Um dia de fúria

A primeira vez que fui ao Jardim Botânico e coloquei os pés na TV Globo, pisei firme com o direito. Trazia dentro de uma pasta de couro, um contrato de trabalho recém-assinado e sentia nas costas um certo peso, não sei bem porque.

Me identifiquei na portaria, passei por um pequeno jardim muito bem cuidado e entrei no elevador. Apertei o botão do sétimo andar, que era onde ficava a sala do Diretor de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, que todos chamavam de Doutor Evandro, percebi no primeiro momento.

Esperei alguns minutos até que a simpática secretária ordenasse a minha entrada. Encontrei sentado numa enorme mesa transbordando de papéis, um homem muito alto e magro que eu, com mania desde pequeno de procurar semelhanças nas pessoas, vi logo que ele era a cara do grilo do filme Vida de Inseto.

O Doutor Evandro sentou-se numa poltrona para conversar comigo. Calçava sapatos marrom, acredito eu que de legítimo couro alemão. Vestia uma calça jeans Yves St Laurent com friso, uma camisa de cor alaranjada, com o primeiro botão de cima desabotoado, deixando aparecer um delicado cordão de ouro que trazia dependurado um micro olho turco. Superticioso, pensei.

O Doutor Evandro, com aquele vozeirão e tantos anos de poderoso chefão nas costas, dava medo. Ele tinha um vistoso relógio no pulso esquerdo, que olhava de tempos em tempos, deixando parecer que não tinha muito tempo a perder.

Ele quis saber um pouco do meu currículo, desejou-me boa sorte e fez questão de deixar uma coisa bem clara:

– Aqui não temos inimigos. Aqui não temos lista negra, nem proibição alguma. Dizem por aí que não podemos falar bem de Leonel Brizola. Mentira! O que for preciso dizer dele, diremos. Mas sempre a verdade.

Sai dali um pouco aliviado. Antes de assinar o contrato, quis saber da minha liberdade. Recebi carta branca de Amauri Soares e o trabalho começou no dia seguinte, um curioso primeiro de abril de 1997.

Depois desse dia, encontrei-me algumas vezes com o Doutor Evandro, sempre na sua sala. Nunca se queixou do meu trabalho no Jornal Hoje, no Jornal da Globo, no Jornal Nacional e no Fantástico. Ele deixava a impressão de que eu estava fazendo apenas a minha obrigação. Doutor Evandro não era de elogios.

Ele tinha uma postura firme e forte, imbatível. Lembro-me bem do dia – uma sexta-feira – em que fui passar o script do Fantástico pra ele. Quando disse que fecharíamos o programa com um clipe inédito e exclusivo do Chico Buarque, o diálogo foi o seguinte:

inseto.png

– Não!

– Não? Por que não?

– Não estamos aqui para vender discos do senhor Chico Buarque de Hollanda.

– Sei que não estamos aqui para vender disco do Chico, mas estamos aqui para falar de cultura.

– Deixa o Chico pros jornais falarem dele. Nós, não.

Lembrei a ele da tal lista negra que havia me falado no nosso primeiro encontro, ele argumentou que Chico não estava em lista negra alguma, mas colocar um clipe dele no Fantástico era propaganda para vender disco. Discordei.

Mas não teve argumento. Um não do Doutor Evandro era um não e não tinha volta. Sai da sala meio cabisbaixo, carregando a tristeza de não fechar o Fantástico com o Chico cantando Me sinto pisando/Um chão de esmeraldas/Quando levo meu coração/À Mangueira.

Mas isso são águas passadas. O que quero contar aqui hoje nesta crônica, é uma história engraçada, meio sem pé nem cabeça, talvez uma bobagem.

Era domingo, por volta de dez da noite, eu estava no switcher colocando o Fantástico no ar quando o telefone tocou. Quando aquele telefone tocava, era alguma coisa séria porque era uma espécie de telefone vermelho.

O produtor atendeu e, meio pálido, me passou o gancho.

– É o Doutor Evandro!

Doutor Evandro estava tendo um chilique. Furioso e, antes mesmo de perguntar se era eu quem estava na linha, disparou:

– Eu quero o nome do editor! Eu quero o nome do editor! Eu quero o nome do editor que é militante do Partido Verde!

Segundos antes, tínhamos colocado no ar, uma pequena noticia do domingo, em que os cariocas abraçavam a lagoa Rodrigo de Freitas, em mais um desses atos típicos do domingo carioca, mais uma tentativa de salvar os seus peixes.

Era o que chamamos de nota coberta, em que o apresentador narra e a imagem mostra o fato. O que enfureceu Doutor Evandro foi uma imagem em primeiro plano de um jovem vestindo uma camisa branca com um enorme V no peito, o logotipo do Partido Verde, um partido que não passava de 0,1% da intenção de votos em qualquer pesquisa. Mas o Doutor Evandro encasquetou que ali havia uma mensagem cifrada do pobre editor que, na verdade, tinha razão de colocar no ar apenas uma boa imagem.

Não podia ver seu rosto, mas pelo tom de voz senti que deveria estar espumando de tanta fúria.

Não respondi nada, disse apenas que não poderia interromper o meu trabalho que era tenso, muito tenso, de colocar o Fantástico no ar. Doutor Evandro, antes de bater o telefone na minha cara, disse que queria, no final do programa, o nome do editor.

O Fantástico acabou, recolhi minhas coisas, apaguei as luzes, peguei um taxi amarelo na porta da emissora e me recolhi a um quarto de hotel em Ipanema, esperando o telefone tocar a qualquer momento.

O tempo passou, o telefone ficou em silêncio. Alguns dias depois, encontrei com o Doutor Evandro deixando a emissora no final do expediente. Ele me chamou e disse que acabara de ler um livro espetacular e perguntou se já tinha lido. Era Pastoral Americana, de Philip Roth. Disse que ainda não tinha lida e ele completou:

– Leia! Leia! É uma obra prima.

Passei na Livraria da Travessa, comprei o livro, li, procurando ali uma mensagem cifrada. E nada.

Tivemos alguns outros encontros e o Doutor Evandro nunca mais tocou no assunto Partido Verde. Morreu sem saber o nome do editor que, um dia, me confessou que nem sabia que aquele V dentro de um circulo na camisa daquele manifestante da lagoa, era o logotipo do Partido Verde, partido que ele nunca votou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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