O TEMOR DA ESCURIDÃO

Quando abri a porta da minha casa hoje, seis horas da manhã em ponto, veio à minha cabeça uma imagem de mil novecentos e setenta e pouco quando, longe daqui, escrevia minhas matérias numa Hermes Baby portátil e, semanas depois recebia o jornal impresso numa cortesia da Varig. Levava um susto com os espaços em preto escrito apenas Leia e Assine Opinião, encobrindo minhas palavras proibidas pelo Departamento de Censura da Polícia Federal. Vinha uma sensação ruim, de tempo perdido, mesmo sabendo que não havia perdido, naquela luta pela democracia. Quando peguei o jornal hoje cedo e virei para ver o que havia na parte de baixo da primeira página, o meu temor era o de encontrar escrito simplesmente Leia e Assine Folha de S.Paulo. É um temor que assombra não somente a mim, mas também as minhas amigas que vieram aqui em casa ontem para conversar e saborear um risoto, ainda com um gostinho de liberdade. E passaram o dia martelando essa palavra e outras ainda não proibidas. O que vi escrito na parte de baixo do jornal de hoje era apenas uma frase anunciando o fim da tela preta. Só me acalmei quando li, bem em cima do logotipo, a informação de que era um informe publicitário. A sobrecapa me acalmou, mas apenas temporariamente. Faltam apenas treze dias pro 28 de outubro.

[foto Alberto Villas]

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