JK 65

A febre eram os Beatles e quando eles pousaram pela primeira vez no aeroporto JFK, em Nova York, foi difícil para a polícia conter a euforia das garotas enlouquecidas, dispostas a fazer qualquer maluquice por John, Paul, George e Ringo. As rádios não paravam de tocar I want to hold your hand naquele início de mil novecentos e sessenta e quatro.

Por aqui, uma hemorragia no esôfago levava Ary Barroso, autor de canções que bem poderiam ser o nosso Hino Nacional. Foi ele que escreveu os versos que diziam assim: Brasil, meu Brasil brasileiro/Meu mulato inzoneiro/Vou cantar-te nos meus versos.

No boxe, o bamba era Cassius Clay, que se tornou campeão mundial dos pesos pesados, deixando Sonny Liston caído no chão, sangrando, sangrando muito.

No dia 14 de março, o presidente João Goulart anunciou em um comício na Central do Brasil, as importantes reformas de base que o país tanto precisava. As ideias de Jango não caíram bem na caserna.

 

Uma semana depois, quinhentas mil pessoas saíram às ruas de São Paulo, exigindo a renúncia do presidente da República. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi um pontapé para derrubar Jango, acusado de querer trazer o comunismo de Cuba para nossas bandas.

Morávamos em Brasília naquele 31 de março, quando o golpe foi dado. Talvez fomos os primeiros a ver, na calada da noite, a movimentação de tanques na Praça dos Três Poderes, retrato de que a coisa não ia nada bem.

O meu pai não era um homem de esquerda, era apenas apaixonado por Juscelino Kubitscheck, que ele chamava de Nonô. Por ele, o meu pai despencou de Belo Horizonte com cinco filhos, rumo ao planalto central do país, no início dos anos 1960, para instalar ali o Serviço de Meteorologia.

Éramos uma espécie de candangos, comendo poeira que o diabo espalhou naquele fim de mundo. Todos nós gostávamos de morar naquela cidade em obras, menos a minha mãe, que tinha os pés rachados pela secura daquela região.

Meninos ainda, estávamos empenhados na campanha de Juscelino Kubistchek, candidato a presidente novamente em 1965, o ano que não chegou. O meu pai trazia para casa adesivos plásticos que eram moda naquele tempo, todos anunciando que JK vinha aí.

Um abril despedaçado foi passando e, a cada dia, íamos percebendo que aqueles adesivos colados na Rural Willys vermelha e branca do meu pai, estavam perdendo a cor e o sentido. As eleições foram canceladas e uma tristeza enorme se abateu no meu pai.

Ele retirou os adesivos da Rural, talvez com medo da repressão que era maior a cada dia e por ter caído a ficha, o sonho havia acabado.

Ele guardava vários exemplares da revista Manchete com o Nonô na capa, sempre sorridente. Era uma pilha, porque a amizade do velho Bloch com Juscelino era coisa pra se guardar

Domingo, enquanto o meu pai preparava aquela tradicional macarronada na nossa casa, ele colocava na vitrola um disco de Juca Chaves, aquele que tinha uma música para o presidente do coração dele:

villas.pngJK, o presidente bossa nova (Reprodução)

Bossa nova

Mesmo é ser presidente

Dessa terra descoberta por Cabral

Para tanto basta ser tão simplesmente

Simpático, risonho, original.

Depois desfrutar da maravilha

De ser o presidente do Brasil

Voar da Velhacap pra Brasília,

Ver a alvorada e voar de volta ao Rio

Um dia, a poeira baixou e voltamos pra nossa Belo Horizonte, tristes e cabisbaixos. O meu pai nos contou que haviam caçado o mandato do presidente Juscelino e que ele nunca mais seria presidente do Brasil.

O meu pai, que era bom em matemática, fez as contas, e nos disse que quando ele pudesse novamente voltar à politica já não teria mais idade. Ou vida.

Com o tempo, o disco de Juca Chaves era só chiado e aquela vontade de ver o meu pai eleger Juscelino Kubitscheck presidente do Brasil novamente, ficou pra trás. Os adesivos, que ele guardava com todo carinho numa caixinha de relógio Omega, hoje, são apenas objetos de desejo de colecionadores à venda no Mercado Livre. E como dói.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital. com.br

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