OS JOVENS NÃO PASSAM ROUPA

É muito vaga a minha lembrança do ferro a brasa. A única que me vem à memória, é lá da Fazenda do Sertão, interior de Minas, eu menino ainda, espiando da janela uma senhora idosa passando roupa com o tal ferro. Éramos proibidos de entrar ali porque saiamos tossindo muito e defumados.

Era uma senhora negra, franzina, um lenço branco na cabeça, que enfrentava com todo vigor uma pilha de roupas pra passar, que ela costumava deixar dentro de um enorme cesto de vime.

Na Fazenda do Sertão não havia eletricidade, vivíamos de lamparina e a solução para passar roupa, era aquele pesado ferro a brasa, uma verdadeira maria fumaça.

A senhora soprava e colocava brasa toda vez que sentia que a roupa não estava ficando lisinha e impecável. Eram uns lençóis brancos, umas fronhas bordadas e muita roupa encardida de crianças que viviam naquela poeira danada, barro quando chovia.

Muitos anos depois, vi alguns ferros a brasa no interior de Minas, decorando casas, com arranjos de flores dentro, ou segurando a porta para não fechar.

Quando chegou o ferro elétrico, o temor da minha mãe veio junto. Era uma época em que os aparelhos eletrodomésticos davam muito choque e minha mãe só encostava no ferro de passar com uma sandália de borracha nos pés.

A minha irmã mais velha logo ficou apaixonada pelo tal ferro elétrico, tão apaixonada que o meu pai deu a ela de presente de Natal, um ferrinho de passar roupa da Estrela. Era um ferrinho de verdade, com fio e tomada, que ligava e esquentava. Parecia que ninguém tinha medo do perigo.

A mamadeira era de vidro, andávamos em muros com cacos, fazíamos guerra de mamona, jogávamos bola na rua e andávamos armados com um revólver de espoleta na cintura, também da Estrela. A gente matava e nossos amigos morriam de mentira.

Voltando ao ferrinho da Estrela, um dia, minha irmã saiu do banho e foi passar a roupinha da boneca. Descalça e com os cabelos molhados, ela acabou levando um choque violento e ficou presa a ele, gritando por socorro. Foi depois disso que minha mãe escondeu o ferrinho no alto do armário, pra ninguém nunca mais pegar.

Estou contando essas histórias, mas a que eu quero mesmo contar é que percebi ultimamente, que essa juventude de hoje não passa mais roupa. Ninguém das amigas ou amigos das minhas filhas, nem mesmo elas, passam roupa. Acham que é inútil, uma bobagem, gastar tempo e energia passando roupa.

Eu não me acostumo com roupa amassada. Outro dia liguei pros meus irmãos e perguntei se eles ainda passavam roupa. Sim, todos continuam saindo sempre na estica. Alguns gostam de passar, outros não. Mas todos fazem questão de sair com a roupa passada.

Foi então que minha irmã lembrou de Maria Passadeira que, confesso, havia sumido da minha memória há décadas. Ela foi reativando à medida que minha irmã ia abrindo seu baú de memórias.

Ninguém sabia o sobrenome da Maria. Era Maria Passadeira e pronto. Uma vez por semana, ela ia na nossa casa pra passar roupa. Chegava, tomava um cafezinho ralo com um pedaço de pão com manteiga, encurtava a conversa e dizia: “O papo está ótimo, mas eu tenho um mundo de roupa pra passar”.

E tinha mesmo. Éramos cinco filhos e muita roupa, muitos lençóis, muito uniforme de futebol, muita camisa social do meu pai. Mas a Maria Passadeira nunca reclamava. No final do dia, ela ia de quarto em quarto e colocava, em cima da cama de cada um, a roupa impecavelmente passada.

Maria Passadeira não sabia cozinhar, não gostava de arrumar a casa, gostava só de passar roupa. E passava bem, inclusive engomando aquelas saias plissadas das minhas irmãs, uniforme do Colégio Sion.

Não sei se ainda existem passadeiras como Maria Passadeira, que vão na casa das pessoas exclusivamente para passar roupa. Talvez tenham desaparecido juntamente com as costureiras à domicilio, com o Simca Chambord, com a Mirinda Morango, com os maiôs Catalina e com as estampas do sabonete Eucalol. Enfim, tudo passa.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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AGRO É VENENO

Aconselho a quem gosta de ver as propagandas exibidas pela Rede Globo afirmando que “agro é pop, agro é tudo”, a ler o número de setembro da revista Superinteressante que está chegando às bancas. Um grito de alerta: “O Brasil é o campeão mundial no uso de pesticidas. E o Congresso está se mobilizando para que a agricultura possa usar ainda mais”. As propagandas realmente são muito bem feitas e aparentemente convincentes. Mas são venenosas.

[foto Alberto Villas]

CHEGA DE SAUDADE

Tinha eu oito anos de idade quando chegou às lojas de discos o vinil do baiano João Gilberto, Chega de Saudade. Não me lembro se meu pai comprou ou não, talvez sim. Talvez sim porque ele sabia de cor e salteado a canção que diz assim: “Aos pés da Santa Cruz você se ajoelhou/e em nome de Jesus/um grande amor você jurou/Jurou mas não cumpriu/Fingiu e me enganou/Pra mim você mentiu/pra Deus você pecou”. O disco está fazendo sessenta anos nesse agosto de 2018, proibido de ser reeditado no Brasil por determinação da Justiça, de um processo entre João e a gravadora. Fico aqui ajoelhado aos pés da Santa Cruz, a gravadora Audiophile Clear Vinil, que relançou o disco histórico de João Gilberto nos Estados Unidos e na França. E agradeço a sorte de ter entrado na Fnac Rue de Rennes e encontrado, escondidinho na prateleira de World Music, o vinil novinho em folha, curiosamente transparente. É tempo de ouvir Lobo Bobo, Maria Ninguém, É luxo só, Manhã de Carnaval, Ho-Ba-La-La, além de Aos pés da cruz e Chega de saudade!

[foto Alberto Villas]

A IMPRENSA ESCANCARADA

Com certeza, o editor-chefe do jornal O Estado de S.Paulo sabe que, com raríssimas exceções, políticos brasileiros são eleitos – e não é de hoje – com ajuda de caixa 2. Mas, bem perto das eleições, ele resolve colocar em sua manchete principal, uma acusação contra o candidato a vice na chapa de Lula, o primeiro disparado em todas as pesquisas. É claramente uma tentativa desesperada de diminuir os pontos que o PT tem nas pesquisas do Ibope e do DataFolha, dos dois principais institutos do país. Para escancarar ainda mais sua parcialidade, o jornal coloca, no alto da página, uma chamada positiva para o candidato do Partido Novo, seguramente o candidato do Estadão, já que Geraldo Alckmin não consegue decolar, não sai do chão, talvez por falta de combustível ou enguiço na mecânica mesmo.

[foto Reprodução]

NOVOS TEMPOS

Sou do tempo de Mamãe Dolores, do Direito de Nascer. Sou do tempo em que as pessoas diziam “lista negra” e “a coisa tá preta”. Mas sou do tempo em que Elis Regina começou a cantar Black is Beautiful, que Angela Davis foi capa da Life e da Newsweek e que John Lennon e Yoko Ono cantaram Women is the nigger of the world. E hoje, sinto-me feliz por ter vivido para contar. Contar que, apesar de todas as pedras que os racistas colocam na nossa frente quase que diariamente, estamos vivendo um novo tempo. Um tempo em que negras e negros aparecem em papéis importantes nas novelas, estão nos anúncios da televisão, ocupam as capas de revistas que sempre chegaram às bancas estampando loiras de olhos azuis. Vogue, Elle, Marie Claire, Porter e tantas outras. Sou do tempo em que negros só apareciam na capa da americana Ebony. Sou do tempo em que Paul McCartney virou o jogo e cantou ao lado de Stevie Wonder, uma de suas mais belas canções, Ebony and Ivory, onde as teclas do pianos, umas pretas, outras brancas, convivem em perfeita harmonia.

[foto Reprodução]

NÃO CHORE MAIS

Quando o inverno apertava, os ossos começavam a doer ao abrir, todas as manhãs, a janela da sala, encravada pela ferrugem e por uma tinta óleo de anos. Havia um silêncio no ar e o silêncio ocupava os poucos cômodos daquele apartamento alugado num bairro comunista de Paris, abrigo de exilados. 79, Rue de la Roquette.

O fog, a chuva fina lá fora, o brilho da água no asfalto novo refletia no vidro das janelas e no nosso chão, como se fosse um cinemascope. Eu passava a mão como se fosse a rosa púrpura do Cairo e não sentia nada, nenhum calor naquela luminosidade.

Era melhor mesmo ficar em silêncio por alguns minutos. As cartas não chegavam mais, nenhuma foto, nenhuma revista, nenhum recorte de jornal na caixa de correio instalada na parede mofada na entrada de onde residia.

Líamos jornais clandestinos vindos do Sul, o manual de guerrilha de Carlos Marighela, os fascículos da Editora Maspéro e a Nouvel L’Obs para aluviar.  Vínhamos andando pelo Boulevard Saint Germain, descíamos o Saint Michel, passávamos pela barraca de drágeas colorias, balas perdidas em potes de plástico, e chegávamos na Livraria Joie de Lire.

Um ar meio maoísta tomava conta do lugar e eu descia cuidadosamente os degraus da escada estreita até chegar ao subterrâneo onde estava o Opinião, onde estavam, em uma mesa redonda, todos os jornais uruguaios, argentinos, chilenos e peruanos.

Sabia que a distância era tão sofrida, o mundo tão separado, jamás se hubiera encontrado, sin aportar nuevas vidas. E quem garantia que a história era uma carroça abandonada numa beira de estrada, ou numa estação inglória?

Em casa, lia Dalton Trevisan para aprender a escrever curto e grosso. Queria, para os meus contos, nomes de obras primas dos gênios da pintura espalhadas pelos museus do mundo que começava a conhecer.

Rapariga com brinco de pérola, O cavaleiro risonho, O baile no Moulin de La Galette, A noite estrelada, Menino em um colete vermelho, Natureza morta, O beijo e O grito.

Queria ter nascido holandês para entregar esses manuscritos no Ministério da Cultura em Amsterdam e receber por eles um punhado de florins que daria para comprar pão preto, geleia de laranja amarga, um triângulo da Vache qui ri e um vidrinho de Nescafé.

Queria descrever cenas dos meus companheiros colhendo morangos nas cercanias de Estocolmo, colhendo tâmaras no interior da Síria ou colhendo uvas na região de Bordeaux. Eram amigos que trabalhavam na cozinha, nas estradas, campos e construções.

A dor nas costas era intensa de tanto separar as uvas verdes das maduras, o joio do trigo, encontrar a agulha no palheiro. Queria ser Esopo pra escrever e Marc Chagall para ilustrar as uvas verdes nas alturas, maldita raposa.

Queria colher o trigo, amassar o pão, colocar na vitrola O evangelho segundo Cristiano, mesmo sabendo que o vinil estava arranhado de tanto uso, o chiado forte, Geraldo Vandré.

Me alegrava o pessoal do Nordeste gravando discos na CBS e os urbanos de São Paulo gravando na Continental. Walter Franco cantando nothing, to do nothing, today, about me, I’m happy no, I’m not sad, I just happy now, looking to the empty space.

Eu olhava pro espaço sideral na esperança de ver Laika passeando no céu de cosmonautas que nos protegia. Aqui não era Londres, mas mesmo assim havia no canto o silêncio do meu violão, nem eu mesmo sei porque.

Procurava nas páginas amareladas do Pasquim, notícias sobre aquele exilio recém anistiado de Caetano Veloso e Gilberto Gil e encontrava apenas nostalgia, tudo tão triste, uma saudade danada do mar da Bahia e fragmentos do Demiurgo numa câmera Super-8.

Lembrava da minha coleção do jornal Rolling Stone encadernada e tentava recordar se havia alguma noticia ali do Festival da Ilha de Wright, notícias de Janis, de Jimi e principalmente de Joe. Pedia apenas um help, uma pequena ajuda dos meus amigos, amigos que a essa hora estavam ali sentados no aterro sob o sol, presos ou sumindo pra nunca mais.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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BANCAS DE CONVENIÊNCIA

Enquanto nossas bancas minguam por falta de jornais e revistas, cada dia mais anoréxicos, senão terminais, e passam a vender bonecos de pelúcia, guarda-chuvas, bolas, refrigerantes, biscoitos e chocolates, além de jornal velho pra cachorro, as bancas da Europa ganham fôlego. Em uma semana, o jornal francês lançou nas bancas a coleção completa de vinis dos Beatles, vendidos um por semana, e ontem, uma coleção suntuosa sobre o cérebro humano. Pensando bem, uma coleção que poderia ser traduzida e lançada por aqui. Estamos precisando.

[foto Reprodução]

LUZ NO FIM DO TÚNEL

A televisão anda muito chata, chata demais, talvez para o meu gosto. Nos meus momentos de folga, às vezes zapeio, zapeio e não encontro nada que preste. Desligo. Gosto de algumas coisas. O papo de mãe (Cultura), O papo de segunda, o Decora, a Rita Lobo (GNT), coisas assim. Mas, confesso, deveria prestar mais atenção no Canal Brasil. Ontem estreou uma série de 10 programas pilotados por Gilberto Gil (Amigos, sons e palavras) que, na verdade, não trata-se de um talk show, mas de um papo entre amigos. A estréia, com Caetano Veloso, amigo do peito e de longa data, foi uma conversa ótima. Pena que curto demais (meia hora). Os dois conversaram sobre canções, família, envelhecimento, a vida enfim. Gil lembrou bem uma frase de Dona Canô, mãe de Caetano, a sábia, que abrilhantou o papo: “Quem não morre, envelhece”. O programa de Gil merece ser visto e revisto. Toda terça, 21h30 tem uma novidade. Terça que vem a convidada é Fernanda Torres. Se eu fosse você, não perdia por nada.

[foto Reprodução TV]

ENVIADOS ESPECIAIS

O Libération chegou hoje cedo às bancas da França com uma grande cobertura. Os repórter do jornal foram até a Faixa de Gaza para ouvir os seus moradores. São palestinos mutilados, ameaçados, que convivem com uma guerra que não tem hora para terminar. Mostram o dia a dia daqueles que convivem diariamente com o temor, o horror. Chamo isso de Jornalismo.

[foto Reprodução]

PORCARIAS

Foram instalados inúmeros quiosques em várias estações de metrô de São Paulo. Até ai, uma boa notícia. O metrô precisava mesmo ganhar mais vida e oferecer opções de comida aos usuários, sempre apressados, muitas vezes atrasados para seus compromissos. Observando um a um, VillasNews constatou que em cem por cento dos casos, esses quiosques vendem apenas um tipo de comida e bebida, que poderíamos chamar de “porcaria”: Balas, bombons, pacotinhos de batatinhas transbordando de sódio, salgadinhos, chocolates dos mais variados preços e qualidade, refrigerantes e sucos industrializados. Num país onde o índice de obesidade vem crescendo ano a ano, isso é crime. Em nenhum quiosque constatamos a venda de sanduíche ou suco natural ou de frutas, por exemplo. E estamos num país tropical, onde fruta é o que não falta.

[foto Alberto Villas]

POLÊMICA

O jornal francês Le Monde publicou um curioso texto de página inteira assinado por Michel Kimmel, cujo tema é um movimento chamado “rébellion incel” (solteiros involuntários. São homens nostálgicos que querem a volta da vida sexual como era antes do feminismo. São solteiros que argumentam que os movimentos feministas desvirtuaram o sentido da palavra sexo. Tudo muito discutível.

[foto Reprodução]

UM LIVRO

BOB DYLAN – A YEAR AND A DAY

A luxuosa Taschen está colocando nas livrarias um livro que reúne as fotografias de Daniel Kramer e Robert Santelli, uma obra prima para os fãs. Kramer acompanhou Dylan durante os anos de 1964 e 1965, realizando a mais perfeita tradução do artista quando jovem.

[foto Daniel Kramer/Reprodução]