O DISCO DO DOMINGO

Quem ouve o quarto disco do grupo Terno, no meio de uma confusão, conversas atravessadas ou barulho de trânsito, não vai gostar. Vai achar meio devagar, meio sonolento. Agora, quem ouvir em silêncio, prestando atenção nas letras de Tim Bernardes, vai se apaixonar e vai querer ficar com ele para sempre, ouvindo sem parar. O Terno é isso. Tim, que surgiu como um compositor absolutamente original, mantem a forma em <atrás/além> com vigor. O terno será eterno. Adorei.

NEW SCIENTIST

A primeira foto do buraco negro foi parar nas primeiras páginas dos principais jornais do mundo. Foi notícia em todos os cantos do Planeta Terra. Para saber tudo, para saber mais, se aprofundar no assunto, a revista recomendada é a inglesa New Scientist.

[foto Reprodução]

O LIVRO DA SEMANA

O novo livro do escritor turco Orhan Pamuk, Nobel de Literatura 2006, acaba de pipocar nos quatro cantos do mundo. Já temos edições em várias línguas, inclusive em português de Portugal. Ainda não chegou por aqui, ainda não li, estou esperando ansiosamente, e já estou recomendando de olhos fechados. Leitor assíduo de seus livros – Neve, Istambul, O meu nome é vermelho, O museu da inocência, entre outros, tenho certeza que A mulher de cabelo ruivo deve ser mais um grande livro de um – na minha opinião – dos maiores escritores da atualidade. É só ficar de olho. Com certeza, voltarei ao assunto. [AV]

ERA DOMINGO

O dia vermelho no calendário era o dia de se deliciar com aqueles jornalões

 

Num dia desses eu me lembrei de um cartum do Millôr Fernandes em que ele abre a porta da sua casa e quando vê o Estadão de domingo jogado em cima do capacho, exclama:

– Meu Deus, o que aconteceu ontem em São Paulo?

Era assim, os jornais de domingo pesavam uns cinco quilos e tinham quase trezentas páginas e não sei quantos cadernos, suplementos e revistas, sem contar aqueles cadernos que eram só publicidade. Era leitura pra semana inteira.

O barato, às vezes, era comprar os jornalões no final da tarde do sábado, saindo do forno, ainda quentes, manchando nossas mãos de tinta.

Mas ler mesmo, era no domingo à tarde. A gente deitava na rede, levava aquele calhamaço junto e começava a colocar os cadernos em ordem, jogando no chão uns dois quilos de classificados. Eram uns cinco minutos que durava essa operação.

Esses classificados no chão, deixávamos pra espiar depois, mais tarde, com calma. Dávamos uma olhada, mesmo que não estivéssemos procurando um apartamento pra alugar, uma casa pra comprar, um carro velho pra trocar. Mesmo que não estivéssemos atrás de um emprego de almoxarife, de escrevente datilógrafo ou estenodatilógrafo.

Procurando com calma, a gente encontrava de tudo naqueles páginas: uma máquina de costura Singer, uma máquina de escrever IBM de bolinha, uma geladeira Kelvinator vermelha ou uma televisão Colorado RQ.

Mesmo sendo um jornalão conservador, uma gostosa, 18 aninhos, iniciante, se oferecia por ali.

Tinha o primeiro caderno, o de Política Nacional, Internacional, o caderno de Economia, o caderno de Esportes, o caderno de Variedades, o caderno de Cidades, o suplemento Feminino, o suplemento Agrícola, o de Turismo, o de Literatura, o de Cultura, a Folhinha, o Globinho, o Estadinho, o Gurilândia.

A Folha tinha a revista São Paulo, já teve a Folha D, já teve o Mais!, o Folhateen, o Folha Viva, o Folhetim, o Ciência, o Sinapse, o Agrícola, a Folhinha, o Equilíbrio e até o resumo traduzido do The New York Times.

A gente ficava ali na rede até o dia escurecer, lendo quase tudo. Líamos até mesmo aqueles artigos traduzidos que forravam os classificados do Estadão, os textões de Raymond Aron e aquele caderno Cultura que perguntava na capa: Por que ler Tocqueville hoje?

Os jornais eram mesmo enormes, pesados, e quando a gente saia da rede pra ir até a geladeira pegar uma Coca já meio choca, vinha aquela dor de consciência: Meu Deus, faltou tanta coisa pra ler.

Ler os jornais de domingo era um prazer que não tinha preço. No final do dia, era aquela preguiça, aquela jornalada esparramada pelo chão, algumas páginas dobradas, amassadas, pisadas e até recortadas.

Era pauta que não acabava mais. Os repórteres saiam às ruas durante a semana, muitas vezes sem um assunto definido. Nos becos, nos mercados, nos ônibus, descobriam histórias extraordinárias que eram bancadas pelo editor-chefe que ia bolando, durante a semana, a edição de domingo.

Oito horas, vinha o show da vida, aquela mulher linda e colorida saindo da água, o humor de Chico Anísio, as reportagens assustadoras do Hélio Costa, os clipes do Raul Seixas, a zebrinha anunciando o resultado da Loteria Esportiva, o Mister M e os gols do Fantástico.

E depois, vinha aquele bode. Aquela música anunciando que o domingo estava acabando e a gente ali comendo um resto de macarronada esquentada com a Coca já totalmente choca, a certeza que o dia seguinte era segunda-feira.

O único consolo era saber que, na segunda, tinha o caderno de Esportes, com as tabelas atualizadas de todos os campeonatos estaduais e internacionais, aquelas fotos maravilhosas que lembravam o Canal 100, aquela radiofoto da bandeirada final da fórmula 1, as barbadas do turfe e a última página com a seção Penalty, de Otelo. Adorava recortar o Diploma de Sofredor e entregar pro chefe na firma, logo cedo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

COM CERTEZA!

A jornalista Leda Nagle ficou conhecida no Brasil inteiro pelo seu bordão “com certeza”, a sua carinhosa despedida, todas as tardes, quando terminava o Jornal Hoje, da Rede Globo, durante muitos e muitos anos. Simpática ao fazer entrevistas, não resta a menor dúvida, quando deixou a casa dos Marinho, foi fazer o Sem Censura, em outro canal, um programa delicioso, de segunda a sexta, ao cair da tarde. Não faz muito tempo, Leda foi afastada do comando do Sem Censura, o que provocou muita indignação nos telespectadores vespertinos. Mas tudo tende passar e Leda, ligada aos novos tempos, foi fazer o seu programa – Canal Leda Nagle – no Youtube, onde recebe em casa, os seus convidados. Os últimos quatro programas assustaram pelo viés ideológico. Foram apenas convidados de direita, não resta a menor dúvida. Carlos Bolsonaro defendeu-se, dizendo que ele não é o pitbull que dizem, com Danilo Gentilli bateram na tecla da censura, com Alexandre Garcia falaram de “jornalismo isento” e com os três garotos que dirigiram o documentário 1964 – Entre Armas e Livros, o assunto foi também a imparcialidade do trio do Brasil Paralelo, inclusive com elogios a voz de Emílio Garrastazu Médici, um ditador feroz de tempos que procuramos esquecer e alguns, lembrar. Sinceramente, gostaria de ver no programa da Leda no Youtube, o outro lado da história. Gostaria que ela virasse a primeira à esquerda e encontrasse pessoas com pensamentos diferentes desses últimos seis entrevistados. Que tal um Fernando Morais, uma Luiza Erundina, um Ivan Valente, uma Manuela D’Ávila? Aguardemos. [AV]

[fotos/Reprodução Youtube]