O DISCO DA SEMANA

O primeiro disco dos tribalistras Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, foi uma surpresa. Sucesso de público e venda, eles preferiram se recolher e não fizeram sequer um show. O segundo disco tribalista, não. Foi anunciado com alarde e os três resolveram mostrar suas músicas em público. O show virou disco, que já está nas lojas e no Spotify. São vinte e cinco canções, quase todas hits consagrados. No quesito música, um disco delicioso do início ao fim, mas no clima “bom de ouvir”, ruim, culpa do over de “ao vivo”. Palmas, gritos e o que é mais grave, com o público cantando junto na maioria das músicas. A qualidade da gravação parece, com isso, que foi pra cucuias. Uma pena. Disco bom. Para colecionadores e fãs muito de carteirinha. [AV]

O LIVRO DA SEMANA

A sugestão da semana, mais precisamente deste penúltimo dia de março, é o livro Seu Amigo esteve Aqui, de Cristina Chacel. Vale a pena ler com muita atenção a história de Carlos Alberto de Freitas, um dos brasileiros que deu a vida para que pudéssemos estar aqui, ainda na luta para manter a liberdade. Leia e espalhe, ensine aqueles que ainda acham que a solução é um intervenção militar já. [AV]

TEMPOS MODERNOS

Não sei se saberia criar quatro filhos nos dias de hoje

Não vou dizer aqui que, numa hora dessas, as crianças de hoje deveriam estar na rua jogando pelada com bola de meia, apostando corrida com carrinho de rolimã ou jogando bolinha de gude no lote vazio.

Não vou dizer que deveriam estar criando pombos, subindo no muro pra roubar goiaba do vizinho ou jogando batalha naval.

O meu pai ficou perplexo quando viu que os dois filhos não queriam mais colecionar carrinhos da Mathbox, armar o forte apache ou brincar de xerife e bandido. Queriam passar a manhã vendo Os Jetsons, Os Flintstones, o Manda-Chuvae o Zé Colmeia na televisão.

OS JETSONS (FOTO: REPRODUÇÃO)

Minhas três irmãs também abandonaram as panelinhas, a boneca Amiguinha e deixaram de pular corda.

O CLÁSSICO MATHBOX

O meu pai, que já não via graças nos carrinhos da Mathbox porque os dele menino, era ele quem fazia com caixinhas de fósforo e tampinhas de garrafa, ficou ainda mais assustado de nos ver hipnotizados diante da telinha vendo aqueles desenhos animados e o Circo do Carequinha.

Quando o meu primeiro filho nasceu, bem longe daqui, havia uma preocupação muito grande com a televisão, considerada por nós, radicais, o ópio do povo, uma máquina de fazer doido.

Voltamos pro Brasil com dois filhos pequenininhos e encontramos aquele Brasil que os militares diziam ser um país que vai pra frente. Sim, ia pra frente da televisão. Tínhamos pavor que eles viciassem em Xuxa e em Angélica e, com isso, a televisão só entrou na nossa casa quando o mais velho tinha sete anos.

Éramos radicais na comida e na diversão. Não comiam açúcar, não tomavam Coca-Cola, não mordiam Cheetos, só ouviam Os Saltimbancos, a Arca de Noé, a Casa de Brinquedos e o Advinha o que é. Na televisão, só assistiam a Ra-Ti-Bum e Glub Glub. Os dois cresceram e foram felizes para sempre.

Depois veio a segunda safra de filhos e a história era outra. A onda eram As Chiquititas, um desenho muito louco chamado A Vaca e o Frango e os filmes da Disney, O Rei Leão, Pocahontas, Procurando Nemo, Toy Story e A Bela e a Fera. Saíram ilesas de Xuxa e Eliana já não cantava mais “meus dedinhos, meus dedinhos, como estão, como estão”. As duas também foram felizes para sempre.

Hoje não temos mais crianças em casa, mas temos netos, afilhados, crianças pra todos os lados nos fins de semana. Sim, são cem vezes mais espertas do que fomos, apesar de não saber jogar finca, fazer guerra de mamona, jogar queimada ou brincar de passa-passa-gavião.

Eu não sei como faria se meus filhos hoje tivessem na faixa dos cinco, oito, dez anos. Como conseguiria deixá-los um pouquinho longe do smartphone ou do iPad? Estabeleceria horário? Esconderia esse apaixonante objeto do desejo? Proibiria de vez? Não sei.

A minha aflição de avô é diferente da de pai, eu sei. Sei que o meu neto Raul, por exemplo, adora comer ervinhas no canteiro, ficar horas no balanço da pracinha, ouvir a história do João e o Pé de Feijão, achar a lua no céu antes de todo mundo e ajudar a varrer a casa em dias de faxina.

Outro dia, de férias aqui em casa, cansados de tanta atividade, de tanto brincar com o tobogã maluco, avô coruja e neto querido, deitaram aqui no chão da minha sala pra assistir, abraçadinhos, eu e ele, a tal da Galinha Pintadinha. Pensando bem, acho que saberia sim criar filhos hoje. Não vou mentir pra vocês. Adorei a Galinha Pintadinha.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacaplital.com.br

foto Raul: Alberto Villas