O TOMBO

Pequena história de um acidente dentro de casa

Eram duas e meia da madrugada quando Julião, com nove anos de idade, despencou da cama beliche, estatelando no chão. O barulho foi um barulho surdo, seco, nós não imaginávamos que seria um tombo do beliche, no máximo suas revistas Recreio que ele costumava ler antes de dormir.Do tombo, vou contar mais tarde.

Julião era um menino muito curioso, sempre foi. Pequenininho ainda, era apaixonado por três coisas, além das revistas Recreio: Bandeiras, moedas e capitais. Todo final de ano, quando eu chegava em casa com o Almanaque Abril, ele debruçava sobre aquele calhamaço pra conferir as bandeiras de novos países que surgiam na África, as mudanças de moedas e a população das capitais.

Sim, antes do tombo, ele andou se interessando também pela população das capitais. Vinha encantado dizer que morávamos numa cidade que tinha uma população quatro vezes maior que a de Copenhague, a capital da Dinamarca.

Assinávamos a Folha e o Estadão e ele, logo cedo, ia direto nos cadernos de Economia pra ficar comparando o marco com o dólar, o franco com o peso, o iene com o dracma, numa época em que ainda não havia o euro. Vivia me pedindo laudas do Estadão, onde eu trabalhava, pra fazer gráficos e planilhas, reais e imaginárias. Gostava de fazer projeções.

As bandeiras, outra paixão, ele desenhava com esmero. Copiava direitinho do Atlas Melhoramentos, da enciclopédia Geografia Ilustrada que tínhamos em casa e também do Almanaque Abril, que trazia, em cores, cada uma delas.

Julião sempre foi uma figuraça. Nessa época, ainda sem Internet, eu jurava de pés juntos que ele seria economista, ia fazer FGV e ter uma profissão nada a ver com a nossa. Errei feio. Julião fez a Escola Guignard e hoje mexe com informática, com teatro, com arte e adora entrar numa briga política no Facebook. Nesse último quesito, não sei quem ele puxou. Risos.

Ele aprendia essas coisas olhando também um mapa-mundi que tínhamos em casa, enorme, brinde da revista Geo. Costumava ficar medindo a distância entre um país e outro com uma régua de 30 centímetros. O mundo para ele não tinha curvas.

O mapa do Brasil, Julião olhava com desconfiança porque ele não nascera em nenhum daqueles Estados. Não era paulista (apesar de ser um pouco), não era mineiro (apesar de ser muito), não era carioca, nem gaúcho. Na carteira de identidade dele estava escrito: Nacionalidade – Paris, França.

Agora vamos ao tombo. Quando vimos o Julião estatelado no chão, a primeira coisa que pensei foi: Será que bateu a cabeça em algum lugar? Será que está consciente de tudo? Levantamos o menino, meio sonolento, desorientado e a saída que encontrei foi fazer perguntas:

– Qual é o seu nome?

– Julião.

– Sobrenome?

– Villas.

Não me contentei e prossegui:

– Qual é a capital do Japão?

E ele respondeu, meio irritado:

– Tóquio!

– E da Tchecoslováquia?

– Praga!

– Como é a bandeira do Líbano?

Vermelha, branca e tem uma árvore no meio!

– E a moeda da Suíça, qual é?

– Franco Suíço.

Não tive dúvidas, carreguei ele no colo e devolvi pra parte de cima do beliche. Julião dormiu feito uma pedra o resto da noite.

No dia seguinte, liguei pro médico só pra narrar o acontecimento da madrugada e, além de rir, ele advertiu:

– Você não deveria ter colocado ele na cama imediatamente. Deveria ter ficado uma meia hora conversando, para que ele despertasse completamente.

Pensei com os meus botões: Conversar sobre o quê, aquela hora da madrugada? Sobre o dirrã marroquino, a moeda do Marrocos? A bandeira verde, amarela e azul do Gabão ou sobre Yamoussoukro, a capital da Costa do Marfim? Vai que ele não respondesse…

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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