ONTEM

É visível a revolução tecnológica por que estamos passando nos últimos vinte anos. E é também visível a crise que vem enfrentando a mídia tradicional, os jornais impressos, as revistas, os telejornais. Pegos parece que de surpresa, vinte anos depois ainda não encontraram os seus caminhos. O jornais impressos emagreceram, acabaram com cadernos de ciência, de gastronomia, de literatura, de bem estar, seus cadernos juvenis e infantis. Demitiram jornalistas para enxugar a máquina e, com isso acabaram perdendo qualidade e, obviamente, leitores. As revistas vão fechando uma a uma. Hoje, quando vamos a um consultório médico, por exemplo, as revistas repousam sobre a mesinha de centro, cercadas por pacientes em seus smartphones. Ninguém se interessa nem em folhear mais as revistas de papel. O mesmo tem acontecido nos laboratórios de análises clínicas. A televisão fica ligada, mas o interesse está é na telinha do smartphone. A manchete do site Noticias da TV, mostrando que o Jornal Hoje, exibido de segunda a sábado, na TV Globo, vem perdendo audiência e, pela primeira vez na história ficou em segundo lugar, perdendo para um concorrente de qualidade duvidosa, é um sintoma claro dessa crise anunciada. Fui editor-chefe do Jornal Hoje, o JH como é chamado, durante uma temporada. Quando assumi o cargo, o telejornal era conhecido como jornal da hora do almoço. Dei ênfase a isso, injetando uma dose de criatividade em suas pautas, claro que dando asas à imaginação de uma equipe muito competente. Podem dizer que estou aqui, puxando brasa pra minha sardinha. Não é verdade, e explico. Fatos importantes, as hardnews, nunca ficaram de fora do nosso jornal, isso no final dos anos 1990. Mas o nosso forte era o comportamento, as mudanças que começavam a aparecer aqui e ali. Inventamos as passagens de bloco animadas e, lembro-me muito bem do sucesso que faziam. Todo dia era uma novidade. No aniversário de Drummond, por exemplo, as passagens mostravam seus poemas animados. Num dia de show de Michael Jackson, era ele que aparecia nas passagens de bloco, no carnaval, eram mulatas sambando como ninguém sabe sambar. O Jornal Hoje dava 25, às vezes 28 pontos no Ibope. Hoje, às vezes, não chega a dois dígitos. Não porque saímos, eu e a equipe, mas porque o telejornal parou no tempo. É raro você ouvir uma notícia na escalada do JH que você ainda não sabia. Um jornal inteiro de hardnews é coisa do passado. As pessoas passam o dia ligados nos sites, nos blogs e a notícia se espalha numa velocidade estonteante. Pra que, então, perder 25 minutos do dia para ver um repeteco? Digo ver, porque os sites não só dão a notícia do avião que caiu, como mostram a imagem. O Jornal Hoje tornou-se, literalmente,um jornal déjà-vu. Quando o telespectador ouve a escalada e percebe que já sabe de tudo, vai ouvir as fofocas na Record, o Chaves no SBT, um jogo no Sport TV ou uma receita da Rita Lobo no GNT. O Jornal Hoje, para recuperar a sua audiência, precisa correr em busca do tempo perdido. Não adianta mudar cenário, mudar apresentador, mudar editor-chefe. O segredo pode ser resumido em uma palavra: Criatividade.

2 comentários em “ONTEM

  1. Tive a honra de trabalhar com o Villas neste período,
    Lembro muito bem de todas estas passagens que ele citou
    O desafio de cada dia era como contar aquela história de maneira mais criativa, e acima de tudo funcionava!
    O “segredo” é esse mesmo, criatividade!
    Obrigado Villas

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