QUARENTA E CINCO DIAS DE SOLIDÃO

Na primeira manhã em Beirute, acordei ao som de uma bolinha de ping-pong. Desci as escadas ainda meio sonolento e vi, antes de chegar ao térreo, dois soldados animados jogando, enquanto um terceiro enchia um embornal no bebedouro instalado ao lado da mesa.

A primeira refeição na American Comunity Scholl, onde me instalei para passar quarenta e cinco dias, foi suco de romã, pão preto com geleia de laranja amarga, um copo de coalhada, uma ameixa vermelha e uma xícara de Nescafé granulado, diferente do nosso, em pó.

Na mesinha de centro da sala de recepção, rodeada de confortáveis poltronas, o jornal L’Orient-Le Jour anunciava, na primeira página, os conflitos do dia de uma guerra sem fim. Também na mesinha, um catálogo telefônico magrinho como um fascículo com os telefones de todo o país. A curiosidade me levou até a letra H – de Haddad – do meu primeiro sogro, que fugiu da guerra para o Brasil, na juventude, e nunca mais voltou.

Do lado de fora, o jipe dos soldados estava estacionado em cima da calçada e, debaixo dele, um gato cinza morto cheirava mal. Prendi a respiração e vi, lá longe, o sol refletindo no mar azul, batendo nas pedras.

Não havia Internet, não havia Google, Smartphone, Instagram, WhatsApp, Waze, não havia o mundo digital e um telefonema custava os olhos da cara. Me senti meio no fim do mundo, isolado, longe de tudo e de todos, sem notícias das coisas do meu país abençoá por Dê e boni por naturê. Senti-me preparado para viver quarenta e cinco dias de solidão.

O primeiro dia foi de andanças, entrando e saindo por ruas, ruelas, becos, avenidas, ruinas. A cidade não era bonita à primeira vista, muitos buracos de balas nas paredes, sacos de areia nas esquinas, muita poeira, tanques a postos em lugares estratégicos, mas ao mesmo tempo, uma cidade fascinante, viva, sobrevivente.

De perto, vi que aquele mar rebelde era tão violento que descolava os musgos das pedras, jogando fiapos nas calçadas, onde algumas prostituas se ofereciam em vestidos curtíssimos e olhos borrados de preto.

O cheiro que vinha dos restaurantes espalhados pela cidade dava muita fome. Parei em um deles – Le Renard et les Raisins – com mesinhas espalhadas debaixo de uma imensa parreira carregada de uvas verdes, a sombra que precisava naquele verão árabe de 40 graus.

Havia quibe no menu, quibe assado numa pequena travessa, feito com muito hortelã e carne de carneiro. Aquele quibe, arroz branco com amêndoas e uma salada de pepino foi a minha refeição, acompanhada de um copo de cerveja Almaza, estupidamente gelada, e um pedaço de melancia de sobremesa.

A essa altura, meus cabelos longos já haviam virado um rabo de cavalo escondido dentro de um boné porque era impossível naquela Beirute conservadora dos anos 1970, um cabeludo andar sossegado pelas ruas da cidade. Fazia fotos de tudo que via de interessante pela frente. Cabras pastando em lotes vazios, homens de mãos dadas, idosos de bengala e kufiya na cabeça, vendedores de chá circulando pelo rush, homens rezando nas mesquitas e geladeiras dos bares cheias de Crush. Foram dezenas de fotografias que acabaram se perdendo quase todas com o tempo e com o rumo que a vida tomou.

(Reprodução)

Comprei de um ambulante que vendia revistas em cima de uma lona estendida na calçada, um exemplar da Luluzinha em árabe, que se chamava simplesmente Lulu.  Capa colorida, miolo em preto e branco, impressa num papel quase jornal. Paguei com duas moedas, sem dar uma palavra com o jornaleiro, que não falava francês.

Procurava os cedros e não achava. Em pouco tempo percebi que era o mesmo que procurar uma árvore de Pau-Brasil na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. “Só no interior, numa pequena reserva” – me diziam – estavam os últimos cedros.  Mas ele continuava firme e forte estampado nas bandeiras tremulando espalhadas por todos os cantos da cidade.

No fim da tarde, já exausto, com calos nos pés e o meu tênis Bamba coberto de poeira, voltei para a American Comunity Scholl. Foi então que percebi que na porta de entrada havia uma reprodução do famoso Love, de Robert Indiana. Mais uma fotografia para o meu álbum.

No quarto, debaixo de uma luz forte de uma luminária em cima da escrivaninha, arrumei na minha carteira de couro, as notas sujas e amassadas de libras libanesas, tirei da máquina o filme Kodachrome de 36 poses que ainda estava ali dentro, folheei a Luluzinha falando árabe com o Bolinha e fiz minhas anotações. Só hoje, relendo essas anotações, vejo que escrevi: “No radinho de pilha em cima do criado-mudo, Maria Bethânia canta Esse Cara”, como se aquela canção estivesse ali dentro guardada para me saudar.

No final da noite, desembrulhei o pedaço de quibe que sobrou do almoço, coloquei num pratinho e peguei uma Pepsi-Cola na geladeira que ficava ao lado da porta com o Love. Fui dormir com o barulho ensurdecedor dos aviões de guerra que cruzavam o céu da cidade. Fui dormir tentando sintonizar alguma língua conhecida no radinho de pilha que pouco antes tocara Bethânia em bom português.

No meio da noite, acordei com o silêncio que se instalara. Fiquei ali deitado debaixo de um lençol de listras azuis e amarelas, pensando nos quarenta e quatro dias que ainda tinha pela frente e a missão de achar algum Haddad, algum parente do meu primeiro sogro.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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