120 DIAS

Hoje, o governo de ultra-direita de Jair Bolsonaro está fazendo quatro meses. Continuo não enxergando nenhum sinal de luz no fim do túnel, muito pelo contrário. Vejo trevas. Foram cento e vinte dias de trombadas, de burradas, de destruição. Nada de útil. Nossa imprensa conservadora continua tentando passar uma imagem de que se a orquestra ainda está tocando, é sinal de que o Titanic não está afundando. Que lembranças temos desses quatro meses de governo? Um ministro da Educação demitido, uma ministra que viu Jesus num pé de goiaba, um vídeo pornô, dezenas de funcionários contratados e demitidos em seguida, oitenta tiros num músico negro, dois prédios construídos pela milícia desabados e 24 mortos, um punhado de disse-não-disse, uma clara política do toma lá-dá cá, um vereador do Rio que fica dando pitacos diretamente de Brasília, um presidente que faz a Petrobras perder 32 bilhões em um dia, uma líder do governo que veste um maluco de Napoleão, achando que é dom Pedro I e dá o grito: Reforma da Previdência ou morte!

[AV]

VN

Donos e diretores da Rede Globo de Televisão costumam, em eventos públicos, bater sempre na tecla da independência e da imparcialidade de seu jornalismo. É preciso ter coragem. Vou citar apenas poucos exemplos recentes. Que a empresa defenda a reforma da Previdência, nas manchetes desde o golpe, ela tem todo direito. Mas ela não tem o direito de iludir o telespectador, apresentando, diariamente, apenas um lado da moeda. Aquela história de que o bom jornalismo tem de ouvir todos os lados, é balela. A TV Globo nunca coloca no ar alguém contrário a reforma que, claramente, vai prejudicar os bons e velhos trabalhadores. Você pega o controle remoto e passa pela TV Câmara, pela TV Senado, ou entra nas redes sociais, vai ouvir deputados e senadores claramente contrários às reformas e com argumentos sólidos nas mãos. São milhões de brasileiros que desconfiam dessa reforma, mas a TV Globo só mostra um lado, o que interessa a ela, e nem chega perto do outro. Um outro exemplo são as manifestações. Recentemente, em um protesto em Londres contra a destruição ambiental do Planeta Terra, lá estava o correspondente da TV Globo nas ruas, entrevistando os manifestantes, querendo saber todas as opiniões. Você já viu algum manifestante brasileiro, numa manifestação de rua, dando sua opinião na TV Globo? Enquanto as televisões do mundo inteiro mostram a vigília na porta da Polícia Federal, pessoas acampadas há um ano em Curitiba, dando bom dia e boa noite ao único preso político do país,  a TV Globo finge que ela não existe. Mas, agora, o caso mais flagrante foi a entrevista que Lo ex-presidente concedeu a Mônica Bergamo, da Folha, e a Florestan Fernandes Jr, do jornal El País. A TV Globo, que já repercutiu dezenas e dezenas de reportagens exclusivas, furos da Folha, ignorou o fato, comentado na imprensa do mundo inteiro. A TV Globo, que já entrevistou até mesmo o dono de uma lojinha de material de construção no Guarujá, ele dizendo que Dona Marisa esteve lá um dia, fingiu que a entrevista histórica não existiu. Sim, Lula criticou duramente a TV Globo na entrevista. Se era tudo mentira ou acusação falta, a TV Globo não tinha motivos para não responder ao presidente ou até mesmo processá-lo. Calou-se, logo consentiu. Nos últimos tempos, o Jornal Nacional (JN) virou uma Vergonha Nacional (VN). Sinceramente, o que mais tenho acreditado no JN é a previsão do tempo.

[Alberto Villas]

[foto Reprodução TV Globo]

EL PAÍS SEMANAL

Tenho batido numa tecla aqui, alertando pauteiros que andam cochilando. Na capa da El País Semanal, a revista de fim de semana do El País, uma grande reportagem sobre a tatuagem, moda que se espalhou pelo mundo afora. Sei como funcionam as coisas por aqui. Se alguém sugerir numa reunião de pauta uma reportagem sobre tatuagem, aquele chefe de redação vai virar e dizer: “Ah… isso é velho”. Ou então “Precisa de um gancho”. Gancho esse, certamente a morte de alguém que tatuou e teve problemas na pele ou coisa parecida. A reportagem da revista do El País é uma reportagem de comportamento. Palavra que ainda meio esquecida por aqui. [AV]