O PRINCÍPIO DO PRAZER

A nova mãe anunciou, na véspera, que eles viriam. Acordamos no feriado com o coração na mão, batendo mais forte, numa ansiedade que não dava pra medir nem mesmo com uma trena daquelas de mestre de obras.

Meio dia e pouco, o interfone tocou, eram eles, a nova mãe, a nova avó e os dois, um menino e uma menina, já crescidos. Chegaram tímidos, olhando para todos os cantos da casa, o chão, o teto, as janelas, as cores diferentes das paredes, as estantes, os livros, os dvds, os discos. Observando cada detalhe, cada minúcia.

À primeira vista, parece que gostaram. A menina fez a primeira observação: Parece casa de boneca! Ela, cinco anos mais velha que ele, parecia servir de âncora, mas ele, esperto, parecia protegê-la da vergonha de chegar pela primeira vez numa casa onde não conheciam ninguém.

A menina ficou sentada no sofá da sala, ainda tímida, e ele veio até o meu escritório e se encantou com a coleção de carrinhos da Norev. Pegou um a um com todo cuidado, porque avisei-lhe que eram frágeis. A portinha abre? ele quis saber. Disse que alguns abriam, outros não. Quais que abrem? Os caminhões.

Então fomos até a revistaria para mostrar onde estavam os caminhões que abriam a portinha e levantavam a caçamba. Mais encantamento. Gostou da miniatura do dálmata em cima das revistas Quatro Cinco Um e fez mais uma pergunta: Você tem coleção de cachorros também?

Passamos pela lavanderia e chegamos à cozinha, onde ele viu uma gamela de frutas. Olhou, pegou um kiwi e perguntou que fruta era aquela? Expliquei que era kiwi e fomos até o computador para eu explicar porque a fruta se chama kiwi. Abri o Google em Kiwi Ave e ele ficou espantado de ver como aquele bichinho que vive na Nova Zelândia era tão parecido com a fruta.

Eu não quero comer isso não! Creio que o menino desconfiou que kiwi era uma mistura de fruta com animal, uma espécie de boimate que a revista Veja inventou faz anos. Voltamos à cozinha, peguei a faca e parti o kiwi no meio. Ele ficou admirado. Peguei uma colherzinha e expliquei como comia. Ele aprendeu rapidinho e raspou o kiwi. Perguntou se podia comer a casca, disse que não, que era áspera, mas mesmo assim quis experimentar. Experimentou.

A irmã já tinha saído do sofá, estava no quarto perguntando o que eram aqueles bichos de papelão na parede. Explicamos que compramos as peças num país muito longe daqui e montamos. Ela achou lindo.

Estávamos emocionados com aquelas duas crianças descobrindo a nossa casa, observando e comentando tudo. Mostrei a ele meus brinquedos antigos, de lata. O disco voador de 1960 e o Pato Donald equilibrista de 1956, presente da minha madrinha. Viu o elefantinho da Shell, a gotinha da Esso, o cavalinho de pau, o ônibus amarelo e azul do Magical Mystery Tour e o elefante de lata enferrujada que compramos um dia na Fundação Saramago.

O menino olhou, olhou e foi muito sincero: Tio, seus brinquedos são muito sem graça. Pode me chamar de Villas, eu disse, mas ele insistia que eu era o tio. Percebi que ele achou os brinquedos sem graça porque eram parados, estáticos, imóveis. Queria algo que mexesse, que interagisse, que brilhasse, que piscasse.  Mudou de ideia quando viu os jogadores de ping pong dos anos 1950 que, basta dar corda, eles começam a jogar, a bolinha pra lá e pra cá. Seus olhinhos brilharam e ele quis dar mais corda e ficar ali brincando

A irmã já tinha voltado pra sala e estava em outros papos, altos papos, contando o dia em que ela fugiu do posto de saúde com medo de tomar vacina e que gostava das cores preto, cinza, branco e roxo. Odeio rosa, disse ela.

O irmão continuava explorando a casa. Voltou para a cozinha e disse que estava com sede. Perguntei se queria um suco de caju, ele não conhecia caju. Abri a geladeira, mostrei a ele três cajus lindos que compramos no sacolão da Lapa. Quis experimentar. Comeu um pedacinho, achou meio estranho o gosto, mas expliquei que bom mesmo era o suco. Cortei em pedaços e coloquei dentro do liquidificador. Pus água, liguei na tomada e ele comentou: Tio, esse bagulho faz muito barulho! Adorei ele usar a palavra bagulho, que eu não ouvia há anos. Suco pronto, ele tomou e adorou. A irmã também quis.

O menino mostrou a ela o kiwi e pediu outro. A irmã quis experimentar e ele se arvorou em explicar a ela como se comia e mostrou com sabedoria. Ela também gostou, não achou azedo porque compramos sempre aqueles kiwis Sun Gold, amarelos, mais doces.

Será que eles não querem jogar lince? perguntou a minha mulher. Buscamos o jogo e os dois sentaram-se no chão. A menina, mais velha, claro, foi achando as figurinhas antes dele, mas ele também muito esperto e competitivo, não deixava a desejar. Comentamos que ela era muito boa no jogo e ela disse: Bem que o oftalmologista disse que eu tenho vista boa.

Gostei da palavra oftalmologista porque, menina dessa idade, diria oculista ou médico, não é mesmo? Hora do almoço. O cardápio era arroz branco, tambaqui ao forno, pirão, farofa com farinha de Belém do Pará e molho vinagrete. A menina, acho eu, gostou mais do que o menino. Quis experimentar tudo e repetiu. Ele comeu pouco. Tinha comido muito pão com queijo e ervas, que achou estranho no início, mas amou. Além do kiwi e do suco de caju.

Mostrei pra eles a hortinha que temos na varanda, a máquina de escrever que foi do meu pai, ele tentou datilografar, mas achou as teclas muito duras. Mostrei os cadernos que faço para os meus quatro filhos, desde o dia em que o primeiro nasceu, em 1977. Ela ficou admirada e comentou: É uma espécie de diário, né? Sim, é uma espécie de diário que, a partir de hoje, ganhou dois novos personagens muito queridos.

A noite chegou e eles foram embora, de mãos dadas com a nova mãe e a nova avó. Fomos na varanda dar tchau pra eles. A menina voltou dois passos, olhou pra cima e disse: Gostei muito da casa de vocês! O menino foi saltitando, acredito eu, que ainda meio desconfiado se kiwi era fruta ou bicho.

 

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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