SÃO, São Paulo

Quando deixei o Brasil, no final de março passado, com destino a um trimestre sabático na Itália e na Grécia, Como vai minha aldeia? foi um dos primeiros títulos que dei a um texto escrito, já em Florença. Os primeiros momentos na Toscana foi de abandono total de uma vida agitada em São Paulo e o esquecimento absoluto da palavra estresse. Recorri, para fazer o título, a uma velha canção do mineiro Tavinho Moura, composta nos anos setenta e qualquer coisa. Minha vida em Florença era a de quem vive numa aldeia. Andava pelas ruas e ruelas, comprava frutas e legumes num mercadinho, o jornal toda manhã na banca da esquina, cujo dono, no terceiro dia, já me reconhecia de longe e me esperava com o La Repubblica nas mãos. No fim de tarde, andava pela beira do Arno como se estivesse à beira do Rio Pomba, na minha querida Cataguases, na Zona da Mata mineira. Dois meses passei lá, assim. Logo eu, um homem urbano e tão acostumado com a efervescência de uma metrópole. Depois de Florença, descemos a Itália, atravessamos o mar e chegamos a Patras, na Grécia. De Patras, seguimos para Vryses, nosso destino final. Em Vryses, a canção de Tavinho Moura ganhou mais força. Como vai minha cidade/Oi, minha velha aldeia/Canto de velha sereia/No meu tempo/Isso era meu tesouro/Um portão/Todo feito de ouro. Vryses, uma aldeia com 78 habitantes, levou-me de volta à infância, quando vi tantos pés de frutas nos quintais. Quando ouvi a vizinha batendo na porta para nos dar de presente uma bacia de figos maduros. De madrugada, ouvia o uivo dos lobos e o ladrar dos cães, cuja finalidade era afastar os lobos. Ao amanhecer, ouvíamos mil sons de passarinhos e o sino da igreja tocando chamando os seus fiéis. O por do sol em Vryses era tão magnífico que muitas vezes lamentávamos ter chegado tarde em casa e perdido o espetáculo. O tempo passou com tudo tende passar. No avião que nos levou de Atenas a Roma, a caminho do Brasil, a revista de bordo da Alitalia, a Ulisse, estava no bolsão da frente. Antes de pegar no sono, dei uma folheada e uma reportagem sobre São Paulo foi a senha para lembrar o que me esperava. O Masp, a Japan House, o Beco do Batman, o Ibirapuera, o Instituto Tomie Ohtake, a Avenida Paulista, a efervescência estava de volta, mesmo ainda tão longe, mais de dez mil quilômetros. Então deixei Tavinho Moura de lado e me recorri a Tom Zé, que em 1968, cantou a cidade que tinha oito milhões de habitantes, que era uma aglomerada solidão, onde as pessoas amavam com todo ódio e odiavam com todo amor. Fui lembrando dos versos e cheguei ao final da poesia de Tom Zé, lembrando que apesar de todo defeito, te carrego no meu peito. Então, cheguei.

[foto Alberto Villas]

 

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