ILUSÃO

A cada dia que passa é menor a minha ilusão de um dia termos um jornalismo criativo e, principalmente, independente, em nosso país. Nosso jornalismo é cada dia mais óbvio e ululante (para roubar uma expressão de Nelson Rodrigues), sem criatividade e parcial, sim. No início da semana, citei aqui a série de reportagens que o jornal francês Libération vem publicando em seu caderno de verão. É a série “Eu testei”. Na edição que chegou hoje cedo às bancas, o teste é uma prova de criatividade dos pauteiros e de independência jornalística. A revista semanal de informação francesa Valeurs Actuelles é uma revista de extrema-direita, contra todos os valores referentes a direitos humanos, igualdade racial, de gênero, tópicos bastante discutidos hoje em dia. O teste de hoje é “Eu testei ler Valeurs Actuelles”. A jornalista passou cinco semanas lendo integralmente a revista e o resultado é uma aula que mostra como não fazer jornalismo de verdade, apontando para a revista a flecha do ódio que ela carrega. Seria o mesmo que um jornal brasileiro publicar duas páginas com o título “Eu testei ler a Veja” ou “Eu testei ler a IstoÉ”, nossas duas revistas mais inclinadas à direita. Numa das passagens, a jornalista Virginie Bloch-Lainé conta que foi surpreendida pelo filho, ao ver a revista em cima da mesa de sua casa: “Mãe!!! Você comprou essa revista???”, disse ele.

[foto Reprodução]

UMA AULA DE JORNALISMO PARCIAL

No final de semana que acabou de passar, o jornalismo brasileiro deu uma aula sobre o que é ser parcial. Nas redes sociais, o Festival Lula Livre vinha sendo anunciado há dias. Um festival em solidariedade ao único preso político do país, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba, sem provas concretas, há mais de cem dias. Com a participação, entre dezenas de músicos, de dois dos mais importantes compositores da nossa MPB, Chico Buarque e Gilberto Gil, o festival prometia. Se você procurasse nos nossos jornais impressos ou em nossos telejornais, nenhum sinal de vida do Festival Lula Livre. Percebe-se claramente que a ordem vinda de cima era: Não vamos noticiar! E os discípulos da direção obedeceram, claro, com risco de perderem os seus empregos, quem desobedecesse. O Festival Lula Livre foi um sucesso transmitido ao vivo por diversas frentes das redes sociais, com a participação de milhares de brasileiros, mas quem ligasse a TV, ficaria desinformado sobre o que se passava ali nos arcos da Lapa, na cidade outrora maravilhosa. O Jornal Nacional deu exatos 40 segundos de uma nota coberta, seguramente para evitar críticas pesadas nas redes sociais. Com aquela informação pingada, tinha como argumentar: Demos sim! O ponto alto do festival, foi Gil e Chico cantando “Cálice”, ou melhor “Cale-se”, composição da dupla, proibida e depois liberada nos anos 1970 pela ditadura militar. A música, símbolo da resistência à ditadura militar, soou como um triste retrocesso, quase cinquenta anos depois. A censura de imprensa não existe mais, mas a censura dos diretores de jornais e redes de televisão, está em pleno vigor. Nosso jornalismo perdeu o bonde da história, e continua caminhando a passos largos para o abismo.

[foto Reprodução Facebook]

PAUTA

O caderno de verão do diário francês Libération está dando uma aula aos pauteiros. Desde o primeiro número, um jornalista vem fazendo testes pela cidade. Eu testei as bicicletas da cidade, eu testei ser guarda de trânsito, eu testei… enfim, são vários testes mostrando como funciona a cidade. Na edição de hoje: Eu testei ser modelo nu. Dá gosto ler um jornal que tem pauta.

[foto Reprodução]

Um dia de fúria

A primeira vez que fui ao Jardim Botânico e coloquei os pés na TV Globo, pisei firme com o direito. Trazia dentro de uma pasta de couro, um contrato de trabalho recém-assinado e sentia nas costas um certo peso, não sei bem porque.

Me identifiquei na portaria, passei por um pequeno jardim muito bem cuidado e entrei no elevador. Apertei o botão do sétimo andar, que era onde ficava a sala do Diretor de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, que todos chamavam de Doutor Evandro, percebi no primeiro momento.

Esperei alguns minutos até que a simpática secretária ordenasse a minha entrada. Encontrei sentado numa enorme mesa transbordando de papéis, um homem muito alto e magro que eu, com mania desde pequeno de procurar semelhanças nas pessoas, vi logo que ele era a cara do grilo do filme Vida de Inseto.

O Doutor Evandro sentou-se numa poltrona para conversar comigo. Calçava sapatos marrom, acredito eu que de legítimo couro alemão. Vestia uma calça jeans Yves St Laurent com friso, uma camisa de cor alaranjada, com o primeiro botão de cima desabotoado, deixando aparecer um delicado cordão de ouro que trazia dependurado um micro olho turco. Superticioso, pensei.

O Doutor Evandro, com aquele vozeirão e tantos anos de poderoso chefão nas costas, dava medo. Ele tinha um vistoso relógio no pulso esquerdo, que olhava de tempos em tempos, deixando parecer que não tinha muito tempo a perder.

Ele quis saber um pouco do meu currículo, desejou-me boa sorte e fez questão de deixar uma coisa bem clara:

– Aqui não temos inimigos. Aqui não temos lista negra, nem proibição alguma. Dizem por aí que não podemos falar bem de Leonel Brizola. Mentira! O que for preciso dizer dele, diremos. Mas sempre a verdade.

Sai dali um pouco aliviado. Antes de assinar o contrato, quis saber da minha liberdade. Recebi carta branca de Amauri Soares e o trabalho começou no dia seguinte, um curioso primeiro de abril de 1997.

Depois desse dia, encontrei-me algumas vezes com o Doutor Evandro, sempre na sua sala. Nunca se queixou do meu trabalho no Jornal Hoje, no Jornal da Globo, no Jornal Nacional e no Fantástico. Ele deixava a impressão de que eu estava fazendo apenas a minha obrigação. Doutor Evandro não era de elogios.

Ele tinha uma postura firme e forte, imbatível. Lembro-me bem do dia – uma sexta-feira – em que fui passar o script do Fantástico pra ele. Quando disse que fecharíamos o programa com um clipe inédito e exclusivo do Chico Buarque, o diálogo foi o seguinte:

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– Não!

– Não? Por que não?

– Não estamos aqui para vender discos do senhor Chico Buarque de Hollanda.

– Sei que não estamos aqui para vender disco do Chico, mas estamos aqui para falar de cultura.

– Deixa o Chico pros jornais falarem dele. Nós, não.

Lembrei a ele da tal lista negra que havia me falado no nosso primeiro encontro, ele argumentou que Chico não estava em lista negra alguma, mas colocar um clipe dele no Fantástico era propaganda para vender disco. Discordei.

Mas não teve argumento. Um não do Doutor Evandro era um não e não tinha volta. Sai da sala meio cabisbaixo, carregando a tristeza de não fechar o Fantástico com o Chico cantando Me sinto pisando/Um chão de esmeraldas/Quando levo meu coração/À Mangueira.

Mas isso são águas passadas. O que quero contar aqui hoje nesta crônica, é uma história engraçada, meio sem pé nem cabeça, talvez uma bobagem.

Era domingo, por volta de dez da noite, eu estava no switcher colocando o Fantástico no ar quando o telefone tocou. Quando aquele telefone tocava, era alguma coisa séria porque era uma espécie de telefone vermelho.

O produtor atendeu e, meio pálido, me passou o gancho.

– É o Doutor Evandro!

Doutor Evandro estava tendo um chilique. Furioso e, antes mesmo de perguntar se era eu quem estava na linha, disparou:

– Eu quero o nome do editor! Eu quero o nome do editor! Eu quero o nome do editor que é militante do Partido Verde!

Segundos antes, tínhamos colocado no ar, uma pequena noticia do domingo, em que os cariocas abraçavam a lagoa Rodrigo de Freitas, em mais um desses atos típicos do domingo carioca, mais uma tentativa de salvar os seus peixes.

Era o que chamamos de nota coberta, em que o apresentador narra e a imagem mostra o fato. O que enfureceu Doutor Evandro foi uma imagem em primeiro plano de um jovem vestindo uma camisa branca com um enorme V no peito, o logotipo do Partido Verde, um partido que não passava de 0,1% da intenção de votos em qualquer pesquisa. Mas o Doutor Evandro encasquetou que ali havia uma mensagem cifrada do pobre editor que, na verdade, tinha razão de colocar no ar apenas uma boa imagem.

Não podia ver seu rosto, mas pelo tom de voz senti que deveria estar espumando de tanta fúria.

Não respondi nada, disse apenas que não poderia interromper o meu trabalho que era tenso, muito tenso, de colocar o Fantástico no ar. Doutor Evandro, antes de bater o telefone na minha cara, disse que queria, no final do programa, o nome do editor.

O Fantástico acabou, recolhi minhas coisas, apaguei as luzes, peguei um taxi amarelo na porta da emissora e me recolhi a um quarto de hotel em Ipanema, esperando o telefone tocar a qualquer momento.

O tempo passou, o telefone ficou em silêncio. Alguns dias depois, encontrei com o Doutor Evandro deixando a emissora no final do expediente. Ele me chamou e disse que acabara de ler um livro espetacular e perguntou se já tinha lido. Era Pastoral Americana, de Philip Roth. Disse que ainda não tinha lida e ele completou:

– Leia! Leia! É uma obra prima.

Passei na Livraria da Travessa, comprei o livro, li, procurando ali uma mensagem cifrada. E nada.

Tivemos alguns outros encontros e o Doutor Evandro nunca mais tocou no assunto Partido Verde. Morreu sem saber o nome do editor que, um dia, me confessou que nem sabia que aquele V dentro de um circulo na camisa daquele manifestante da lagoa, era o logotipo do Partido Verde, partido que ele nunca votou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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PREGUIÇA

Depois que voltei para o Brasil, custei a ligar a televisão. Desacostumei e, confesso, não tinha a menor vontade de ligar. Mas agora, aos poucos, vou me inteirando com o que está no ar. E o que mais tem me deixado chocado, é a preguiça – imagino eu – com que é feito o SP2, o telejornal da Globo com Ibope garantido, encravado entre duas novelas. Moramos na maior cidade da América do Sul, uma metrópole, quase megalópole, que tem um jornal local que mais parece um noticiário de cidadezinha do interior. São Paulo, uma cidade fascinante, merecia um telejornal com cara de metrópole, dinâmico, cheio de novidades e ideias, apresentado cada dia de um canto da cidade, sempre uma surpresa. E o que vemos no ar é um jornal preguiçoso, que todo dia abre desanimado, mostrando um acidentezinho de automóvel aqui, um crime ali, um buraco acolá. Ontem, por exemplo, entrou ao vivo da porta da Igreja de São Cristóvão, com um repórter informando aos telespectadores que dezenas de carros passaram por ali durante o dia para serem benzidos. Só isso. É talvez o trigésimo ano que fazem a mesma coisa, do mesmo jeitinho. O jornal não tem pauta, tem agenda. Tem preguiça de pensar. Vou desligar, até que melhore.

A GRÉCIA EM CHAMAS

Todo verão é mesma triste história. Grandes áreas da Europa são devastadas pelas chamas provocadas, geralmente, por pessoas que jogam um cigarro no mato sem perceber a tragédia que podem provocar. Setenta e quatro pessoas mortas, mais de duzentas feridas, fauna e flora arruinadas. Quando estivemos lá no mês passado, já haviam pequenas áreas atingidas pelo fogo. Registrei em fotos e aqui estão algumas delas.

[fotos Alberto Villas]

O BRASIL QUE EU QUERO

Já faz um tempo que Rede Globo de Televisão vem colocando no ar em seus telejornais, um desfile de brasileiros, do Arroio ao Chuí, dizendo que Brasil eles querem para o futuro. O resultado, mesmo antes do primeiro micro-depoimento ir ao ar, todos já sabiam: Eu quero um Brasil sem corrupção, um Brasil onde os políticos cuidem da saúde e da educação, um país sem violência, que os cadeirantes sejam tratados com dignidade e que os homossexuais sejam respeitados.  Ninguém está errado, todos estão certos. O que me intriga é saber em quem essas pessoas vão votar para nos livrar dessa tragédia que virou o Brasil. Se essas pessoas que aparecem a todo momento na tela da televisão fossem mesmo verdadeiras, um candidato fascista jamais teria a quantidade de votos que as pesquisas dizem que ele tem, não é mesmo?

LEITURA RECOMENDADA

Me apaixonei por Wander Piroli nos anos 1970, quando morava fora do Brasil, e recebi pelo correio dois livrinhos editados em Belo Horizonte, dois livrinhos com títulos curiosos: O menino e o pinto do menino e A mãe e o filho da mãe. Li de uma talagada só e fui atrás do autor. Numa época em que não havia WhatsApp, Sky, Facebook, nada disso, o jeito foi enviar uma carta para Piroli, depois de muita luta para conseguir o seu endereço. A partir dai começou uma amizade longínqua e constante, uma troca de correspondência que me deixava muito feliz. Conheci Wander Piroli pessoalmente, assim que voltei ao Brasil, desempregado, pai de dois filhos, em busca de um trabalho. Foi ele quem me passou o primeiro frila em terras brasileiras, depois de uma noitada num bar no centro de Belo Horizonte, falando da vida e dos seus personagens, a coisa que ele mais gostava. Acabo de ler e recomendo a todos  o perfil biográfico de Piroli, caprichosamente traçado pelo jornalista e escritor Fabrício Marques, que vasculhou seus arquivos, ouviu seus amigos e parentes, revisitou redações por onde ele passou e deixou sua marca, sua Lagoinha, seu cenário e inspiração. O resultado é perfeito para quem conheceu e gosta de sua obra e também para quem ainda não o conhecia. Histórias exemplares de um escritor mineiro, de um jornalista de mão cheia, de um tipo inesquecível. Wander Piroli, uma manada de búfalos dentro do peito, editado pela Conceito, é um livro que a gente pega pra ler e não larga mais.

[foto Reprodução]

MEIA MEIA

Eu era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones. Mais os Beatles do que os Rolling Stones. Estava mais inclinado para Lucy in the sky with diamonds do que uma Simpathy for the devil. Era mais Rubber Souldo que Let It Bleed.

Um temporal jamais visto, com ventos de cento e quarenta e cinco quilômetros por hora, quase varreu Florença do mapa. Obras de arte boiavam no Rio Arno como se fossem pedaços de tábua a vagar. A Ponte Vecchio, a única que não foi destruída pelo bombardeio alemão, resistia bravamente, mais uma vez.

Num hospital de Houston, no Texas, Marcel de Rudder resistiu apenas cinco dias com uma bomba cardíaca implantada no peito. O doutor Michael de Bakey, responsável pela façanha, explicou ao mundo que a morte foi provocada por um rompimento do pulmão e não tinha relação alguma com o aparelho instalado no peito esquerdo de Rudder.

Nós, terráqueos, vimos, através de radiofotos, as primeiras fotografias da superfície lunar enviadas pela nave Surveyor. Era mesmo uma paisagem lunática, pedras de cor cinza chumbo e nenhum sinal de vida como a nossa por aqui, com luzes, árvores, pessoas, automóveis, intrigas.

Aproveite este dia, aproveite esta hora! /Fora com todas as pragas!/Nossa força é irresistível. O último poema de Mao Tsé-Tung viera à tona naqueles dias e a grande revolução chinesa estava lançada.

A guerra do Vietnã andava a passos largos e definitivos, o cheiro de patchouli começava a impregnar o ar e a moda eram jaquetas jeans bordadas com pequenos cacos de espelho. Os hippies estavam sendo incubados.

O Brasil estava dividido entre uma Arena e um MDB, enquanto um rei era coroado, querendo apenas que alguém lhe aquecesse no inverno e que tudo mais fosse pro inferno.

Eu estava passando férias em Sobradinho, cidade satélite de Brasília, esperando nascer a minha primeira sobrinha, quando o radinho de pilha começou a transmitir a Copa do Mundo, na Inglaterra.

Na pré-história dos satélites, o som vinha e sumia daquele radinho como poeira na estrada. Mas, aos quinze minutos do primeiro tempo, ouvimos o grito de gol. Era Pelé que fazia um a zero em cima dos búlgaros.

O Brasil estava em campo com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Altair, Paulo Henrique, Denílson, Lima, Garrincha, Alcindo, Pelé e Jairzinho. Era o nosso escrete canarinho.

A gente ficava ali na varanda de uma casa popular, tentando captar um som mais puro e constante que saia fraco daquele radinho de pilha. Sabíamos que a cor da camisa da nossa seleção era amarelo ouro porque vimos na capa da Manchete, a mais colorida de todas as revistas. Mas, a do adversário, não conseguíamos enxergar, apenas imaginar. Só no dia seguinte, através das radiofotos na primeira página de O Globo, víamos as imagens, mesmo assim em preto e branco.

Campeões em 1958 na Suécia, bi em 1962 no Chile, por aqui só se ouvia falar em tri. Um tri que não veio e que foi transformado em vexame internacional, depois que perdemos da Hungria por 3 a 1 e de Portugal, pelo mesmo placar.

De tempos em tempos, trocávamos as pilhas amarelinhas do rádio, e ele recomeçava bravamente a transmissão. Foram tardes sofridas aquelas de 1966, em busca do som puro, da jogada perfeita, da festa do tri que já tinha um engradado de Brahma Chopp reservado para os que podiam beber.

O radinho de pilha aguentou firme e só foi aposentado em 1970, na Copa do México, na Copa do tri. Naquele 1966, o cinema perdeu Montgomery Clift, o surrealismo perdeu André Breton, as crianças perderam papai Walt Disney, nós perdemos a Copa do Mundo na Inglaterra, mas ganhamos uma sobrinha muito querida, a Chris, que nasceu lá em Sobradinho.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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COLÍRIO

Depois de mais de três meses fora do circuito, voltei à ativa com algumas decepções pela cidade, que vou evitar de falar aqui. Mas ontem à tarde, depois do almoço, peguei o ônibus Clínicas na Rua Catão, o metrô na Vila Madalena e fui até o Instituto Moreira Sales, na Avenida Paulista. Um oásis dentro de uma São Paulo onde andamos respirando pó nos últimos dias. Ao subir a escala rolante, já sentimos o clima de paz e cultura que existe ali. Fomos ver três exposições: A primeira, um retrospectiva do fotógrafo maliano Seydou Keïta. A segunda, Conflitos: Fotografia e violência política no Brasil. E a terceira, São Paulo, fora de alcance, de Mauro Restiffe. Como gosto cada vez mais de fotografia, passei a tarde por ali me deliciando. Sem antes, comer uma salada de frutas com iogurte e mel e um copo de mate gelado, delicioso, na lanchonete ao lado da Livraria da Travessa. As exposições são todas gratuitas e recomendo muito. Você faz uma viagem pelo tempo, tudo em preto e branco. Voltei revitalizado. Ah, lembrando que na Travessa encontrei – finalmente – o primeiro número da revista Granta, que andava procurando.

[foto Alberto Villas]

PROCURANDO GRANTA

Era fã de carteirinha da revista de literatura Granta, uma das melhores do mundo, há muito tempo. Vi meu sonho ser realizado quando, na primavera de 2007, lançaram aqui no Brasil, a edição em português. O número 1 trazia os melhores jovens escritores norte-americanos, entre eles Jonathan Safran Foer e Kevin Brockmeier, com um texto que amei, Periquitos. Reservei um lugar especial na minha revistaria para os números que viriam. E vieram. Foram 13 ao todo, alguns muito especiais como o dedicado ao sexo, a ambição, o trabalho, as medidas extremas, a traição e um sobre os escritores sírios e libaneses, coisa rara por aqui. A Granta tem um padrão de  qualidade impecável em  todas as suas edições, em várias partes do mundo. A edição brasileira não ficou devendo nada. Mas morreu. Morreu anunciando que ressuscitaria com uma edição conjunta Brasil-Portugal. Ao invés de uma Granta Brasil e uma Granta Portugal, teríamos uma Granta em língua portuguesa. Me reanimei. Fui-me embora passar uma temporada fora do Brasil e não tive mais notícia. Notícia que recuperei da memória e fui reavivá-la. O primeiro passo foi ir até a Livraria Cultura da Avenida Paulista procurar o número 1 da tal edição portuguesa. Decepção. Quando falei o nome da revista para o vendedor, antes de entrar no computador, já me deu o aviso: “Tem muito tempo que não recebemos”. Expliquei a ele que realmente a Granta havia deixado de circular, mas que voltaria no início de 2018. Ele consultou sua tela e disse que não tinha nenhum sinal da revista. “Nem pedido temos”. Sai de lá meio jururu mas não desisti. Liguei pra algumas livrarias mais descoladas daqui e realmente não havia sinal de vida da Granta. Entrei no Google e… Eureka! Lá estava a capa do primeiro número 1, Fronteiras! Nos nossos sites de venda online, nenhum sinal. Resolvi então procurar num site gringo e achei. No primeiro passo que dei para comprar, veio o aviso: “Produto  não disponível para entrega no Brasil”. Estou pensando em ir-me embora de novo. Quem sabe na Grécia eu encontro a Granta em língua portuguesa?

[foto Reprodução Internet]

MINHA VIDA DE CACHORRO

Todo dia depois de trabalhar desde a madrugada, descíamos a montanha onde estávamos morando, em Vryses, na Grécia, e ganhávamos a praia de Kyparessia. Era uma praia com um mar muito azul e pedras moldadas e coloridas por Deus, acredito eu. Aos poucos, fomos ficando conhecidos no pedaço. Nos instalávamos debaixo de uma barraca coberta com palha, alguns minutos depois o garçom com um chapéu caribenho vinha, simpático, sabendo que o que queríamos era um capuccino fredo, um café americano double e uma cerveja Mythos estupidamente gelada. Era isso. Levávamos os smartphones pra aproveitar o wi-fi, alguns livros e a edição do dia do La Repubblica. Ali, naquela praia, era o nosso momento de laser, o nosso momento de risos, de saber o que se passava no Brasil e no mundo, altos papos e banho de mar pra descarregar. Não passava muito tempo, antes mesmo do garçom voltar com a bandeja, ele aparecia. Um cachorro marrom, bem vira-lata, morador dali. Não tinha nome e parecia não ter dono. Escolheu – e bem – aquela praia pra viver. Mostrava-se sempre saciado, muitas vezes, recusando alguma coisa que oferecíamos a ele. O curioso é que ele chegava e sempre se instalava perto da gente, como se fôssemos seus protetores. Parecia gostar daqueles brasileiros forasteiros que resolveram passar uma temporada por ali, tão longe do nosso país. Era um cachorro metódico. Olhava para um lado, para o outro, escolhia a sombra de uma das barracas, arranjava sua caminha com as patas e se instalava preguiçoso. Devagarinho, ia fechando os olhos até começar o seu cochilo. Passava um tempo, abria um dos olhos, sentia calor e mudava de lugar, escolhendo uma sombra onde as pedras estavam mais frias, mas sempre pertinho de nós. Assim foi durante muitos dias. Tinha manhãs que o fotografava e ele não estava nem ai, sequer piscava os olhos. No último dia, ficou ainda mais pertinho da nossa barraca, como se estivesse ali se despedindo de nós. Hoje, tantos mil quilômetros de distância, fico aqui pensando que quinze dias já se passaram. Tem duas semanas que não o vejo. Estamos sabendo que o calor por lá aumentou, o verão começou a ferver, é alta estação. Espero que ele esteja por lá ainda e que venha encontrando sempre um cantinho fresco e sossegado pra passar suas manhãs. Se voltar a Kyparessia um dia, vou lá checar se ele está lá, com certeza. Se estiver, vou dar o nome a ele de Aritóteles, Sócrates, Platão ou coisa parecida.

[foto Alberto Villas]

O ABDALLA É FOGO NA ROUPA

Na metade do século passado, os clientes eram bem fiéis. Tão fiéis que eu, menino na época, lembro-me até hoje das lojas onde os meus pais faziam suas compras. Do Mundo Colegial, onde compravam os uniformes do Colégio Marista e do Colégio Sion, da Bemoreira, onde compravam os móveis pra nossa casa.

Hoje, fico aqui pensando como é que, mais de meio século depois, lembro-me perfeitamente das lojas de Belo Horizonte, uma cidade que, segundo o cronista Humberto Werneck, “não acontece nada, mas a gente lembra de tudo”.

Minha mãe comprava sapatos pra ela e pras minhas irmãs, na Elmo. O meu pai, na Clark. Camisas, ele não abria mão, era só na Casas José Silva. Eu me lembro perfeitamente das Estâncias Califórnia, onde vendiam produtos importados da América do Norte e a gente atazanava meu pai pra comprar aquelas caixinhas vermelhas de uva passa, caríssimas na época.

O meu pai era um consumidor tão fiel que só mandava revelar fotos no Zatz, só comprava pão na Padaria Savassi, só enchia o tanque no Posto Fraternia, só comprava discos nas Lojas Gomes, frutas no Mercado Central e achocolatado, era só o Ovomaltine.

Belo Horizonte tinha a Guanabara, uma loja de departamentos no coração da Avenida Afonso Pena, tinha a Livraria Amadeu, a Gruta Metrópole, a Copiadora Brasileira, a lanchonete Ted’s, a Cantina do Ângelo e o Cine Pathé, onde assistíamos todas as chanchadas com Renata Fronzi, Anilza Leone, Grande Otelo, Zé Trindade, Costinha, Ronald Golias, Jô Soares e Otelo Zeloni.

Mas foi nos anos 1960 que um furacão varreu Belo Horizonte, com a chegada do Abdalla, uma loja de roupas a preço de banana, numa época que bananas eram vendidas a preço de banana. Ninguém sabia quem era o dono, se era turco, sírio ou libanês que, naquela época, eram todos iguais. A diferença era que turco era pobre, sírio, o que melhorou de vida, e libanês era o rico.

O Abdala chegou arrasando com a concorrência. De minuto em minuto entrava um anuncio na TV Itacolomi, canal 4, com uma musiquinha que em poucos dias virou hit na cidade: O Abdalla é fogo na roupa/Com ele ninguém pode/ Veja a fama que ele tem.

Sei que a cidade inteira correu pro Abdala pra comprar calças, camisas, meias, calcinhas, sutiãs, boleros, saias pregueadas, tudo. Em poucos dias, a cidade estava toda vestida pra missa, bem no estilo Abdalla.

Apesar de um sotaque libanês, uma roupa de sírio e um bigode de turco, Abdalla caiu no gosto de um Brasil popular, que gostava de uma camisa nos trinques, fosse ela de algodão, pele de ovo, opaca ou fustão.

Na porta das lojas Abdalla, havia uns stands com promoções arrasadoras. Eu passava de ônibus pela Avenida Afonso Pena e sempre via uma multidão  de mulheres afoitas revirando aquela montanha de  calcinhas de todas as cores, escolhendo uma que lhe servisse.

Os homens, ali mesmo na avenida, escolhiam e experimentavam suas camisas coloridas, algumas já faltando botão de tanto manuseio.

As lojas Abdalla sacudiram Belo Horizonte naqueles anos 1960, deixando a concorrência de calças nas mãos. O slogan é fogo na roupa é porque o Abdalla era mesmo fogo na roupa. Seus preços eram imbatíveis. Uma dúzia de meias custava o preço de uma passagem de ônibus, ida e volta.

Um dia, fui-me embora de Belo Horizonte e deixei pra trás a euforia da moda Abdalla na cidade onde nasci. Muitos anos depois, voltei e perguntei que fim levou o Abdalla. Me responderam que as Lojas Abdalla não haviam mais. Como não havia mais a Guanabara, a Bemoreira, as Estancias Califórnia, as Lojas Gomes, nem mesmo um monumento conhecido como pirulito, que ficava na Praça 7, havia mais.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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MÚSICA, MAESTRO!

Um dos maiores tesouros do nosso país é a música popular brasileira. Não estou falando apenas de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Chico Buarque. Estou falando de Tom, Vinicius, Baden, Edu, Wilson Batista, Noel Rosa, Pixinguinha, Jorge Benjor, Luiz Gonzaga, Monsueto, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Arnaldo Antunes, João Bosco, Ismael Silva, Paulinho da Viola, Rita Lee, Jackson do Pandeiro, Tom Zé, Walter Franco, Hermeto Paschoal e tantos outros. Quando pego o Le Monde de hoje e vejo uma reportagem de página inteira falando dos shows que nossos craques andam fazendo no verão europeu, morro de inveja. Morro de inveja quando ligo a TV e vejo as chamadas dos musicais prometidos pela Globo para o nosso tenebroso inverno. Porque será que só a segunda e a terceira divisão da nossa música aparece na tela da Globo? É grana? É falta de criatividade? É falta de conhecimento? Ou é mau gosto mesmo?

[foto Reprodução]