dias. Tinha manhãs que o fotografava e ele não estava nem ai, sequer piscava os olhos. No último dia, ficou ainda mais pertinho da nossa barraca, como se estivesse ali se despedindo de nós. Hoje, tantos mil quilômetros de distância, fico aqui pensando que quinze dias já se passaram. Tem duas semanas que não o vejo. Estamos sabendo que o calor por lá aumentou, o verão começou a ferver, é alta estação. Espero que ele esteja por lá ainda e que venha encontrando sempre um cantinho fresco e sossegado pra passar suas manhãs. Se voltar a Kyparessia um dia, vou lá checar se ele está lá, com certeza. Se estiver, vou dar o nome a ele de Aritóteles, Sócrates, Platão ou coisa parecida.

[foto Alberto Villas]

O ABDALLA É FOGO NA ROUPA

Na metade do século passado, os clientes eram bem fiéis. Tão fiéis que eu, menino na época, lembro-me até hoje das lojas onde os meus pais faziam suas compras. Do Mundo Colegial, onde compravam os uniformes do Colégio Marista e do Colégio Sion, da Bemoreira, onde compravam os móveis pra nossa casa.

Hoje, fico aqui pensando como é que, mais de meio século depois, lembro-me perfeitamente das lojas de Belo Horizonte, uma cidade que, segundo o cronista Humberto Werneck, “não acontece nada, mas a gente lembra de tudo”.

Minha mãe comprava sapatos pra ela e pras minhas irmãs, na Elmo. O meu pai, na Clark. Camisas, ele não abria mão, era só na Casas José Silva. Eu me lembro perfeitamente das Estâncias Califórnia, onde vendiam produtos importados da América do Norte e a gente atazanava meu pai pra comprar aquelas caixinhas vermelhas de uva passa, caríssimas na época.

O meu pai era um consumidor tão fiel que só mandava revelar fotos no Zatz, só comprava pão na Padaria Savassi, só enchia o tanque no Posto Fraternia, só comprava discos nas Lojas Gomes, frutas no Mercado Central e achocolatado, era só o Ovomaltine.

Belo Horizonte tinha a Guanabara, uma loja de departamentos no coração da Avenida Afonso Pena, tinha a Livraria Amadeu, a Gruta Metrópole, a Copiadora Brasileira, a lanchonete Ted’s, a Cantina do Ângelo e o Cine Pathé, onde assistíamos todas as chanchadas com Renata Fronzi, Anilza Leone, Grande Otelo, Zé Trindade, Costinha, Ronald Golias, Jô Soares e Otelo Zeloni.

Mas foi nos anos 1960 que um furacão varreu Belo Horizonte, com a chegada do Abdalla, uma loja de roupas a preço de banana, numa época que bananas eram vendidas a preço de banana. Ninguém sabia quem era o dono, se era turco, sírio ou libanês que, naquela época, eram todos iguais. A diferença era que turco era pobre, sírio, o que melhorou de vida, e libanês era o rico.

O Abdala chegou arrasando com a concorrência. De minuto em minuto entrava um anuncio na TV Itacolomi, canal 4, com uma musiquinha que em poucos dias virou hit na cidade: O Abdalla é fogo na roupa/Com ele ninguém pode/ Veja a fama que ele tem.

Sei que a cidade inteira correu pro Abdala pra comprar calças, camisas, meias, calcinhas, sutiãs, boleros, saias pregueadas, tudo. Em poucos dias, a cidade estava toda vestida pra missa, bem no estilo Abdalla.

Apesar de um sotaque libanês, uma roupa de sírio e um bigode de turco, Abdalla caiu no gosto de um Brasil popular, que gostava de uma camisa nos trinques, fosse ela de algodão, pele de ovo, opaca ou fustão.

Na porta das lojas Abdalla, havia uns stands com promoções arrasadoras. Eu passava de ônibus pela Avenida Afonso Pena e sempre via uma multidão  de mulheres afoitas revirando aquela montanha de  calcinhas de todas as cores, escolhendo uma que lhe servisse.

Os homens, ali mesmo na avenida, escolhiam e experimentavam suas camisas coloridas, algumas já faltando botão de tanto manuseio.

As lojas Abdalla sacudiram Belo Horizonte naqueles anos 1960, deixando a concorrência de calças nas mãos. O slogan é fogo na roupa é porque o Abdalla era mesmo fogo na roupa. Seus preços eram imbatíveis. Uma dúzia de meias custava o preço de uma passagem de ônibus, ida e volta.

Um dia, fui-me embora de Belo Horizonte e deixei pra trás a euforia da moda Abdalla na cidade onde nasci. Muitos anos depois, voltei e perguntei que fim levou o Abdalla. Me responderam que as Lojas Abdalla não haviam mais. Como não havia mais a Guanabara, a Bemoreira, as Estancias Califórnia, as Lojas Gomes, nem mesmo um monumento conhecido como pirulito, que ficava na Praça 7, havia mais.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MÚSICA, MAESTRO!

Um dos maiores tesouros do nosso país é a música popular brasileira. Não estou falando apenas de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Chico Buarque. Estou falando de Tom, Vinicius, Baden, Edu, Wilson Batista, Noel Rosa, Pixinguinha, Jorge Benjor, Luiz Gonzaga, Monsueto, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Arnaldo Antunes, João Bosco, Ismael Silva, Paulinho da Viola, Rita Lee, Jackson do Pandeiro, Tom Zé, Walter Franco, Hermeto Paschoal e tantos outros. Quando pego o Le Monde de hoje e vejo uma reportagem de página inteira falando dos shows que nossos craques andam fazendo no verão europeu, morro de inveja. Morro de inveja quando ligo a TV e vejo as chamadas dos musicais prometidos pela Globo para o nosso tenebroso inverno. Porque será que só a segunda e a terceira divisão da nossa música aparece na tela da Globo? É grana? É falta de criatividade? É falta de conhecimento? Ou é mau gosto mesmo?

[foto Reprodução]

VAI PRA CUBA!

Já fui a Cuba duas vezes, o que acho pouco tamanha minha paixão pela ilha. A primeira, em meados dos anos 1980, como repórter do Estadão, pra cobrir o Festival de Música de Varadero. Fui no mesmo avião que Chico Buarque, rei de Havana na época. Passei quinze dias por lá e foi amor à primeira vista. Depois voltei em 2013 com a família – mulher e filhas – como turista. Foram duas viagens bem diferentes, ambas apaixonantes. Agora, acabo de fazer a terceira viagem, lendo Farofa Paradisíaca & outras histórias cubanas, da jornalista e escritora Débora Rubin. Ela partiu em junho do ano passado com o companheiro André Julião, também jornalista, e soube reunir historinhas saborosas e pequenas aventuras que recomendo a todos. Publicado pela Tüz e ilustrado por Rodrigo Terra, a Farofa de Débora é uma delícia para quem já conhece a ilha, agora de Miguel Díaz-Canel, e, para quem não conhece, vai dar aquela vontade louca de pegar o primeiro avião com destino a felicidade.

[foto Reprodução]

SEBOS & LIVRARIAS

Sou viciado em sebos e livrarias. Por onde vou, quero ser seu par. Não importa se estou chegando numa aldeia ou numa megalópole. Procuro sempre onde estão as livrarias da cidade, os sebos, muitas vezes escondidos por detrás de portinhas tortas, antigas, comidas por cupins. Seja em Tóquio, seja em Atenas. Não importa se os livros estão escritos em japonês ou grego. Fico horas observando as capas, tentando descobrir que livro era aquele de Gabriel Garcia Márquez, porque não havia nenhuma pista de ser O amor nos tempos do cólera. Na última ida a Paris, fiquei cinco horas, quase que uma tarde inteira, dentro da Fnac Fórum des Halles. E ainda não sai satisfeito porque não deu tempo de ver tudo. Na Itália, descobri La Feltrinelli, uma rede de livrarias espalhada por várias cidades. Não se trata de uma pequena livraria charmosa, pequena, aconchegante. Mas tem de tudo. Quantos livros de Pier Paolo Pasolini não deixei lá com a promessa de um dia voltar para resgatá-los? A Feltrinelli, que nos primeiros dias chamávamos de “Fantrinele”, virou um vício porque todo dia tinha uma novidade. Foi numa delas que achei, escondidinho, o livro 1968, de Oriana Fallaci, por exemplo. Em São Paulo, sou viciado na Livraria da Vila. Depois de mais de três meses sem ir lá, estou combinando de amanhã cedo ir. Num primeiro momento, estou pensando em deixar o cartão de crédito em casa.

  1. Porta interna da livraria La Feltrinelli, em Roma

2. O amor nos tempos do cólera, numa pequena livraria de Vryses, Grécia

[fotos Alberto Villas]

 

A VOLTA

Quando chega a hora de voltar ao país, é um drama pra todo brasileiro. Primeiro, pelas notícias que piscam nos sites e nas redes sociais. Em outros tempos, a gente voltava doido pra saber as novidades. Agora não, não tem nada que aconteceu nesses dias fora que não saibamos.

Segundo, porque a volta é longa e as encrencas são muitas.

Como enfiar na mala todas as bugigangas que compramos, mala que já saiu do Brasil estufada? Aí começa o descarte. Esse xampu pela metade, vai ficar. Essas Havaianas surradas também não vou levar de volta. Essa camiseta Fora Temer que está meio desbotada pelo sol, não vale quanto pesa pra enfiar na mala. Essa garrafa d’água tão linda que trouxemos do restaurante, também vai ficar. Não dá pra levar esse peso todo.

A solução então é comprar uma segunda mala, que é encontrada geralmente na lojinha de um chinês que fica aberta – desconfio –  que 24 horas por dia, esperando os turistas desesperados. Essas malas são meio vagabundas, pra usar apenas numa viagem e pronto.

Depois de um grande quebra-cabeça, vem a hora de fechar as malas. Elas são colocadas no chão, os extensores são acionados e, finalmente, a gente ouve aquele crack. Fecharam!

Quando vamos colocá-las de pé, vem outro pesadelo. Quantos quilos essas malas estão pesando? Meu Deus! É permitido apenas duas malas de 23 quilos e a impressão que temos é que, cada uma, pesa mais ou menos, uns cinquenta. Seja o que Deus quiser!

Hora de chamar o táxi. Jesus, tem de ser um táxi grande, tipo Van, pra caber tudo isso. Será que tem táxi grande nesse fim de mundo? O táxi chega, não é tão grande assim, mas o motorista, que não quer perder a viagem, dá o seu jeitinho de encaixar tudo ali dentro e acabou.

A caminho do aeroporto, além de dar o último adeus à cidade que não sabemos se voltaremos um dia, a preocupação é com o check-in naquelas máquinas que costumam responder secamente: Número de reserva desconhecido.

Tudo bem. O táxi estaciona, as malas são colocadas nos carrinhos, fizemos o check-in nas máquinas e enfrentamos a longa fila até chegarmos à atendente que, apesar do excesso de peso, acaba deixando passar tudo. Talvez pela cara de desespero e o excesso de simpatia dos passageiros que estão dando bom dia até pro luminoso da companhia, atrás da atendente.

Pronto. Agora é achar o portão 49B naquele aeroporto que parece ser maior que a cidade visitada. Mas, como agora a bagagem é pouca, o portão 49B vai acabar aparecendo, depois de muitos passos largos e muitos metros de esteira.

Será que essa bagagem de mão vai caber no porta-bagagens do avião? E se não couber? O avião já é apertado e vou ter de levar, debaixo dos pés, essa mochila que leva até um mico de pelúcia e um porquinho de borracha.

Ótimo, a mochila coube no porta-bagagens em cima das nossas cabeças. Agora só resta esperar que ninguém sente aqui ao lado, para que possamos dormir esticados o voo inteiro, a noite inteira. O que não acontece. O último passageiro a entrar no avião é o meu vizinho de cadeira.

A noite passa, a turbulência passa, a dúvida entre massa ou frango passa, e quando o comandante anuncia que começamos o procedimento de descida para o aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, passa pela cabeça o último pesadelo, o pouco dinheiro que resta e a tentação do free shop que nos espera.

Temos uísque em casa? E Mozart? Será que o limoncello acabou? Acho que o Baileys está no fim. Quanto será que está o Beaujolais? O que vou fazer com esses 35 euros que sobraram? O cartão está estourado. Será que dá pra comprar um Grand Marnier e aqueles chocolatinhos da Lindt pro pessoal da firma? E aquele relógio que a sogra pediu pra ver o preço e eu não vou ter coragem de dizer que vi e que custa caro demais?

Antes do avião pousar, vem mais uma questão. Será que vou apertar o botão verde ou vermelho da alfândega? E se apertar o vermelho? Será que vão achar aquele camembert embrulhado em oito plásticos no fundo da mala? E os figos secos comprados na Grécia? E os três pacotes de polenta italiana?

Senhores passageiros, benvindos a São Paulo! Cuidado ao recuperar suas bagagens de mão porque elas podem ter se deslocado durante o voo. Não esqueçam de verificar se estão levando todos os seus pertences, inclusive o seu aparelho celular. A temperatura no momento é de 25 graus.

Ai vem a última dúvida: Será que a fila do táxi lá fora está gigantesca?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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DANDO O TROCO

O Brasil é o único país do mundo que dá preço aos produtos, sabendo que não há troco. Como pode uma manga custar 4 reais e 97 centavos, se não existe 3 centavos de troco? Não existe mais moeda de 1 centavo em circulação, mas os preços continuam quebrados. Nós, brasileiros, já nos acostumamos a dar esses centavos aos comerciantes. Ninguém reclama e quem reclama os centavos, fica com fama de sovina. Os países europeus respeitam muito o troco. Poderíamos dar uma nota de 100 euros para pagar 1 euro, que davam o troco de 99 euros, sem reclamar. Era assim, agora mudou. A praga do troco chegou à Europa, pelo menos na Itália, na França e na Grécia, onde passamos esses últimos três meses. Aqui no Brasil é vício. Você pode dar uma nota de 10 reais para pagar 9.90 que, automaticamente, perguntam: Não tem 90 centavos? Ao invés de pegar 10 centavos e dar de troco. As moedas parece que estão desaparecendo também na Europa. A única diferença é que, ao invés de perguntar: Não tem 10 centavos?, eles perguntam: Poderia facilitar o troco, por favor? Mas uma coisa é certa: Lá, ninguém fica com 1 centavo do cliente. Enquanto aqui, a gente acha que 1 centavo não vale um tostão furado.

MERCADINHO EM PYLOS, GRÉCIA, ONDE O TROCO É SAGRADO

[foto Alberto Villas]

A CAMISA AMARELA

Pouco antes de voltar ao Brasil, depois de um longo período na França, ouvi a canção O que será, do Chico, várias vezes. Depois de passar quase dez anos sem pisar na Terra Brasilis, voltei com aquela coisa na cabeça: O que será que será/Que andam suspirando pelas alcovas/Que andam sussurrando em versos e trovas/Que andam combinando no breu das tocas/Que anda nas cabeças, anda nas bocas/Que andam acendendo velas nos becos/Que estão falando alto pelos botecos/E gritam nos mercados que com certeza/Está na natureza. Quando cheguei, vi que estavam falando alto pelos botecos e o assunto era a zebra da Loteria Esportiva no domingo. Dessa vez, quando deixei o Brasil, ainda não havia clima de Copa do Mundo e, na minha cabeça, passava a dúvida: Quem vai vestir camisa amarela? Desde que os direitistas adotaram a camisa canarinho como uniforme  para derrubar uma presidente democraticamente eleita, eu duvidava que alguém de esquerda tivesse coragem de vestir a tal camisa da CBF, ninho de corruptos e tenebrosas transações. A Copa começou e eu fora, longe daqui. Apesar de ligado nas redes sociais, não sentia muito o clima das ruas, o papo do boteco. Eu, particularmente, tomei uma certa ojeriza dessa camisa que não posso nem ver. Apesar de ter uma guardada no armário, presente de rei. No avião que voltei ao Brasil, tinha uma moça de camisa amarela porque o Brasil jogaria com a Costa Rica enquanto estaríamos nas nuvens. Não era uma camiseta dessas comuns que a gente vê nos camelôs, nem mesmo uma oficial. Era uma camiseta de grife, talvez Gucci ou Dolce Gabbana, toda customizada, com brilhos e bossas. O Brasil ganhou e ela vibrou na escala que fizemos no aeroporto Charles De Gaulle. Confesso que fico feliz quando saio nas ruas nos dias de jogo da nossa seleção e vejo pessoas nos botecos com camisa amarela. São pessoas que ainda torcem, que ainda acreditam no Brasil. Pena que o Brasil não há mais.

[foto Alberto Villas]

 

A FALTA QUE ELE NOS FAZ

Só hoje, mais de dois meses depois, pude folhear a revista Carta Capital número 1000, de papel. Orgulhoso de ter participado dessa edição histórica, contando a minha paixão por revistas, fui saboreando cada página, deitado na rede da minha varanda. Uma boa surpresa encontrei nas páginas 72 e 73, com uma reunião de pessoas notáveis, cujo título é: Brasileiros que fazem falta. Fazem falta porque não estão mais entre nós e quando ainda estavam. eram pessoas notáveis. Lá estão reunidos numa galeria, brasileiros da importância de Celso Furtado, Dom Paulo Evaristo Arno, Sócrates, Rachel de Queiroz, Abdias do Nascimento, Leonel Brizola, entre outros. Embaixo, no cantinho da página 73, tive a grata surpresa de encontrar o jornalista Geneton Moraes Neto, amigo e companheiro de Show da Vida durante mais de dez anos. Sim, o meu amigo Geneton Moraes Neto faz mesmo muita falta, desde que morreu prematuramente em 2016. Estávamos trabalhando a ideia de criar um Memorial da Imprensa, unir seu arquivo ao meu, nossas lembranças e experiências. A vontade surgiu quando Geneton escreveu o prefácio do meu livro A Alma do Negócio, publicado pela Editora Globo. Depois de ler o livro e saber que todo aquele material reunido no livro pertencia ao meu arquivo pessoa, ele não teve dúvidas. Depois de um  jantar no restaurante Comida à Mineira, em Botafogo, saímos animadíssimos com a ideia e começamos a trocar e-mails freneticamente, todos eles com mil ideias. Foi quando, de repente, Geneton caiu doente, foi pro hospital e não saiu mais, até nos deixar. Sim, Geneton Moraes Neto faz muita falta. Eu não tenho mais com quem comentar, discutir a nossa imprensa e o jornalismo que fazem lá fora. Geneton era um craque e o time ficou desfalcado.

[foto Alberto Villas]

SÃO, São Paulo

Quando deixei o Brasil, no final de março passado, com destino a um trimestre sabático na Itália e na Grécia, Como vai minha aldeia? foi um dos primeiros títulos que dei a um texto escrito, já em Florença. Os primeiros momentos na Toscana foi de abandono total de uma vida agitada em São Paulo e o esquecimento absoluto da palavra estresse. Recorri, para fazer o título, a uma velha canção do mineiro Tavinho Moura, composta nos anos setenta e qualquer coisa. Minha vida em Florença era a de quem vive numa aldeia. Andava pelas ruas e ruelas, comprava frutas e legumes num mercadinho, o jornal toda manhã na banca da esquina, cujo dono, no terceiro dia, já me reconhecia de longe e me esperava com o La Repubblica nas mãos. No fim de tarde, andava pela beira do Arno como se estivesse à beira do Rio Pomba, na minha querida Cataguases, na Zona da Mata mineira. Dois meses passei lá, assim. Logo eu, um homem urbano e tão acostumado com a efervescência de uma metrópole. Depois de Florença, descemos a Itália, atravessamos o mar e chegamos a Patras, na Grécia. De Patras, seguimos para Vryses, nosso destino final. Em Vryses, a canção de Tavinho Moura ganhou mais força. Como vai minha cidade/Oi, minha velha aldeia/Canto de velha sereia/No meu tempo/Isso era meu tesouro/Um portão/Todo feito de ouro. Vryses, uma aldeia com 78 habitantes, levou-me de volta à infância, quando vi tantos pés de frutas nos quintais. Quando ouvi a vizinha batendo na porta para nos dar de presente uma bacia de figos maduros. De madrugada, ouvia o uivo dos lobos e o ladrar dos cães, cuja finalidade era afastar os lobos. Ao amanhecer, ouvíamos mil sons de passarinhos e o sino da igreja tocando chamando os seus fiéis. O por do sol em Vryses era tão magnífico que muitas vezes lamentávamos ter chegado tarde em casa e perdido o espetáculo. O tempo passou com tudo tende passar. No avião que nos levou de Atenas a Roma, a caminho do Brasil, a revista de bordo da Alitalia, a Ulisse, estava no bolsão da frente. Antes de pegar no sono, dei uma folheada e uma reportagem sobre São Paulo foi a senha para lembrar o que me esperava. O Masp, a Japan House, o Beco do Batman, o Ibirapuera, o Instituto Tomie Ohtake, a Avenida Paulista, a efervescência estava de volta, mesmo ainda tão longe, mais de dez mil quilômetros. Então deixei Tavinho Moura de lado e me recorri a Tom Zé, que em 1968, cantou a cidade que tinha oito milhões de habitantes, que era uma aglomerada solidão, onde as pessoas amavam com todo ódio e odiavam com todo amor. Fui lembrando dos versos e cheguei ao final da poesia de Tom Zé, lembrando que apesar de todo defeito, te carrego no meu peito. Então, cheguei.

[foto Alberto Villas]