QUEM AMA NÃO MATA

[Transcrevo aqui um texto da jornalista Miriam Chrystus enviado a este blog, para que todos tomem consciência da importância do ato – Quem Ama não Mata  – que será realizado hoje em Belo Horizonte. São as mulheres contra a violência, uma luta diária e que precisa ser constante]

O primeiro Ato aconteceu em 18 e agosto de 1980, nas escadarias da Igreja São José.

Originou-se dentro da TV Globo, da indignação de 3 jornalistas (Dagmar Trindade, Antonieta Goulart e eu) pela morte, no espaço de duas semanas,  de duas mulheres assassinadas por seus maridos: Heloísa Balleteros e Maria Regina Souza Rocha. O primeiro por desconfiança de traição. No julgamento, me marcou ele descrever a última noite, anterior ao assassinato, em que ele percebeu sinais de “esfriamento” por parte dela durante o ato sexual. Ali ela assinou a sua morte, naquela “frieza”.

O segundo, por não aprovar os novos hábitos dela, que tinha dado para fumar. Foi morta ainda com o uniforme de ginástica, ao voltar da academia para casa.

A indignação pela morte de duas mulheres no curto espaço de tempo de duas semanas (hoje, os feminicídios – lei assinada em 2015 por Dilma Roussef –  acontecem quase que diariamente).Cobraram-nos, de nós jornalistas, que mulheres pobres eram assassinadas todos os dias nas favelas; nós sabíamos, éramos jornalistas. Mas sabíamos também que duas mulheres de classe média e alta assassinadas davam uma boa pauta. Não éramos ingênuas.

O Ato que ficou conhecido como Quem Ama Não Mata (originado da frase anônima, pichada em muros de BH, “SE se ama não se mata”) foi muito simples. Mas original para os padrões da época, porque em plena Ditadura. Reuniu cerca de 400 mulheres que seguravam velas e rosas vermelhas (doadas pela dona do Sobradão da Seresta, em Santa Tereza). Falaram umas 6 ou mais pessoas, entre elas, Genival Tourinho (por que? Não me lembro), Adélia Prado, que veio então de Divinópolis, Maria Campos, pela Liga ds Mulheres Católicas, uma feminista do Rio e eu que li um manifesto que escrevi de uma vez só. E que começavacom um poema anônimo, lido por mim na revista Senhor, provavelmente em 1968 ou 1969, no Colégio Estadual Central. O único poema que guardei de cabeça:

“Senhora, aqui está vossa chave

para vos abrirdes quando quiserdes e com quem quiserdes

porque maior que a dor de vos perder

é a dor de vos deixar presa nesses ferros”

Em Minas, mil anos depois, prosseguia eu, os homens matam as mulheres que querem a separação… etc, etc.

E reivindicávamos  a redemocratização do país alertando que a Democracia tinha que começar “dentro das nossas casas”.

A grande sacada: havia uma violência específica contra a mulher.  (porque grande sacada? Porque não havia pesquisas, não havia o problema,  o discurso comum era que as mulheres reinavam no lar).

Dali nasceram a frase Quem ama não mata (virou série da Globo),  o CDM, Centro de Defesa da Mulher que iniciou pesquisa sobre o tema “violência contra a mulher” e promoveu o atendimento de mulheres que sofriam violência doméstica e reivindicava a criação de delegacias especializadas no atendimento a mulheres (que foram criadas por todo o país a partir de 1985).

Em 2018, diante do recrudescimento da violência contra as mulheres (dados comprovam um aumento de mais de 100 por cento nos últimos 10 anos), e, no meu caso,pelo assassinato da advogada do Rio Grande do Sul, Tatiane S. , novamente nos unimos e resolvemos “fazer algo”. Aí o Ato de 1980 foi novamente nossa inspiração. Aquele ato, tão simples, continua de uma potência enorme. O slogan “Quem ama não mata” é muito poderosa. Só que o Ato de agora, naturalmente, está adaptado aos dias de hoje.

Antes, nós feministas falávamos pelas mulheres trabalhadoras rurais, pelas prostitutas. Agora elas estão lá no Ato, falando por si mesmas. O feminismo negro está lá de forma muito crítica ao feminismo hegemônico branco (aquele nosso de 1975). Agora as pessoas não têm paciência de ouvir discursos: então eles serão muitos, cerca de 17 mas cada um com 2 minutos. E muita música, performance, dança, poesias, rappers, DJs, apresentadoras profissionais, etc. Direção de Adyr Assumpção. Produção de Nely Rosa. Te mando a programação amanhã, só de curiosidade.

A logomarca foi criada por Gustavo Greco, neto de Helena Greco, que estava lá pelo Movimento Feminino pela Anistia, uma homenagem à avó. A vinheta da TV Globo foi obtida pela interferência do José Amaro , o Zinho,  tem a mesma arte. E será projetada nos edifícios próximos.

Enfim, será um ato feminista, cultural, político (no sentido amplo, porque suprapartidário).

Oxalá o nosso Ato de agora tenha uma parte da potência do de 1980.

Miriam Chrystus

 

 

 

 

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