MEU TIPO INESQUECÍVEL

Conhecíamos, de nome, há muito tempo, a Tia Margarita, ainda com o “a” no final. Ela ganhou esse “ae”, na Itália, quando descíamos rumo a Grécia para conhecê-la pessoalmente.  Foi de repente que o apelido surgiu e pegou, para sempre, apenas para dar um ar de antigo, de latim a seu nome.

Sabíamos pouco dela, que morava no povoado de Vryses, no Peloponeso, que já passava dos noventa anos e que tinha uma espingarda atrás da porta principal da sua casa, pro que desse e viesse.

A única foto que conhecíamos de Tia Margaritae, era uma imagem em preto e branco, meia sem foco, ela com a espingarda em punho na varanda da sua casa, acredito eu que uma brincadeira das irmãs Vlahou, sobrinhas dela.

Cruzamos a Itália, chegamos a Brindisi, esperamos horas e horas o navio para, finalmente ganhar Patras e continuar a viagem de carro, rumo a Vryses, onde passaríamos uma temporada, numa casa quase em frente a da Tia Margaritae.

Chegamos cansados, aflitos e muito ansiosos para ver como era a vida no povoado e finalmente, conhecer a tal tia.

Pouco mais de um minuto depois de estacionar o carro debaixo de uma árvore, ela ouviu o ronco do motor e apareceu. Desceu as escadas da sua casa e veio andando devagarinho, amparando-se numa velha bengala, nos saudando.

Chegou até nós, abraçou um a um e, mais efusivamente, Olga, a sobrinha de sangue. Ela falava grego com todos, como se não houvesse outra língua no mundo, acreditando que todos entendiam perfeitamente a língua de Sófocles. Não fosse Olga, amiga do peito e nossa tradutora, estaríamos perdidos porque, para nós, o que Tia Margaritae falava parecia – e era – grego.

Não demorou muito, ainda estávamos desfazendo as malas e tentando entender o funcionamento da casa, ela surgiu novamente na nossa sala, com meia dúzia de figos nas mãos, oferecendo a cada um de nós e tentando explicar que eram frescos, safra 2018, retirados agorinha do pé no seu quintal.

Durante uma semana, Tia Margaritae frequentou a nossa casa como uma velha amiga. Nunca quis comer nada que oferecíamos porque estava no período de jejum e isso, para ela, era sagrado.

Depois dessa primeira semana, a sobrinha grega foi-se embora e nós três – eu, Paulinha e Annamaria – ficamos ali prontos para viver sozinhos num pequeno povoado de 74 moradores em que todos falavam o grego perfeitamente, mas só o grego.

Tia Margaritae virou nossa guardiã. Durante um mês, ela vigiou nossa casa quando estávamos fora, sempre preocupada com os ladrões, mesmo sabendo que o último larápio que passou por ali data de mil anos antes de Cristo. O medo dela era que alguém roubasse a torneira que ficava na varanda da casa.

Ela me ensinou a capinar, a colher limões sicilianos no pé, a podar a trepadeira, a varrer a calçada, a regar as plantas, a fechar portas e janelas e, principalmente, retirar a torneira do cano à noite para que nenhum aventureiro passasse a mão. Ela dava ordens como um bom sargento e só nos restava obedecer.

Tia Margaritae nos abasteceu quase que diariamente com uma verdura que ela fazia refogada no azeite e nos trazia em pratinhos de porcelana, uma verdura que nunca soubemos o que era. Só sabíamos que a tradução era verdura e era deliciosa, comida com pão.

Um dia ela preparou a sua especialidade, batatas fritas com dois ovos estalados em cima. Trouxe até a nossa casa e aquilo, para nós, foi o manjar dos deuses. Ela mesmo não experimentou sequer uma batatinha, respeitando o seu jejum. Tia Margaritae fritava tudo no azeite, acho mesmo que nunca soube da existência do óleo de soja, milho ou girassol.

Num domingo, ela nos levou para conhecer a Igreja Ortodoxa do povoado, uma construção deslumbrante. Ela ficou um bom tempo sentada na primeira fila, olhando curiosa a luz que entrava pelos vitrais, cada imagem, cada cantinho, apesar de conhecê-los de cor e salteado.

Um dia, ela nos convidou a ir até a sua casa. Foi então que colhemos cebolas na sua horta e aprendemos a arrancar figos maduros do pé, no seu quintal. Até alcachofra ela tinha plantada, quase em flor.

Tia Margaritae nos serviu um café à sua moda, forte e parecido com o café dos turcos, com um pouco de pó no fundo da xícara. Lembro-me que repeti a dose três vezes, de tão gostoso que estava.

Tia Margaritae contou histórias da sua infância, de uma aventura na Turquia quando os inimigos jogaram ribanceira abaixo, o ônibus de excursão em que ela estava.

Na parte de cima da casa, uns poucos móveis, uma cristaleira com louças empoeiradas porque, cansada de guerra, raramente ela subia aquelas escadas. Ao lado de um armário, havia uma imensa bandeira da Grécia enrolada, talvez usada no passado nas festas do povoado.

Durante um mês, nossa convivência foi diária e intensa. Os figos que ela nos trazia, quando não estávamos em casa, deixava no cantinho da janela, que logo percebíamos quando chegávamos.

No dia em que despedimos dela, vi que havia um brilho de lágrima em seus olhos e um ar de tristeza profunda. Ia me esquecendo de contar que, atrás da porta principal da casa de Tia Margaritae, não era lenda, havia mesmo uma espingarda, uma velha garrucha enferrujada, incapaz de matar uma mosca.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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