ILHA DO NORTE

Quando o dia amanhece cinza como hoje, chuvoso, meio frio, o excesso de passado toma conta de mim. Então, lembro-me de Londres, a primeira vez que pisei ali na esperança de escrever um livro e, quem sabe, nunca mais voltar ao meu país tropical, com quem andava rompido.Tinha vinte e poucos anos, a minha calça Lee era desbotada pela água sanitária, a camiseta do Grateful Dead era preta, e os tamancos eram suecos. Os cabelos eram rebeldes, presos com um elástico para tapear a polícia inglesa, severa com os forasteiros que ali chegavam. Na mochila, havia apenas três cadernos Avante!, duas canetas Bic de cor roxa, sonhos guardados e uma boa dose de ilusão.
Gostei dali à primeira vista. No primeiro dia, ao chegar na Estação de Waterloo, sai andando pelas ruas molhadas brilhantes, encantado com as árvores uniformes, a limpeza das calçadas, o silêncio, os prédios revestidos de tijolinhos bonina com portas maravilhosas, vermelhas, verdes, azuis, amarelas e vinho. Cada uma mais linda que a outra.
Procurando no parque o albergue que me abrigaria nos primeiros dias, passei por esquilos comendo nozes, cavalheiros de fina estampa, galgos elegantes com um olhar blasé, nem aí para os pombos. Até chegar ao meu destino, passei por gansos, marrecos de Pequim, gaivotas, pardais e muitos melros beliscando o gramado.
Me instalei num pequeno quarto, o único para um hóspede só. Havia uma cama de solteiro e duas toalhas imaculadamente brancas em cima dela. Uma cadeira acolchoada, um guia da cidade, uma escrivaninha, uma chaleira elétrica em cima dela, dois ou três pacotinhos de chá Twinings de menta e nada mais.
Uma janela pequena dava para o gramado do parque e estava constantemente escorrendo água pelo vidro, suando, uma alquimia entre o quente ali dentro e o frio lá fora.
Lá fora, era Londres. Sonhava um dia em chegar ali e ir ficando. Gostava daquele ar sombrio, cinza, frio, triste, estrangeiro, europeu, que via de tempos em tempos nas páginas da revista Manchete. Meu inglês ruim seria corrigido em pouco tempo ao assistir a BBC todos os dias, ao ler o sisudo The Times e as revistas que gostava: Bird Magazine, Willd Life, New Statesman, Melody Maker, New Musical Express, Radio Times e Time Out.
Durei três dias naquele albergue, com dificuldade para aprender o inglês britânico e sem saber como a chaleira elétrica funcionava. Três dias era o tempo permitido para cada hóspede e nem insisti em ficar mais. Saí com a mochila nas costas rumo a Earls Court, onde me disseram que havia pequenos hotéis, baratos e limpos.
Cheguei em um simpático, depois de muito caminhar, de almoçar um arroz com curry e peru desfiado num pequeno restaurante indiano, onde a tristeza no olhar dos donos me comoveu, olhar que acabei me acostumando com o passar dos dias.
Dias que passei num hotel de chão irregular, janela travada pela tinta com que foi pintada, cama de casal, um quadro mostrando um cavalo em bico de pena e o nome dele: Filho da Puta, assim mesmo em bom português. Todas as noites, quando chegava no quarto do hotel, conversava com o Filho da Puta.
Contava a ele as lojas de discos que havia descoberto, os novos parques que havia percorrido, os cassinos onde arriscava algumas velhas moedas em troca de uma pequena fortuna que nunca veio. E as horas que passava na WHSmith decifrando os títulos dos livros, e folheando a Bird Magazine, sentado numa poltrona de couro marrom.
Tudo isso em busca de imaginação para um livro de contos curtos que chamaria O colecionador de passarinhos, uma ideia que vinha costurando desde que ouvi Blackbird pela primeira vez, no álbum branco dos Beatles, quando revi Ospássaros, de Alfred Hitchcock e li O corvo, de Edgar Allan Poe.
Não durou muito Londres na minha vida. Foi apenas um sonho de algumas noites de inverno, coisa de quem tem vinte e poucos anos e uma bagagem cheia de sonhos e ilusão. No dia da despedida fui até a feira de Portobello e comi um fish & chips embrulhado num papel de pão acompanhado de uma Guinness, sentado no meio-fio, não poderia ser de outra maneira.
São apenas algumas as lembranças dos poucos dias que passei ali. A fotografia da faixa para pedestres de Abbey Road, os primeiros discos de reggae que escutei nos guetos jamaicanos, os caramelos que roubei na Harrods, os cadernos Avante! na mochila, o prazer de andar no segundo andar dos ônibus vermelhos sem saber pra onde ir, a noite que passei dentro de uma cabine de telefone, com pouco dinheiro no bolso, comendo papinha da Nestlé.
Hoje, amanheceu assim aqui em São Paulo. O tempo cinza lá fora, a chuva fina caindo e o céu pesado nos protegendo, me fez lembrar da primeira vez que cheguei a Londres sonhando ficar para sempre e do livro O colecionador de passarinhos, que nunca escrevi.

Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital

cartacapital.com.br

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