ENTÃO ERA NATAL

O clima natalino começava no início de dezembro. Agora não, em pleno setembro, os panetones já estão espalhados pelos corredores dos supermercados. E não é aquele panetone caseiro, embrulhado cuidadosamente um a um em papel manteiga. Agora, industrializados, temos panetone de chocolate, de goiabada, de doce de leite, de Leite Moça e em pleno setembro!

Quando chegava dezembro, a gente subia no sótão da nossa casa para pegar umas caixas de papelão, onde guardávamos durante o ano inteiro, a árvore, as bolas, os enfeites e o presépio. Tudo embrulhadinho em jornal, amarelado e empoeirado com o passar do ano.

Para montar o presépio, um canto da sala de visitas era rearranjado para que coubesse a manjedoura e todos aqueles personagens. Vendedores passavam de porta em porta vendendo musgo fresco para deixar o presépio com cara de presépio. A árvore ganhava bolas, fitas prateadas, enfeites e algodão para imitar neve.

Quando dezembro chegava, a gente escrevia uma cartinha pro Papai Noel com uma lista enorme de presentes, noventa por cento brinquedos. Ninguém queria ganhar meia, camisa, calça, sapato ou sabonete. Nossos pais fingiam que tinham postado a carta nos correios, a gente acreditava e ficava esperando o dia 25 chegar.

Era uma época em que íamos na papelaria comprar cartão de Natal. Fazíamos uma lista e levávamos pra casa umas duas dúzias de cartões com imagens de trenós, renas, pinheiros, muita neve salpicada de purpurina, desejando um feliz natal e um próspero ano novo a todos.

O peru, era comprado vivo e muitos dias antes. Ficava no terreiro, fazendo o seu glu glu cada vez que assobiávamos. Alguns dias antes da noite de Natal, ele era passado na faca. Lembro da agonia do bicho, o sangue espirrando num prato fundo com vinagre pra não talhar. Depois de limpo e temperado, ia pra padaria assar.

Passávamos uma flanelinha nos discos natalinos, alguns já bem judiados, cheios de chiados. Quando a vitrola era ligada e Carlos Galhardo começava a cantar é porque o Natal estava pertinho:  Eu pensei que todo mundo/Fosse filho de Papai Noel/Bem assim felicidade/Eu pensei que fosse uma/Brincadeira de papel/Já faz tempo que pedi/Mas o meu Papai Noel não vem/Com certeza já morreu/Ou então felicidade/É brinquedo que não tem.

Íamos na panificadora comprar pão pra rabanada, um pão especial. Ele era cortado em fatias, passado no ovo e frito. Depois ganhava um caprichado banho de açúcar com canela e não havia dieta. Regime, só o militar.

Cada um em casa escolhia onde deixar o sapato. Perto da árvore, ao lado do presépio, junto à mesa da ceia.

A ceia era servida só depois da missa do Galo. A gente se aprontava todo e ia pra Missa do Galo, uma missa interminável, celebrada por vários padres, diferente da missa de todo domingo.

A ceia era farta. Tinha peru recheado com farofa e ameixa preta, arroz de forno, salpicão, uma cesta linda com pêssegos, ameixas, uvas Niágara, morangos, figos, frutas que só comprávamos na época do Natal. Havia também uma cesta de frutas secas, transbordando de nozes, amêndoas e avelãs. Uma travessa com castanhas portugueses cozidas, quentinhas, e tâmaras para adoçar aquela noite tão especial. E aquele garrafão de Sangue de Boi enorme, no meio da mesa.

A gente ia dormir querendo acordar no meio da noite pra ver Papai Noel passando. Nunca acordamos. Dormíamos o sono dos anjos, ao som baixinho de Carlos Galhardo na vitrola, lá na sala: Anoiteceu/O sino gemeu/ A gente ficou/Feliz a rezar/Papai Noel, vê se você tem/A felicidade/Pra você me dar.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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