A VOLTA

Quando chega a hora de voltar ao país, é um drama pra todo brasileiro. Primeiro, pelas notícias que piscam nos sites e nas redes sociais. Em outros tempos, a gente voltava doido pra saber as novidades. Agora não, não tem nada que aconteceu nesses dias fora que não saibamos.

Segundo, porque a volta é longa e as encrencas são muitas.

Como enfiar na mala todas as bugigangas que compramos, mala que já saiu do Brasil estufada? Aí começa o descarte. Esse xampu pela metade, vai ficar. Essas Havaianas surradas também não vou levar de volta. Essa camiseta Fora Temer que está meio desbotada pelo sol, não vale quanto pesa pra enfiar na mala. Essa garrafa d’água tão linda que trouxemos do restaurante, também vai ficar. Não dá pra levar esse peso todo.

A solução então é comprar uma segunda mala, que é encontrada geralmente na lojinha de um chinês que fica aberta – desconfio –  que 24 horas por dia, esperando os turistas desesperados. Essas malas são meio vagabundas, pra usar apenas numa viagem e pronto.

Depois de um grande quebra-cabeça, vem a hora de fechar as malas. Elas são colocadas no chão, os extensores são acionados e, finalmente, a gente ouve aquele crack. Fecharam!

Quando vamos colocá-las de pé, vem outro pesadelo. Quantos quilos essas malas estão pesando? Meu Deus! É permitido apenas duas malas de 23 quilos e a impressão que temos é que, cada uma, pesa mais ou menos, uns cinquenta. Seja o que Deus quiser!

Hora de chamar o táxi. Jesus, tem de ser um táxi grande, tipo Van, pra caber tudo isso. Será que tem táxi grande nesse fim de mundo? O táxi chega, não é tão grande assim, mas o motorista, que não quer perder a viagem, dá o seu jeitinho de encaixar tudo ali dentro e acabou.

A caminho do aeroporto, além de dar o último adeus à cidade que não sabemos se voltaremos um dia, a preocupação é com o check-in naquelas máquinas que costumam responder secamente: Número de reserva desconhecido.

Tudo bem. O táxi estaciona, as malas são colocadas nos carrinhos, fizemos o check-in nas máquinas e enfrentamos a longa fila até chegarmos à atendente que, apesar do excesso de peso, acaba deixando passar tudo. Talvez pela cara de desespero e o excesso de simpatia dos passageiros que estão dando bom dia até pro luminoso da companhia, atrás da atendente.

Pronto. Agora é achar o portão 49B naquele aeroporto que parece ser maior que a cidade visitada. Mas, como agora a bagagem é pouca, o portão 49B vai acabar aparecendo, depois de muitos passos largos e muitos metros de esteira.

Será que essa bagagem de mão vai caber no porta-bagagens do avião? E se não couber? O avião já é apertado e vou ter de levar, debaixo dos pés, essa mochila que leva até um mico de pelúcia e um porquinho de borracha.

Ótimo, a mochila coube no porta-bagagens em cima das nossas cabeças. Agora só resta esperar que ninguém sente aqui ao lado, para que possamos dormir esticados o voo inteiro, a noite inteira. O que não acontece. O último passageiro a entrar no avião é o meu vizinho de cadeira.

A noite passa, a turbulência passa, a dúvida entre massa ou frango passa, e quando o comandante anuncia que começamos o procedimento de descida para o aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, passa pela cabeça o último pesadelo, o pouco dinheiro que resta e a tentação do free shop que nos espera.

Temos uísque em casa? E Mozart? Será que o limoncello acabou? Acho que o Baileys está no fim. Quanto será que está o Beaujolais? O que vou fazer com esses 35 euros que sobraram? O cartão está estourado. Será que dá pra comprar um Grand Marnier e aqueles chocolatinhos da Lindt pro pessoal da firma? E aquele relógio que a sogra pediu pra ver o preço e eu não vou ter coragem de dizer que vi e que custa caro demais?

Antes do avião pousar, vem mais uma questão. Será que vou apertar o botão verde ou vermelho da alfândega? E se apertar o vermelho? Será que vão achar aquele camembert embrulhado em oito plásticos no fundo da mala? E os figos secos comprados na Grécia? E os três pacotes de polenta italiana?

Senhores passageiros, benvindos a São Paulo! Cuidado ao recuperar suas bagagens de mão porque elas podem ter se deslocado durante o voo. Não esqueçam de verificar se estão levando todos os seus pertences, inclusive o seu aparelho celular. A temperatura no momento é de 25 graus.

Ai vem a última dúvida: Será que a fila do táxi lá fora está gigantesca?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s