A vida é bela

O filme A Vida é Bela, que vi no último ano do século passado, nunca saiu da minha cabeça. Roberto Benigni, ali naquele campo de concentração querendo mostrar ao filho que a realidade não era nazista alemão querendo liquidar judeu, e sim uma grande gincana, é uma obra prima do cinema, da imaginação. Ao ler os principais jornais do país nesses dias pós-eleição, mais uma vez o filme veio à minha cabeça. Não que o governo eleito esteja querendo mandar esquerdistas pra câmara de gás, não que os jornais estejam tapeando os seus leitores, dizendo que estamos vivendo uma divertida brincadeira. Mas tem um pouco a ver. Acompanho com afinco, diariamente, quatro jornais estrangeiros. O italiano La Repubblica, o espanhol El País e os franceses Le Monde e Libération. Sei que deveria seguir também com afinco, o New York Times, talvez o mais importante e influente de todos. Mas, não tem jeito, guardo da juventude uma birra com americanos. Não tomava Coca-Cola, não mascava chicletes, odiava o Tio Sam, pichava nas ruas Yankees Go Home e só fui conhecer Nova York depois de adulto. Confesso que me encantei, mas continuo apenas dando uma olhada no NYT, apesar de gostar muito da revista que eles editam nos finais de semana. Todos os jornais, nos quatro cantos do planeta, chamam o presidente eleito no dia 28 de outubro, de candidato da extrema-direita. Todos. Aqui, não. Tenho acompanhado com extremo afinco os nossos jornais há muito tempo e desde que o presidente eleito apareceu no cenário nacional, nunca foi chamado de uma figura claramente da extrema-direita. Os jornais têm medo desse nome. Acreditam que podem perder publicidade oficial, ou simplesmente desaparecer do mapa se forem taxados de esquerdistas. Nos primeiros dias pós-eleição, meu afinco redobrou, ao ponto de contar quantas vezes o nome do presidente que venceu as eleições apareceu em cada edição. Na Folha de terça-feira, por exemplo, foram 142 vezes. Nossos jornais estão pisando em ovos, tomando todo cuidado para não aborrecer o novo presidente da extrema-direita. A Folha de S.Paulo, por exemplo, foi desmoralizada – injustamente – ao vivo, em cores e em rede nacional, chamado de jornal mentiroso, um jornal que já morreu. No dia seguinte, os leitores procuraram o editorial na primeira página defendendo a liberdade de imprensa, a pluraridade, e não encontraram. Me perguntei se não é a falta que um Otavinho faz. Não sei. Sei que nossos jornais estão tratando o presidente eleito como um estadista, como um Helmut Kohl ou um Barak Obama. Parece que nenhum jornal se lembra mais que, um dia, o ultra-direitista homenageou, também ao vivo e em rede nacional,  o maior torturador que o país já teve. Ninguém se lembra mais que ele disse, um dia, ser favorável a tortura, não estuprar uma deputada porque ela não merecia, não querer um gay como vizinho e mandar um jovem opositor no aeroporto, ir tomar no cu. Ninguém mais se lembra que o presidente eleito inventou um kit gay  que nunca existiu e disse que o regime militar errou ao não matar umas 30 mil pessoas. Ninguém mais se lembra que, para ele, o peso dos quilombolas é em arroba. Ninguém mais se lembra que ele berrou aos seus fiéis reunidos na Avenida Paulista, poucos dias antes das eleições: Eu quero um país sem Folha de São Paulo, sem Folha de São Paulo! Até quando a vida será bela para os nossos jornais?

[ilustração de Vasco Gargalo, de Portugal, nas redes sociais] 

 

Um comentário em “A vida é bela

  1. Só vejo boas notícias! Caixa 2 de campanha ninguém dá um sopro. Aliás, acho que o TSE acho já não existe mais. E agora com o super ministro, ou Super Sinistro, chegando na equipe, acabou a corrupção no Brasil e o jornalismo investigativo dos jornalões pode pedir aposentadoria.

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