PEG-PAG

Lembro-me muito bem do dia em que foi inaugurado o primeiro supermercado em Belo Horizonte. Ele chamava-se Serv-Bem e ficava na praça Diogo de Vasconcelos, hoje Savassi.

No dia da inauguração, fizemos fila pra entrar naquela maravilha que chegava da América do Norte. Daríamos adeus ao Mercadinho Colombo para mergulhar de cabeça no futuro.

Nada mais bacana do que entrar ali no Serv-Bem, percorrer os corredores vendo os mantimentos, as latarias, as frutas e os legumes, ir colocando tudo dentro do carrinho e só pagar na saída.

A gente pegava o pacote de Cremogema, a latinha de presuntada Wilson, o saquinho de Mandiopã, a pasta de dente Kolynos e saía feliz da vida. Havia chegado ao fim aquela história de ter de ir ao Armazém do Seu José e pedir uma lata de biscoitos Aymoré.

A moda pegou naquele início dos anos 1960 e, num piscar de olhos, a cidade foi ganhando vários peg-pags da vida, enquanto os armazéns baixavam suas portas definitivamente.

Desde o Serv-Bem, eu virei fã de supermercado. Tem gente que odeia, mas eu confesso que gosto. Por onde ando nesse mundo afora, sempre entro em supermercados pra ver as novidades. Nessa última viagem, descobri Fanta sabor flor de sambuco num supermercado de Florença, Fanta sabor goiaba na cidade de Pylos, na Grécia, e encontrei vidros de leite de égua num supermercado em Paris.

Gosto de ver as novidades, os rótulos, ter surpresas como ver a latinha da Amstel e o tubo da Super Bonder escritos em grego. O que não muda é a danada da embalagem laranja do arroz Uncle Bens, que é igual no mundo inteiro.

A gente sabe que supermercado é uma armadilha. Entramos pra comprar um pacote de manteiga e saímos de lá com uma caixa de cerveja, uma dúzia de bananas, uma geleia importada, quatro iogurtes gregos, um sabão em pó, além de pães quentinhos. Mas mesmo assim eu gosto de supermercado.

Gosto até mesmo de ler as listas de compras esquecidas dentro dos carrinhos. Outro dia encontrei uma assim:

Achocolatado (tem de ser Toddy)

Vanish do branco

Pinho Sol do roxo

Sabão pra máquina (o mais barato)

Só não gosto daqueles hipermercados que, pra chegar ao pacote de arroz Tio João, você tem de passar antes pelos pneus, televisores, geladeiras, liquidificadores, flores, roupas e calçados.

Na verdade, ando meio embirrado nos últimos tempos com supermercados, principalmente esse que tem aqui na esquina de casa. E vou contar o motivo. Antes, era só chegar, escolher os produtos, colocar no carrinho e passar pelo caixa. Coisa rápida.

Agora, ir ao supermercado virou uma coisa tão demorada quanto pagar uma conta na boca do caixa de um banco ou pegar uma fila da megasena acumulada na noite de quarta-feira. Depois de passar uns dez minutos na fila, chega sua vez. Ai a caixa dá um sorrisinho amarelo e faz um questionário e dá ordens:

É cliente mais?

Pode digitar o CPF!

Confirma!

Quer nota fiscal paulista?

No mesmo CPF?

Quer carregar o celular?

Vai querer sacolinha?

Aí você começa a colocar os produtos na sua sacola descartável e, quando termina, mais perguntas:

Qual é a forma de pagamento?

Débito ou crédito?

Pode digitar a senha!

Vai querer selinhos pra trocar por bonecos de pelúcia do Jamie Oliver?

Tem o ticket do estacionamento?

Isso sem contar quando o código de barras não passa na leitora e a caixa é obrigada a dar uma esfregadinha, tenta de novo e começa a digitar aquela centena de números.

Isso, sem contar que, a todo momento, você tromba com um cliente, de olho grudado no celular porque agora você tem de checar os descontos no aplicativo.

Nessas horas dá uma certa saudade de Seu Mario, que tinha um armazém na Rua Grão Mogol e vendia tudo a granel. A gente chegava, pedia um quilo de alpiste, meio quilo de ração pra poedeira, dois quilos de canjiquinha e, em poucos minutos, saia de lá com os pacotinhos de papel na mão. Ali sim, era lugar de gente feliz.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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