ANDAR COM FÉ

 

Cheguei a Paris pela primeira vez, muito cansado depois de horas e horas de viagem de trem, num vagão desconfortável que me trouxe de Lisboa. Minha amiga estava eufórica me esperando na estação, ansiosa por notícias do Brasil, numa era sem e-mail, sem WhatsApp, sem nada. Mal sabia ela que, na matula, eu trazia um pedaço de goiabada cascão, uma latinha de guaraná e algumas paçoquinhas Amor, já meio estropiadas.

Sãozinha morava no coração do Quartier Latin, num quarto quatro por quatro, cômodo que seria minha moradia na cidade nos próximos invernos, nem Deus sabia quantos. Joguei a bagagem num canto, descemos para tomar uma minestrone no Boulevard Saint Michel e fomos fazer um rolê pela cidade, mesmo eu sentindo os pés inchados, mais de trinta horas sentado numa poltrona de trem.

Descemos o Boul’Mich, entramos nas ruelas do Quartier Latin e, de repente, surge majestosa e iluminada, a Catedral de Notre-Dame. Arrepio foi pouco para ilustrar minha emoção. Fomos caminhando, passamos na porta da livraria Shakespeare and Company, ainda aberta. Fiquei maravilhado com as pilhas de National Geographic antigas na porta e, na vitrine, a última edição da New York Review of Books.Chegamos bem perto da Notre-Dame que, tarde da noite, já tinha a porta fechada. Fiquei ali sentado num cone de cimento, maravilhado observando cada detalhe daquela obra prima da humanidade. E fomos embora.

A Notre-Dame virou para mim, a partir daquele dia, o porto seguro, o pitstop para qualquer andança pela cidade. Logo Sãozinha contou que todo domingo, dezoito horas em ponto, havia um concerto gratuito na catedral. Mozart, Chopin, Dvorák, Sibelius, cada domingo um ecoava suas músicas pelas paredes pesadas que me protegiam.

Toda semana, ia bem cedo para conseguir um assento e ouvir os concertos. Era o momento em que fechava os olhos e viajava até o Brasil, saudade à flor da pele. Pensava em tudo, do índio guarani ao guaraná. Pensava nos meus país, nos sobrinhos que iam nascendo, no mar do Espírito Santo, no disco Qualquer Coisa do Caetano, no quibe delicioso que minha sogra Dora fazia toda quinta-feira, no torresmo do Mercado Central, na mandioca frita, no pé de caju, no suco de cajá, no sol dourado, nas coisas do meu país.

Durante meus anos de Paris, voltava ali na Notre-Dame sempre e, cada vez que ia, acendia uma vela para minha mãe, católica fervorosa, amante de uma claridade iluminando suas novenas. Andava por toda a catedral, arrastando o tamanco sueco para não incomodar os fiéis, naquele chão gasto pelos séculos dos séculos.

Os jardins que circundam a catedral, uma outra paixão. Nas tardes de primavera, sentado num banco, ficava admirando os mil tons de verde das folhagens, como se estivesse longe dali, curtindo um jardim japonês em Kyoto. Via os brotinhos despontando nas árvores ainda secas do inverno e observava, ali ao lado, o Sena correndo como se fosse um rio que estava passando na minha vida. Caudaloso, esverdeado, com bateaux-mouches cheios de japoneses indo pra lá e pra cá.

Nunca fui a Paris e deixei de ir a Notre-Dame. Nunca. E toda vez que vou, continuo acendendo uma vela pra minha mãe, já morta, mesmo sabendo que nas suas novenas já não existem mais claridade.

Numa dessas idas, a minha filha com dezoito anos de idade e um olhar de lince, flagrou no chão da catedral, as luzes coloridas que vinham dos vitrais e clicou.

A revelação ficou linda e a fotografia acabou sendo publicada na revista do jornal Le Monde, em maio de 2008, ilustrando um texto cujo título era Marcher avec la foi, em bom português, andar com fé.

Hoje, a minha Notre-Dame praticamente não há mais. Mas tenho certeza que um dia verei a catedral ressurgir das cinzas, e lá estarei para acender uma vela para minha mãe e ouvir, num dia de domingo, mais uma vez, a Valsa Triste, de Jean Sibelius.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

foto Maria Clara Villas

 

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