O PRIMEIRO JORNAL

No inicio dos anos 70, nosso sonho não tinha acabado, apesar daquela declaração de John Lennon, no final dos 60. Nosso, isto é, calouros de Jornalismo da Universidade Federal de Minas Gerais.

O sonho, já nos primeiros dias de aula, era fazer um jornalzinho, poder espalhar nossas ideias, nossa opinião, nossa voz. Sermos donos do nosso nariz. Em abril, fizemos a primeira reunião e quando foi maio, o jornalzinho já estava circulando de mão em mão nos corredores da Faculdade de Filosofia.

Demos a ele o nome de Flã. Flã, segundo o Dicionário de Comunicação do Pasquim, era um cartão especial, semelhante a um papelão grosso, composto por folhas de papel de seda e de papel mata-borrão intercaladas, próprio para moldar matrizes de estereotipia. Coisa do século passado.

Era um jornalzinho pobre, magro, mimeografado em folha A4, e cheirava a álcool. Ele falava de música, de cinema, literatura, teatro, esportes, televisão, tinha uma grande matéria de capa, o editorial e um conto.

No primeiro número falamos de Transa, de Caetano Veloso, do Clube da Esquina, de Milton e Lô Borges, de Atom Heart Mother, do Pink Floyd, do Killer, de Alice Cooper e do Passado, Presente e Futuro, de Sá, Rodrix e Guarabira.

Charles Magno escreveu sobre a coqueluche do momento, Jane Fonda, enquanto um artigo assinado por Miriam Crysthus, começava assim: “Qualquer um que tenha irmão, primo, parentes nessa faixa de idade (14-18 anos) já deve ter notado que o jovem definitivamente não lê”.

Dinorah do Carmo, minha parceira na direção do jornal e apaixonada pelo palco, escrevia na página quatro sobre duas estreias no teatro: Diário de um Louco, do russo Nicolai Gogol, e As Visitas, de José de Souza.

 

“Falar sobre televisão é o negócio mais chato do mundo e fazer televisão é o negócio mais bacana do mundo”. Assim começava a crítica de Marco Pieroni sobre os telejornais da Globo: JH, JN e JI, o Jornal Internacional.

Eu comentava a chegada às bancas da Revista de Fotografia, do Grilo e do Jornalivro, da editora Arte & Comunicação, aquela que fez uma pequena revolução na imprensa brasileira naquele início dos anos 70.

Dinorah do Carmo assinava também a matéria de capa sobre os cinquenta anos da Semana de 22 e o saudoso Benjamin Abaliac, anunciava a falência do futebol mineiro, numa matéria de página inteira.

E pra terminar, o conto Ana, assinado por Lucia Helena, dizia nas primeiras linhas: “Ana Maria andava sozinha, olhando pro mar. Tarde no Rio, céu já vermelho, mostrando que o amanhã seria dia de praia cheia”.

O número 1 do Flã esgotou em poucas horas. Fizemos uma segunda tiragem, que saiu meio desbotada porque o papel do mimeógrafo já não aguentava mais a impressão.

Queríamos, para o segundo número, a participação de toda a galera do Jornalismo da UFMG. Colamos uns anúncios nas paredes da faculdade, pedindo sugestões de pauta e a colaboração de todos.

Colocamos uma caixa para coletar as sugestões ao lado do elevador e, dois dias depois, fomos lá colher os frutos, sonhando com um segundo número robusto, plural e com muito conteúdo.

Abri a caixinha que estava fechada com cadeado e a surpresa foi encontrar lá dentro, vinte e dois contos. E só. Minas Gerais tem o maior número de contistas por metro quadrado, era uma frase que circulava pelo Brasil afora. E era verdade.

Corremos pra fechar o segundo número a toque de caixa e, lembro-me bem, espinafrei, no editorial, o fato de termos recebido apenas contos. Aqui é uma Faculdade de Jornalismo e não de Letras, esbravejei. Foi aí que tive uma briga com Luiz Fernando Emediato, que defendia que jornalista poderia ser também contista. Ele citava o caso do premiado jornalista Roberto Drummond, autor de A Morte de D.J em Paris e Sangue de Coca-Cola.

Resumo da ópera: Quase cinquenta anos depois, Emediato é um dos grandes amigos que tenho e que guardo no lado esquerdo do peito.

Ele saiu de Minas Gerais, tomou o rumo do jornalismo, ganhou prêmios trabalhando como repórter especial no Estadão durante muitos anos. Depois tomou o rumo da literatura, publicou vários livros e hoje é dono de uma editora. Como escritor, ganhou o Concurso de Contos do Estado do Paraná, um prêmio cobiçado, como é hoje o Jabuti. Ganhou também o Concurso de Contos Eróticos da revista Status, prestigiadíssimo na época.

Durante décadas, trabalhamos juntos em vários projetos, editando livros da falecida Editora EMW e até mesmo em Cuiabá, numa temporada de 40 graus à sombra, estivemos lado a lado numa redação.

Um dia, fui embora do Brasil, virei correspondente da imprensa alternativa, voltei ao meu país, encontrei o Emediato no corredor do Estadão e comecei a trabalhar lá no dia seguinte. Foi com o Emediato que criamos, juntos, o Caderno 2 do jornal, reservando um espaço diário para a crônica, numa época em que a crônica não estava com essa bola toda.

Voltei a trombar com ele no SBT, onde colocávamos no ar um divertido e criativo telejornal, aquele que deu na escalada: Margareth Tatcher morre, porque ninguém é de ferro!   

 Fechando o resumo da ópera. As nossas vidas misturaram-se entre boas doses de Jornalismo e Literatura, pitadas de realidade e ficção, entre o furo e o conto, e política à gosto, jogando por água abaixo aquele editorial no número 2 do Flã, um jornalzinho que durou apenas dois números.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br 

 

 

 

4 comentários em “O PRIMEIRO JORNAL

  1. Me surpreendeu ler que Miriam Chrystus tenha escrito, já cursando jornalismo, que “qualquer um que tenha… já devem ter notado que o jovem…” (sic). Enfim…

  2. Meu caro Alberto: foi com surpresa que ouvi de nossa colega-amiga Hélia Ventura que você havia escrito uma crônica sobre o Flã, fato que ainda não chegara ao meu conhecimento. Bela crônica que me emocionou e fez-me viajar no tempo! Discordo de você: não fizemos apenas dois números; creio que chegamos a meia dúzia.Eu tinha a coleção do Flã que foi desbotando com o tempo, até suas páginas ficarem na cor branco-pérola, com as palavras apagadas e/ou ilegíveis. Já o sexto e último número foi numa impressão melhor, no mimeógrafo a nanquim.Lembro-me de que havia na despojada
    aparência gráfica do jornal, mas de conteúdo sofisticado, uma crônica que era escrita sob o pseudônimo-título: “Coluna do Zé Pedreiro”.Eu gostava da mensagem ideológica dela,naqueles “anos de chumbo”, quando a mordaça tomava conta de quase tudo! Sempre suspeitei de que o autor era o Oskar Klingl, porém nunca falei nada com ele sobre! E nem com você, que fazia questão de guardar segredo sobre o artigo que aparecia,de repente, em nossos escaninhos lá na sala do Centro de Estudos Jornalísticos.Decorridos 47 anos, conta para mim , bem ao pé do ouvido: quem era o autor? Oskar? Charles Magno? Ou era você mesmo? Por gentileza, Alberto, satisfaça minha curiosidade de repórter… pois sim?Abraço carinhoso da colega-amiga de sempre, Dinorah Carmo

  3. Um memorial de Villas “O Primeiro Jornal”, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da UFMG. Espetacular. Uma crônica que entra na alma com lembranças de gente amiga e admiradas por mim. Estudei lá jornalismo. Lembro, Villas, que fizemos também um jornalzinho, porém dele lembro nada. Algumas coisinhas bem sumidinhas na cabeça.

    Não importa amigo – importa é que amei seu escrito, significados simples com os personagens colados no texto, o qual bem planejado, articulado, com começo, meio e fim. Gostei tanto que queria que ela fosse um livro, e não me alongo mais por que o meio não comporta escrito grandes.
    Agora, então, para concluir este tiquinho de comentário,
    Um abraço com muitas palmas.
    Manoel Botelho.

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