MEIA MEIA

Eu era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones. Mais os Beatles do que os Rolling Stones. Estava mais inclinado para Lucy in the sky with diamonds do que uma Simpathy for the devil. Era mais Rubber Souldo que Let It Bleed.

Um temporal jamais visto, com ventos de cento e quarenta e cinco quilômetros por hora, quase varreu Florença do mapa. Obras de arte boiavam no Rio Arno como se fossem pedaços de tábua a vagar. A Ponte Vecchio, a única que não foi destruída pelo bombardeio alemão, resistia bravamente, mais uma vez.

Num hospital de Houston, no Texas, Marcel de Rudder resistiu apenas cinco dias com uma bomba cardíaca implantada no peito. O doutor Michael de Bakey, responsável pela façanha, explicou ao mundo que a morte foi provocada por um rompimento do pulmão e não tinha relação alguma com o aparelho instalado no peito esquerdo de Rudder.

Nós, terráqueos, vimos, através de radiofotos, as primeiras fotografias da superfície lunar enviadas pela nave Surveyor. Era mesmo uma paisagem lunática, pedras de cor cinza chumbo e nenhum sinal de vida como a nossa por aqui, com luzes, árvores, pessoas, automóveis, intrigas.

Aproveite este dia, aproveite esta hora! /Fora com todas as pragas!/Nossa força é irresistível. O último poema de Mao Tsé-Tung viera à tona naqueles dias e a grande revolução chinesa estava lançada.

A guerra do Vietnã andava a passos largos e definitivos, o cheiro de patchouli começava a impregnar o ar e a moda eram jaquetas jeans bordadas com pequenos cacos de espelho. Os hippies estavam sendo incubados.

O Brasil estava dividido entre uma Arena e um MDB, enquanto um rei era coroado, querendo apenas que alguém lhe aquecesse no inverno e que tudo mais fosse pro inferno.

Eu estava passando férias em Sobradinho, cidade satélite de Brasília, esperando nascer a minha primeira sobrinha, quando o radinho de pilha começou a transmitir a Copa do Mundo, na Inglaterra.

Na pré-história dos satélites, o som vinha e sumia daquele radinho como poeira na estrada. Mas, aos quinze minutos do primeiro tempo, ouvimos o grito de gol. Era Pelé que fazia um a zero em cima dos búlgaros.

O Brasil estava em campo com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Altair, Paulo Henrique, Denílson, Lima, Garrincha, Alcindo, Pelé e Jairzinho. Era o nosso escrete canarinho.

A gente ficava ali na varanda de uma casa popular, tentando captar um som mais puro e constante que saia fraco daquele radinho de pilha. Sabíamos que a cor da camisa da nossa seleção era amarelo ouro porque vimos na capa da Manchete, a mais colorida de todas as revistas. Mas, a do adversário, não conseguíamos enxergar, apenas imaginar. Só no dia seguinte, através das radiofotos na primeira página de O Globo, víamos as imagens, mesmo assim em preto e branco.

Campeões em 1958 na Suécia, bi em 1962 no Chile, por aqui só se ouvia falar em tri. Um tri que não veio e que foi transformado em vexame internacional, depois que perdemos da Hungria por 3 a 1 e de Portugal, pelo mesmo placar.

De tempos em tempos, trocávamos as pilhas amarelinhas do rádio, e ele recomeçava bravamente a transmissão. Foram tardes sofridas aquelas de 1966, em busca do som puro, da jogada perfeita, da festa do tri que já tinha um engradado de Brahma Chopp reservado para os que podiam beber.

O radinho de pilha aguentou firme e só foi aposentado em 1970, na Copa do México, na Copa do tri. Naquele 1966, o cinema perdeu Montgomery Clift, o surrealismo perdeu André Breton, as crianças perderam papai Walt Disney, nós perdemos a Copa do Mundo na Inglaterra, mas ganhamos uma sobrinha muito querida, a Chris, que nasceu lá em Sobradinho.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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