MINHA VIDA DE CACHORRO

Todo dia depois de trabalhar desde a madrugada, descíamos a montanha onde estávamos morando, em Vryses, na Grécia, e ganhávamos a praia de Kyparessia. Era uma praia com um mar muito azul e pedras moldadas e coloridas por Deus, acredito eu. Aos poucos, fomos ficando conhecidos no pedaço. Nos instalávamos debaixo de uma barraca coberta com palha, alguns minutos depois o garçom com um chapéu caribenho vinha, simpático, sabendo que o que queríamos era um capuccino fredo, um café americano double e uma cerveja Mythos estupidamente gelada. Era isso. Levávamos os smartphones pra aproveitar o wi-fi, alguns livros e a edição do dia do La Repubblica. Ali, naquela praia, era o nosso momento de laser, o nosso momento de risos, de saber o que se passava no Brasil e no mundo, altos papos e banho de mar pra descarregar. Não passava muito tempo, antes mesmo do garçom voltar com a bandeja, ele aparecia. Um cachorro marrom, bem vira-lata, morador dali. Não tinha nome e parecia não ter dono. Escolheu – e bem – aquela praia pra viver. Mostrava-se sempre saciado, muitas vezes, recusando alguma coisa que oferecíamos a ele. O curioso é que ele chegava e sempre se instalava perto da gente, como se fôssemos seus protetores. Parecia gostar daqueles brasileiros forasteiros que resolveram passar uma temporada por ali, tão longe do nosso país. Era um cachorro metódico. Olhava para um lado, para o outro, escolhia a sombra de uma das barracas, arranjava sua caminha com as patas e se instalava preguiçoso. Devagarinho, ia fechando os olhos até começar o seu cochilo. Passava um tempo, abria um dos olhos, sentia calor e mudava de lugar, escolhendo uma sombra onde as pedras estavam mais frias, mas sempre pertinho de nós. Assim foi durante muitos dias. Tinha manhãs que o fotografava e ele não estava nem ai, sequer piscava os olhos. No último dia, ficou ainda mais pertinho da nossa barraca, como se estivesse ali se despedindo de nós. Hoje, tantos mil quilômetros de distância, fico aqui pensando que quinze dias já se passaram. Tem duas semanas que não o vejo. Estamos sabendo que o calor por lá aumentou, o verão começou a ferver, é alta estação. Espero que ele esteja por lá ainda e que venha encontrando sempre um cantinho fresco e sossegado pra passar suas manhãs. Se voltar a Kyparessia um dia, vou lá checar se ele está lá, com certeza. Se estiver, vou dar o nome a ele de Aritóteles, Sócrates, Platão ou coisa parecida.

[foto Alberto Villas]

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