O PERU

Quando eu era criança, no tempo do Mandiopã, não existia peru morto pra comprar, só vivo. Ainda mais peru congelado e com apito. Nem pensar. O meu pai comprava no mercado, que era onde se vendia peru vivo, levava o bicho pra casa, matava, temperava e assava quando chegava o Natal.

Um desses natais, entrou pra história porque o meu pai foi pro Mercado Central de Belo Horizonte com três amigos de copo, funcionários do Serviço de Meteorologia: Jesus, Mateus e Aurino.

Depois de uma dúzia de Brahmas, eles lembraram de comprar o peru, porque o objetivo inicial era esse. Escolheram o maior de todos e nem quiseram que o vendedor amarrasse as pernas do bicho com um barbante. Saíram com ele debaixo do braço, todo nervoso, se debatendo.

Debateu tanto que acabou escapulindo dos braços de Mateus e aprontando a maior confusão no mercado. O peru estava doidaço, subiu na banca de laranja, jogou frutas pra todos os lados, desceu, saiu correndo e os bebuns atrás dele. Entrou no açougue, passou pelas picanhas, pela alcatra e pelo acém e foi-se embora mercado afora. E a meninada correndo atrás, assobiando, porque quando a gente assobia, o peru glugluta.

Só mesmo um policial fez o bicho parar. Enfiou o danado dentro de um saco de linhagem, depois de dar uma bronca nos quatro meteorologistas que, seguramente, seriam reprovados no teste do bafômetro.

O peru é motivo de chacota. É concorrente do pinto, quando o menino chega aos sete anos, mais ou menos. Quem nunca ouviu uma mãe dando uma dura no filho?

– Tira a mão do peru, menino!

Nos tempos de TV Globo, todo ano era a mesma piada quando chegava o final do ano. A emissora dava um peru e dois panetones de presente pros funcionários. Só se ouvia nos corredores:

– Você já pegou o peru do Doutor Roberto?

Quem morre na véspera é peru! Essa frase, piada bem velha, era muito falada quando eu era criança, ainda no tempo do Cremogema.

Vinicius de Moraes viu poesia no peru e colocou o bicho dentro da Arca de Noé.

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro peru!

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro peru!

O peru foi a passeio

Pensando que era pavão

Tico-tico riu-se tanto

Que morreu de congestão

O peru dança de roda

Numa roda de carvão

Quando acaba fica tonto

De quase cair no chão

Mulher muito enfeitada, oxigenada, com brincos enormes, colares, pulseiras, salto sete e meio e uma capinha do celular de oncinha, é chamada de perua. Não sei porque, a perua ave, na verdade, é bem mais simples que o peru macho, aquele que se exibe orgulhoso o seu rabo em forma de leque.

Não deve ser fácil pro peru, quando chega dezembro, ser chamado de peru de Natal. Isso significa que vai estar bem assado, recheado com farofa e, quem sabe, de uva passa, numa mesa cheia de família e ao som do Jingle Bell.

Procurei no Google e fiquei sabendo que o peru tem o nome científico de Meleagris, que pesa de 5 a 10 quilos, que a perua bota uma média de 12 ovos pra chocar, e se ele for malandro, consegue viver – ou melhor, sobreviver – a dez natais.

Quase todo peru é cinza, os únicos brancos que vi foi quando fui a Giverny, no interior da França, na casa do pintor Claude Monet. Lá tinha peru branco, iguais aos que ele pintou um dia.

Mas a grande confusão com o peru é geográfica. Existem mil versões para nosso país vizinho se chamar Peru. Uns dizem que o nome vem de uma tribo panamenha chamada Biru e que foi se transformando até chegar a Peru. Outros dizem é o nome de um rio que tem por lá, o Viru. E tem gente que garante que Peru na língua quíchua significa natureza. Quer dizer, nada a ver com a nossa ave.

E o mais curioso de tudo é a Turquia, em inglês Turkey, que traduzindo, é Peru. Quer dizer, temos um Peru aqui do lado e outro do outro lado do mundo, a Turkey, que também é Peru, mas não tem nada a ver com a ave. Deu pra entender? Boa ceia a todos!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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