É BRINDE!

Uma senhora de meia idade desceu esbaforida do seu Jeep Renegade preto, pegou o corredor do estacionamento, subiu uma pequena rampa, virou à direita e foi direto no balcão de atendimento ao cliente:

– Eu quero o tomatinho vermelho de pelúcia!

A resposta negativa da funcionária do supermercado, deixou a senhora de meia idade arrasada, os olhos caídos e um ar de desesperança.

– Como assim, acabou? É o único que falta para a coleção do meu neto Joaquim! Ele tem a banana, o brócolis, a pera e a laranja. Só falta o tomatinho!

Ela apertou nas mãos os códigos de barra de cartolina que dariam direito ao tomatinho vermelho de pelúcia, jogou dentro da bolsa e deu meia volta. Com certeza vai entrar no seu Jeep Renegade, acionar o Waze e procurar onde existe outro supermercado da rede, quem sabe lá ainda tenha um tomatinho vermelho dentro do armário de vidro de brindes?

Brasileiro é doido por brinde e não é de hoje. Menino ainda, meus olhos brilhavam quando o meu pai chegava em casa aos domingos com uma Coca-Cola Família. A felicidade era abrir a garrafa, pegar a tampinha e tirar a cortiça para ver se estava premiada.

O brinde era uma coleção de vinte e um personagens do Walt Disney, que demorávamos meses para conseguir completar. Com cinco tampinhas premiadas, trocávamos por um personagem, o Mickey, o Pateta, a Margarida, o Pato Donald, o Pluto, todos. Lembro-me que a menorzinha era a Sininho.

A Pepsi-Cola correu atrás e, nas Olimpíadas de 1964, lançou uma coleção de bonequinhos, cada um representando um esporte:  Esgrima, lançamento de dardo, natação, futebol, levantamento de peso, eram dez bonequinhos brancos que podíamos colorir com uma tinta especial, da cor que quiséssemos.

A onda dos brindes foi se espalhando. O Toddy dava soldadinhos, o chiclete Ping-Pong dava figurinhas, o Crush dava miniatura de engradado com garrafinhas de Crush, os Postos Shell davam o cafezinho do astronauta, quando ainda escrevíamos cafèzinho assim, com acento diferencial no e.

Era uma época em que colecionávamos selos, colecionávamos chaveiros, caixinhas de fósforo, moedas, carrinhos da Mathbox, colecionávamos até besouros e borboletas no isopor.

A moda era tão moda que o Guaraná Champagne Antártica – era assim que chamávamos – fez uma propaganda na televisão em que um mágico tirava um monte de trolhas da cartola e anunciava: Não troque o seu bom gosto por quinquilharias! O guaraná nunca deu brindes.

A moda do brinde voltou com tudo nesses tempos malucos que vivemos e os supermercados estão surfando na onda. Tem panelas de brinde, tem facas, tem tábuas de carne, tem travessas, tem sementes pra hortinha e tem os charmosos bonecos de pelúcia do Jamie Oliver. Pra mim, está faltando só a pera pra completar a coleção do meu neto Raul.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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