ORGANIZANDO O MOVIMENTO

Andando pela Rue des Écoles, em meados dos anos 1970, parei perplexo diante da vitrine de uma livraria que não conhecia. Vi ali exposto o livro Cemitério de Elefantes, de Dalton Trevisan, de contos curtos e instigantes, que também não conhecia.

O que estaria fazendo aquele livro do vampiro de Curitiba, em português, numa livraria no coração do Quartier Latin? Fui saber quando dei dois passos atrás e li: Librairie Portugaise e Brésilienne.

Longe do meu país há um tempo, entrei maravilhado descobrindo, aqui e ali, livros em português e discos de vinil de MPB. No primeiro dia que entrei ali, levei pra casa, além do Cemitério de Elefantes, o disco Romaria, de Renato Teixeira, que já tinha lido a respeito nos recortes de jornais que meu irmão enviava pelo correio.

Virei freguês. No segundo dia que entrei naquela livraria vi, de pé ao lado do caixa, um senhor elegante que me pareceu familiar, jeito de mineiro como eu. Vim a saber que era o José Maria Rabelo, jornalista, exilado, fundador do jornal Binômio, que circulava na minha Belo Horizonte, quando eu era ainda menino de calças curtas.

O Binômio foi um jornal que virou Minas Gerais de cabeça pra baixo, uma espécie de Pasquim das montanhas. Nunca me esqueci daquela manchete do dia em que o presidente Juscelino Kubitschek voou num jatinho pra Araxá levando o empresário Francisco Rolla. No dia seguinte, lá estava estampada na primeira página do Binômio:

JK vai a Araxá e leva Rolla!

Criei coragem e me apresentei. Zé Maria Rabelo, como todos o conheciam, ficou interessado no Movimento, jornal que eu trabalhava como correspondente na época. Ele era leitor. Contei a ele do nosso plano de vender o jornal para exilados em Paris, que eram mais de dez mil.

– Vamos vender aqui! Disse ele, sem pestanejar.

Aquilo bateu como um vento forte de animo para nós, cansados de guerra, resistindo bravamente. A ditadura militar já começava a dar sinais de que, mais cedo ou mais tarde, bateria as botas.

Todos os dias, eu acordava às quatro horas da madrugada porque, cinco em ponto, eu já deveria estar no restaurante Les Hauts de Belleville, onde servia o café da manhã para os trabalhadores.

Nove horas, com tudo em ordem, fechava as portas e ia pra casa descansar.

Depois daquele encontro com Zé Maria Rabelo, virou rotina. Toda segunda-feira depois do expediente, eu pegava o ônibus na Gare Denfert-Rochereau com destino ao aeroporto de Orly. Na alfândega, me apresentava e recebia um pacote com cem exemplares do jornal Movimento, embrulhados em papel kraft e amarrados com um forte barbante.

Colocava dentro de um carrinho de feira e voltava no mesmo ônibus que me deixava novamente na Gare Denfert-Rochereau. De lá, pegava o metrô e ia até a estação Saint-Michel, que ficava perto da livraria do Zé Maria.

Ele sempre me recebia de braços abertos e, feliz, mostrava a prateleira onde ficava o Movimento, quase vazia. Seus olhos brilhavam ao ver aquele pacote de jornais frescos. Fazia as contas de quantos tinha vendido na semana e me pagava em dinheiro, francos franceses vivos, dinheiro que dava pra comprar o leite e o croissant das crianças.

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Zé Maria Rabelo agora caminha para os cem anos com a mesma elegância 

Ficamos amigos, nunca íntimos, mas amigos. Foi na livraria do Zé Maria Rabelo que um dia, fuçando os vinis, vi, ao meu lado, uma tímida Nara Leão. Mas essa é outra história.Um dia, eu e Zé Maria Rabelo voamos de volta pro Brasil nas asas da abertura, cada um pro seu canto. De vez em quando, tenho notícias dele pelo Facebook.

Essa semana fiquei sabendo que estava comemorando 90 anos de vida, com direito a palestra sobre os caminhos do exílio, no evento Sempre um Papo, do incansável Afonso Borges, um sucesso em BH.

Pedi ao Fernando, filho do Zé Maria Rabelo, uma foto recente dele para ilustrar essa crônica e o retrato chegou em poucos minutos pelo messenger, bem caprichado.

Zé Maria Rabelo agora caminha para os cem anos com a mesma elegância que me recebia toda segunda-feira na Librairie Portugaise et Brésilenne. O Zé Maria Rabelo é um desses tipos inesquecíveis, mineiro boa praça, que continua firme e forte, organizando o movimento.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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CRISE DE ABSTINÊNCIA

Sim, estou. Desde que deixei Florença, sinto falta. Sinto falta do Rio Arno, por onde passava todos os dias, iPhone na mão, sempre captando uma novidade. Sinto falta da Ponte Vechio transbordando de gente e da banquinha de jornais que tinha, bem na esquina da casa onde morávamos. Era lá que toda manhã ia comprar o jornal La Repubblica. O dono da banca, a edicola, já me conhecia e ia lá dentro buscar o jornal assim que me via despontar. Todos os dias, ele me entregava nas mãos, um La Repubblica gordo, pesado e cheio de novidades. Estou em crise de abstinência. Queria voltar a ler as páginas iniciais, o Primo Piano, as notícias mais importantes do dia. Estou em crise de abstinência porque já faz mais de mês que não leio nas minhas mãos o caderno Food, o caderno Lab, o caderno Club e o caderno Salute. Já faz mais de mês que quando chega sexta-feira eu não tenho nas minhas mãos a revista Il Venerdi, com pautas maravilhosas. No domingo, sinto falta do suplemento Robinson, com dicas de todos aqueles livros maravilhosos pra ler, todos aqueles discos maravilhosos pra ouvir. E da revista L’Espresso, que vem junto com o La Repubblica. Eu quero um jornal de papel pra viver. A minha assinatura virtual é apenas um paliativo, os 15 euros mais bem gastos todos os meses, mas não me satisfaz completamente.

[foto Reprodução]

QUE PAÍS É ESTE?

Volto a falar do Brasil que eu quero, aqueles depoimentos que a Rede Globo vem colocando no ar em seus telejornais desde o início do ano. Todo dia é a mesma ladainha: “Quero um país sem corruptos, um país onde os políticos se preocupem com a educação, a segurança, a saúde, com a igualdade, com a distribuição de renda”, etc e tal. Estão todos certos. Mas seria bom avisar a todos, por exemplo, que Roseana Sarney é candidata ao governo do Maranhão. Seria bom avisar a todos, repito, que esse é o Brasil que não queremos.

OK OK OK

Em meio a essa confusão generalizada em que vivemos no Brasil hoje, a notícia da chegada às lojas de um disco de inéditas de Gilberto Gil deve ser sempre festejada. Talvez poucas pessoas se lembram, mas a expressão Ok Ok Ok foi usada por Gil num disco de 1969, no início da gravação de 2001, música de Tom Zé e Rita Lee. Ouça:

 

TRISTE BRASIL

Enquanto os nossos jornais vão minguando, demitindo jornalistas, encolhendo a olhos vistos, os jornais europeus procuram uma saída para o avanço do mundo edital. O diário comunista italiano, por exemplo, que publica um caderno de cultura excepcional no final de semana, o Aliás, foi buscar na natureza uma inspiração para mais um caderno que seguramente vai atrair leitores. L’Extra Terrestre, um suplemento de ecologia está aí para engordar o jornal, proporcional maior volume de leitura e com um assunto que interessa a todos os moradores do Planeta Terra.

[foto Reprodução]

PEG-PAG

Lembro-me muito bem do dia em que foi inaugurado o primeiro supermercado em Belo Horizonte. Ele chamava-se Serv-Bem e ficava na praça Diogo de Vasconcelos, hoje Savassi.

No dia da inauguração, fizemos fila pra entrar naquela maravilha que chegava da América do Norte. Daríamos adeus ao Mercadinho Colombo para mergulhar de cabeça no futuro.

Nada mais bacana do que entrar ali no Serv-Bem, percorrer os corredores vendo os mantimentos, as latarias, as frutas e os legumes, ir colocando tudo dentro do carrinho e só pagar na saída.

A gente pegava o pacote de Cremogema, a latinha de presuntada Wilson, o saquinho de Mandiopã, a pasta de dente Kolynos e saía feliz da vida. Havia chegado ao fim aquela história de ter de ir ao Armazém do Seu José e pedir uma lata de biscoitos Aymoré.

A moda pegou naquele início dos anos 1960 e, num piscar de olhos, a cidade foi ganhando vários peg-pags da vida, enquanto os armazéns baixavam suas portas definitivamente.

Desde o Serv-Bem, eu virei fã de supermercado. Tem gente que odeia, mas eu confesso que gosto. Por onde ando nesse mundo afora, sempre entro em supermercados pra ver as novidades. Nessa última viagem, descobri Fanta sabor flor de sambuco num supermercado de Florença, Fanta sabor goiaba na cidade de Pylos, na Grécia, e encontrei vidros de leite de égua num supermercado em Paris.

Gosto de ver as novidades, os rótulos, ter surpresas como ver a latinha da Amstel e o tubo da Super Bonder escritos em grego. O que não muda é a danada da embalagem laranja do arroz Uncle Bens, que é igual no mundo inteiro.

A gente sabe que supermercado é uma armadilha. Entramos pra comprar um pacote de manteiga e saímos de lá com uma caixa de cerveja, uma dúzia de bananas, uma geleia importada, quatro iogurtes gregos, um sabão em pó, além de pães quentinhos. Mas mesmo assim eu gosto de supermercado.

Gosto até mesmo de ler as listas de compras esquecidas dentro dos carrinhos. Outro dia encontrei uma assim:

Achocolatado (tem de ser Toddy)

Vanish do branco

Pinho Sol do roxo

Sabão pra máquina (o mais barato)

Só não gosto daqueles hipermercados que, pra chegar ao pacote de arroz Tio João, você tem de passar antes pelos pneus, televisores, geladeiras, liquidificadores, flores, roupas e calçados.

Na verdade, ando meio embirrado nos últimos tempos com supermercados, principalmente esse que tem aqui na esquina de casa. E vou contar o motivo. Antes, era só chegar, escolher os produtos, colocar no carrinho e passar pelo caixa. Coisa rápida.

Agora, ir ao supermercado virou uma coisa tão demorada quanto pagar uma conta na boca do caixa de um banco ou pegar uma fila da megasena acumulada na noite de quarta-feira. Depois de passar uns dez minutos na fila, chega sua vez. Ai a caixa dá um sorrisinho amarelo e faz um questionário e dá ordens:

É cliente mais?

Pode digitar o CPF!

Confirma!

Quer nota fiscal paulista?

No mesmo CPF?

Quer carregar o celular?

Vai querer sacolinha?

Aí você começa a colocar os produtos na sua sacola descartável e, quando termina, mais perguntas:

Qual é a forma de pagamento?

Débito ou crédito?

Pode digitar a senha!

Vai querer selinhos pra trocar por bonecos de pelúcia do Jamie Oliver?

Tem o ticket do estacionamento?

Isso sem contar quando o código de barras não passa na leitora e a caixa é obrigada a dar uma esfregadinha, tenta de novo e começa a digitar aquela centena de números.

Isso, sem contar que, a todo momento, você tromba com um cliente, de olho grudado no celular porque agora você tem de checar os descontos no aplicativo.

Nessas horas dá uma certa saudade de Seu Mario, que tinha um armazém na Rua Grão Mogol e vendia tudo a granel. A gente chegava, pedia um quilo de alpiste, meio quilo de ração pra poedeira, dois quilos de canjiquinha e, em poucos minutos, saia de lá com os pacotinhos de papel na mão. Ali sim, era lugar de gente feliz.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

SAI DE BAIXO!

Confesso que ultimamente ando com medo de circular por algumas ruas de São Paulo, uma cidade tão judiada. O temor maior vem quando preciso percorrer a rua que passa por debaixo do viaduto Presidente João Goulart, mais conhecido por aqui como minhocão. Vejo rachaduras, vejo goteiras, vejo mofo e ontem, no final da tarde, vi nada mais nada menos que uma árvore que surge frondosa e bela, bem na junta do concreto. Percorro aquele pedaço com o coração na mão, imaginando que se os engenheiros responsáveis pela manutenção do minhocão, não perceberam aquela árvore ali, com mais de um metro e meio de altura, teriam eles percebido as rachaduras, as goteiras, o mofo? Se um dia esse viaduto despencar sobre a cabeça dos paulistanos vai ser uma tragédia sem tamanho, anunciada aqui.

[foto Alberto Villas]

LITERATURA

O Brasil sempre torceu o nariz para as histórias em quadrinhos. Sempre considerou uma arte menor, uma arte para quem não gosta muito de ler. O forte aqui sempre foi (ou era) quadrinhos para muito jovens, tipo Disney ou Mauricio de Souza. Claro que os super-heróis sempre tiveram seus fãs, bem como a Valentina de Guido Crepax, as tirinhas de Angeli, Laerte, a turma do Circo, Chiclete com Banana. Essa é uma visão minha, meio superficial, sem entrar em detalhes, por exemplo, dos livros primorosos que estão saindo aqui com os grandes clássicos da literatura em quadrinhos. Mas o quadrinho para adultos, ainda engatinha. O brasileiro Marcello Quintanilha, por exemplo, ganhou uma página inteira do prestigioso jornal francês Le Monde porque acaba de arrebatar um dos maiores prêmios do setor e quase ninguém o conhece por aqui.  O álbum de Quintanilha – Les Lumières de Niterói – será lançado na França no dia 9 de novembro e está sendo esperado como a grande obra de HQ da rentreé. As historias em quadrinhos para adultos são tratadas na França com valor que merecem. Basta entrar numa das Fnacs de Paris e ver que a seção de quadrinhos é do tamanho de uma livraria grande daqui.

[foto Reprodução/Le Monde]

 

SANGUE PURO

Havia em São Paulo um jornal chamado Notícias Populares, sensacionalista, que as pessoas costumavam brincar que se espremesse, saia sangue. As notícias colhidas no mundo cão, ocupavam a maioria de suas páginas. O NP era sangue puro. Hoje, o jornal não existe mais, mas as noticias que ele certamente anunciaria em sua primeira página se vivo fosse, estão espalhadas pelos sites de informação como o UOL, o G1, o globo.com. As cinco manchetes reproduzidas acima, estavam nesses sites hoje, a tarde inteira. Juro que se eu espremesse o computador, sairia sangue. Triste Brasil.

[montagem das manchetes VILLASNEWS]

PUFF!!!

E tem gente que não acha que o mundo está ficando chato. Eu me lembro muito bem que os meus quatro filhos, quando pequenos, eram fãs do ursinho Puff. Eu comprava livrinhos com as historinhas pra eles, comprava o ursinho de pelúcia e eles se divertiam. Agora, chega a notícia de que o ursinho foi banido da China pelo simples fato de uma certa aparência com o presidente Xi Jinping. A brincadeira começou nas redes sociais e foi se espalhando pelo país. Para evitar chacotas, o governo decidiu simplesmente proibir o uso da imagem do ursinho. Ainda não se sabe se ele pediu asilo ou está vivendo clandestinamente no país. E hoje chega mais uma bomba. O governo chinês resolveu colocar abaixo o ateliê de um dos mais importantes artistas da atualidade, Ai Weiwei, na periferia de Pequim. Sim, o mundo está ficando chato.

[foto Reprodução]

SEM LENÇO E SEM DOCUMENTO

                                                                              

O livro Caminhando contra o Vento, da italiana de origem somali, Igiaba Scego (Editora Buzz, tradução de Francesca Cricelli) já está nas livrarias. Trata-se de um curioso texto escrito por uma fã de carteirinha, que conhece melhor o cantor e compositor baiano Caetano Veloso do que muitos brasileiros. Ela traça um perfil bem completo dele, seus discos, suas parcerias, sua família e de uma maneira muito particular. O livro bem que poderia chamar-se O meu Caetano. É um prazer ler em cada página, passagens da vida do compositor e perceber que Igiaba conhece o movimento musical brasileiro de cor e salteado. Curiosamente, ela conheceu a obra do baiano quando trabalhava como vendedora de discos. Quando descobriu o disco Cores, Nomes, sua paixão nasceu e só foi crescendo. Tenho apenas duas observações a fazer, erros que podem ser corrigidos na próxima edição. Primeiro, quando fala de Araça Azul, ela diz que todas as canções foram compostas por Caetano. Na verdade, o disco tem três músicas que não são dele: Cravo e Canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos}, Tu me acostumaste (F. Dominguez) e Eu quero essa mulher (Monsueto Menezes e João Batista). Segundo, ela troca o nome de um dos filhos de Caetano. Chama Zeca de Zé. E como ela comenta várias capas de seus discos, faltou lembrar (quando fala de Qualquer Coisa) que a capa é uma brincadeira com Let It Be, dos Beatles. No mais, um livro admirável para qualquer pessoa que gosta de Caetano e de sua obra. A gente lê numa golada só.

                                                                                                       

[fotos Reprodução]

 

A ILHA DE CUBA

A emoção é sempre muito grande quando a gente pisa num lugar sonhado pela primeira vez. Foi assim quando cheguei a ilha de Cuba e fui recebido como um pachá. Claro. Estava ao lado de Chico Buarque, nosso embaixador por lá.

– Chico! Chico! Chico! gritavam no aeroporto para um Buarque de Holanda sorridente e meio tímido, cigarro entre os dedos, depois de muitas horas de voo.

Eu era um garoto magro e cabeludo, tênis Bamba nos pés, calça jeans desbotada, camiseta com estampa de rock and roll e uma mochila da Company nas costas, cheia de sonhos e ilusões. Nem parecia um funcionário do Estadão, com carteira assinada e tudo mais.

Voei pro Panamá e depois embarquei num avião da Cubana, que mais parecia um ônibus da Cometa com asas. Gostava daquela aventura, não reclamava do barulho do motor, da turbulência dentro das nuvens, do papel de parede florido descolando da mesinha de lanche. Não reclamava nem mesmo da cerveja quente sem rótulo servida a bordo.

No pensamento, modificava a canção de Luiz Melodia, cantando baixinho se alguém quer matar-me de amor, que me mate no espaço aéreo da ilha de Cuba!

Voava ansioso com a missão de cobrir o Festival de Música de Varadero para o Caderno 2 que, além de Chico, tinha Maria Bethânia numa noite bem brasileira.

O jornalismo não era quadrado, medroso, tampouco burocrático, tanto que o Luiz Fernando Emediato nem percebeu que fiquei na ilha quinze dias pra cobrir um festival que durava apenas três.

Além da cobertura do festival, escrevia crônicas, fotografava o país para uma reportagem do Suplemento de Turismo do jornal e me divertia com o bom humor dos moradores dali. Dancei salsa como nunca com cubanas cheirosas, muito jogo de cintura e rebolado, ao som quente de Los Van Van e Celia Cruz e canções românticas de Silvio Rodriguez e Ibrahim Ferrer.

Cuba era uma festa. Havia uma certa penúria, lembro-me bem, até para comer um perro caliente seco, pão com salsicha e só. Tinha filas enormes e a caixa do trailer demorava um bom tempo para fazer a nota fiscal em quatro vias, que ia colocando uma a uma dentro de escaninhos de madeira. Uma pro governo, outra pro Ministério da Saúde, outra pro Ministério da Agricultura, outra pro Ministério do Comércio, me disseram.

O refrigerante era uma cola meio aguada e muito doce que eu bebia com vontade e prazer, mordendo aquele cachorro quente minúsculo e esquisito.

Gostava de entrar nos sebos e livrarias e ver o preço de banana dos livros impressos em papel jornal e com capas bem populares. Jorge Amado era o pop star da ilha e todos se miravam em Gabriela, cravo e canela.

De noite, a festa era nas praças públicas de Havana. enfeitadas com bandeirinhas de papel crepom colorido e lâmpadas de 40 watts. Muita música, muita margarita e muito mojito. O papo rolava entre política, a resistência aos yankees e o sonho de um dia conhecer Copacabana.

As minhas camisetas faziam sucesso por ali e eu não podia sair com elas nas ruas. Era colocar o pé na calçada, logo aparecia um companheiro querendo trocar a sua branca de algodão rústico por aquela colorida de rock and roll.

Deixei por lá uma com o rosto da Nina Hagen, uma da Madonna, uma da Cindy Lauper e uma quarta com um desenho do Yellow Submarine, que devem existir até hoje, puídas e desbotadas, porque cubano não se desfaz assim de uma camiseta preciosa.

Visitamos o museu e a praça da Revolução, conversamos com estudantes universitários que levavam fotografias de Fidel nas carteiras de couro surrado que guardavam dentro de pastas de cartolina. todos muito orgulhosos da ilha.

Comi muita banana frita e camarões ensopados. Fotografei noivas nas muradas do Malecón, a imagem de Che Guevara nos muros de Havana, comprei livros de Marx e Engels, voltei mais comunista do que fui.

Assisti palestras intermináveis sobre música e cinema cubano, palestras que mais pareciam aqueles históricos discursos do comandante Fidel Castro. Anotava tudo num bloquinho azul que o Estadão dava aos repórteres do Caderno 2. Dos bloquinhos, só sobraram as histórias pra contar.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

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[foto Alberto Villas]

PODE SER A GOTA D’ÁGUA

 

Julho inteiro não choveu em São Paulo, sequer uma gota d’água caiu do céu. A cidade foi ficando com ar de deserto, onde há grama, a grama seca, a cara de Brasília. As árvores foram resistindo porque são firmes e fortes. Até mesmo as flores da varanda da nossa casa quase morreram todas, não sei se de saudade ou de falta d’água. Havia filas para ocupar as poltronas de inalação nos pronto-socorros da cidade e, nos postos do SUS, nunca se viu tanta gente chegando por falta de umidade, nariz seco, garganta seca. Nas farmácias, os inaladores vendiam como banana na feira, todos querendo um pouco de umidade. De repente, veio o chuva, chegou de noite, anunciada por tímidos trovões. Mas veio pra valer. A vontade foi sair na janela e aplaudir, como os cariocas aplaudem o por do sol. É nessas horas que a gente dá valor pra natureza, que a gente se emociona até mesmo por uma gota d’água.

[foto Alberto Villas]