ROSA DOS VENTOS

“E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima”

Chico Buarque

Eram sete horas da manhã quando cheguei em casa, um bagaço. Moído, com os ossos doendo, os olhos ardendo, as pernas bambas.

Depois de uma noite inteira de trabalho braçal, só consegui entrar em casa e, sem acender as luzes, apalpar as estantes de livros, localizar o tatame no chão e esticar o corpo.

A cabeça doía e aquele barulho infernal da furadeira não desaparecia. Quando o dia começou a clarear em Paris, abri os olhos e enxerguei na parede um único pôster antigo que ali havia, cor de laranja, uma casa feita de garrafa de Coca-Cola, anunciando uma exposição sobre arquitetura marginal nos Estados Unidos. Cobri a cabeça com um travesseiro fuleiro, disposto a acordar por volta de meio-dia porque, seis da tarde, a luta continuava.

Foi nesse intervalo que acordei assustado, na certeza de que Maria Bethânia estava ali na sala da minha casa, onde dormia. Cheguei a ouvir sua voz, ver sua saia rodada cheia de miçangas e uma camiseta apertando os seios miúdos, desbotada pela água sanitária. Fiquei de pé e olhei para os lados. Os vidros da janela suavam, anunciando a diferença de temperatura de inverno lá fora, e o quentinho de um aquecedor a gás aqui dentro.

Saí percorrendo os outros três cômodos da casa, meio atordoado, um pouco decepcionado por não encontrar Bethânia, mesmo na certeza de ela estar por ali.

Morava em Paris já fazia muitos anos, mas insistia em ouvir num velho disco de vinil cheio de chiados aquele show ao vivo que vi no Teatro da Praia, no Rio, pouco antes de partir. O disco veio na minha bagagem de mão, temeroso de empenar dentro da mala. A Rosa dos Ventos que trouxe, foi presente de uma amiga.

As noticias eram as seguintes:

Vaticano elege João Paulo I, um papa moderado.

 Nasce em Londres o primeiro bebê de proveta.

 João Baptista Figueiredo é escolhido como novo presidente da República.

 Brigadas Vermelhas garantem que Aldo Moro está vivo.

 Itália católica legaliza o aborto.

 Corpo de Charles Chaplin some do túmulo.

 Fim do AI-5 inicia abertura no Brasil.

O meu trabalho, de meia-noite às seis horas da manhã, era ajudar na instalação de guard-rails na autoestrada A4, não muito longe de Paris. Meia-noite em ponto, cones fechavam parte da autoestrada para que pudéssemos começar a colocar estacas, perfurar o ferro e encaixar o aço.

Trabalhava numa equipe com um agrônomo boliviano, um engenheiro colombiano, um estudante peruano e um professor de educação física brasileiro. Todos com carteira de estudante, mas impedidos de trabalhar. Clandestinos! No final de cada madrugada de trabalho, o mestre de obras entregava um envelope para cada um, com duas notas de 200 francos e uma de 100.

As madrugadas eram longas e frias. Lembro-me bem que, de tempos em tempos, colocávamos nossas mãos, protegidas por luvas de couro, em cima do gerador para aquecê-las. O café vinha de hora em hora, puro, servido em copinhos de plástico duro e resistente.

Naquele 1978, não costumava anotar meus sonhos, como faço há mais de dois mil dias por recomendação médica. Mas fazia anotações quase que diárias do que rolava naquele meu exílio.

É assim que às vezes descubro coisas não sei se banais, como o sonho com Maria Bethânia e o trabalho de instalar guard-rails na autoestrada A4, perdidos no tempo.

Sabia que, um dia, essas anotações poderiam ser úteis na minha vida, matéria-prima para escrever crônicas, de tirar leite das pedras, de ver o tempo correr. O velho disco de vinil já não existe mais, perdeu-se com o tempo e o casamento que ficou pra trás. Foi transformado em CD que agora adormece numa das estantes. Ouço sem chiados no Spotify e ainda me emociono com a voz de Maria Bethânia e os versos de Batatinha:

Se não acerto chorar

Mesmo assim eu vou passando

Vou sofrendo e vou sonhando

Até quando despertar

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartaapital.com.br

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