TORCIDA

Todos sabem que o Ibope divulgado ontem, mostra o candidato do Partido Dos Trabalhadores com 19 pontos e o candidato tucano com 7 pontos. Mas no cartum de Chico Caruso, na primeira página de O Globo, os dois aparecem praticamente empatados na corrida eleitoral. Isso é que é torcida para ver o tucano sair do chão.

[Reprodução/O Globo]

TÚNEL DO TEMPO

O anúncio da cerveja Caracu que surgiu, de repente, no Largo do Paissandu, em São Paulo, após o desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, localizado ao lado, tem dividido opiniões. Alguns acham que deve ser apagado para dar lugar ao progresso. Já outros, acham que o anúncio, pintado nos anos 1950, deve ser restaurado para dar um ar vintage à cidade. Ontem, caminhando pela Lapa, observei que a lateral do prédio localizado na Rua Clélia, onde hoje abriga a Igreja Bola de Neve, também está descascando a sua lateral e, dela, surgindo um anuncio da Chevrolet, que patrocinava os espetáculos onde funcionava a antiga casa de shows Olimpia. Quem sabe se descascarmos São Paulo, chegaremos a uma luz no fim do túnel do tempo?

[foto Alberto Villas]

ELEIÇÃO OU MEGASENA?

Não resta a menor sombra de dúvida de que vivemos a mais bizarra das eleições presidenciais, desde 1500. O candidato que há meses mantinha o primeiro lugar nas pesquisas, foi impedido de concorrer por um golpe e está na cadeia. O segundo lugar está num leito de hospital, convalescendo-se de uma facada. Sem contar que uma candidata, que aparece apenas de quatro em quatro anos, vem despencando na preferência do eleitorado e o representante dos tucanos, que sempre estiveram no segundo turno, não decola. Fica ali na pista como um urubu sem asas tentando alçar voo. Muitos eleitores, perdidos na selva de informações e desinformações, ficam apostando em um, depois em outro, como se estivessem preenchendo uma cartela da megasena. Arrependido de ter apostado em um número, rasga a cartela e começa tudo de novo. O que mais se ouve nas esquinas são coisas do tipo: “Ia votar no fulano mas acho que ele perde no segundo turno, então vou votar no sicrano”, “Ia votar em branco mas me disseram que favorece o fascista, então vou escolher um qualquer”, “Estou esperando as pesquisas pra saber em quem votar, em quem tem chance”, “Vou votar em fulano para evitar sicrano”, “Se aquele amigo meu no Face vai votar em Beltrano, eu também vou porque confio muito nele”. É claro que tem aqueles eleitores conscientes. Que cravam o voto no candidato que não passa de um por cento nas intenções de votos mas “é nele que eu vou votar”. Eu me pergunto quantos eleitores leram os programas de governo dos candidatos. Muitos estão escolhendo o candidato porque “vou com a cara dele”, “porque ele disse isso e aquilo”. Ou então “ouvi dizer que ele disse que”. Dessa maneira, corremos o risco de, no dia 7 de outubro, final da tarde, a gente ficar sabendo que número que deu e quantos ganhadores teve a megasena eleitoral.

 

BEIRUTE À VISTA!

De tempos em tempos, eu me pergunto por que diabos resolvi, um dia, no verão de mil novecentos e setenta e cinco, aos vinte e cinco anos de idade, sair de Paris e ir parar em Beirute, por terra.

Não houve planejamento algum. Não comprei passagem, não reservei hotel, apenas coloquei um mapa-mundi no chão da sala da minha casa e fiz um traçado com caneta Stabilo Boss verde limão. Era um mapa mundi surrado, comprado ainda na Livraria Itatiaia, antes de deixar o Brasil.

Parti numa manhã de verão, com a cara e a coragem, levando apenas, nas costas, uma mochila de lona cheia de ilusão. Aos vinte e cinco anos de idade, tudo era divino, tudo era maravilhoso e eu não tinha tempo de temer a morte.

Durante muitos dias, andei de trem, de ônibus, de caminhão, de carona, de navio, e até de avião, num pequeno percurso antes de chegar a Beirute. Eu não precisava de muito dinheiro, graças a Deus, e seguia à risca a música de Jards Macalé e Waly Salomão.

Atravessei montanhas, lagos, rios, sete mares até chegar ao meu destino. Sai da França, desci a Itália, atravessei pra Grécia, passei pela Bulgária, cheguei perto da Albânia, alcancei a Turquia, depois a Síria e finalmente, Beirute.

As anotações que restaram são poucas, mas não me esqueço do longo percurso dentro de um vagão de trem, atravessando a Itália, de norte a sul, com aquela mochila nas costas, sem espaço para colocá-la no chão. Não me esqueço das horas e horas que passei no porto de Brindisi, esperando aquele velho navio, na esperança de reaver o passaporte que foi embora nas mãos de um policial.

Da Grécia, lembro-me de uma praça central, rodeada de árvores floridas que faziam sombra nos bancos de concreto, onde fiz da minha mochila, travesseiro.

Lembro-me das doze horas que passei para entrar na Bulgária e dos dois dias que passei comendo biscoito waffes, a única coisa que tinha para comer. Da Síria, não me esqueço da poeira e das primeiras placas enferrujadas escritas em árabe, aquele alfabeto que me deixou embriagado de paixão.

Nunca me esqueci de Alepo, quando Alepo ainda era uma cidade de pé, viva, onde as pessoas se divertiam nos cafés jogando dominó e bebendo arak, o néctar dos deuses.

A chegada a Beirute foi nas asas de uma velha aeronave da Turkish, cujo guardanapo, lembro-me bem, tinha a imagem de um porco e um X cruzando o seu corpo.

Já era noite e com aquele calor sufocante, só me restou pegar um taxi, um velho Impala 1960 e pedir ao motorista que me levasse até a Universidade Americana, onde passaria os próximos quarenta e cinco dias.

O alívio foi muito grande quando percebi que todas as pessoas no aeroporto de Beirute falavam francês e o motorista do táxi também. Depois de tantos dias driblando o italiano, tentando falar inglês com os búlgaros, fazendo mímica para os gregos e turcos, e sem entender uma palavra sequer na Síria, me senti em casa.

Na primeira esquina, o motorista perguntou de onde vinha e eu fui bem claro. De um país tropical, muito longe dali, onde uma ditadura militar tomou conta do espaço e me sufocou. Ele não quis saber mais nada, contou que o que conhecia de Brasil era a música de Jorge Ben. Cantarolou Mais que nada/Sai da minha frente que eu quero passar/O samba está animado/O que eu quero é sambar, e me contou que tinha todos os seus vinis.

Desviou o caminho e me levou até a sua casa, um pequeno apartamento onde vivia com a mãe. Era um ambiente sombrio, o chão coberto de tapetes persas, as paredes entupidas de fotografias de parentes mortos e uma antiga eletrola com espaço para guardar os discos de vinil, na parte de baixo.

Ali estavam os velhos e surrados discos de Jorge Ben, que ele conhecia tão bem. Ligou a geringonça e logo ouvi aquela voz inconfundível cantando Take It easy, my brother Charles/Take It easy meu irmão de cor…, a canção que ele também sabia de cor.

Tomamos suco de romã pra matar a sede e logo depois sua mãe me serviu arak numa pequena taça vermelha e dourada. Uma, duas, três. Foi difícil conseguir sair dali e pegar o meu rumo com destino a Universidade Americana. Mas cheguei.

Fui instalado num pequeno quarto moderno e colorido. A cama era amarela, o pequeno armário era azul, o criado mudo verde e a escrivaninha preta. A janela era pequena e ficava bem no alto. Tive de subir na cama para ver lá fora.

A escuridão era total e o silencio só era quebrado de tempos em tempos por um barulhinho bom, não sabia se de grilo, cigarra, sapo ou passarinho.

Só na manhã seguinte, com o sol na cara, voltei a observar o lado de fora de Beirute. Era um descampado, chão de terra batida, onde um grupo de jovens militares fazia exercícios. Nada muito interessante. Nenhum cedro, nada que me remetesse a Beirute.

Eu tinha os cabelos compridos, na cintura, e não pesava mais que cinquenta quilos. Quando pus os pés na calçada, um grupo se aproximou de mim e todos ficaram observado a minha figura dos pés a cabeça. O que fazia aquele ET em Beirute, se a manchete do L’Orient-Le Jour era guerra à vista?

Um pequeno bistrô, ao lado, exibia charutinhos de folha de uva na vitrine e um caixote de romãs maduros estava ali encostado na parede, do lado de fora. O cheiro dos temperos que vinha lá de dentro era muito forte, com certeza já fritavam linguiças merguez polvilhadas com harissa.

Com uma Pentax a tiracolo, dei o primeiro passo e vi Beirute. Fiz a primeira fotografia de uma das cidades mais fascinantes do mundo. Isso eu vou contar na semana que vem.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br