COMO VAI MINHA ALDEIA?

Há um ano, chegávamos de mala e cuia na aldeia de Vryses, no Peloponeso, dispostos a passar uma temporada. Conhecia o Peloponeso dos livros de Geografia, do Atlas Mundial Melhoramentos e das arguições que os Irmãos Maristas nos submetiam nos finais de mês.

Agora estava ali, em pleno Peloponeso, pisando nele, sentindo o calor do sol grego, o cheiro de frutas, alfazema e lavanda.

Subimos de carro, bem devagarinho, durante quinze minutos, uma montanha cheia de curvas até chegarmos a casinha onde moraríamos.

Fomos recebidos com champanhe e flores. Uma salada de tomates maduros, azeitonas pretas e queijo feta, tudo regado ao melhor azeite do mundo. Flores secas espalhadas pelos cômodos, muitas frutas na fruteira, iogurte natural e ovos caipira no balaio.

Aquilo era a mais perfeita tradução da Grécia, sem tirar nem por.

Na primeira manhã, saímos para conhecer a aldeia e alguns moradores. Colhemos flores amarelas e nos deparamos com árvores frutíferas carregadas de damascos, limões sicilianos, maçãs, peras, uvas, figos quase maduros e as primeira cerejas.

O dia terminou com um por do sol vermelho e deslumbrante, lá embaixo mergulhando no mar Egeu.

Vryses tem pouco mais de setenta habitantes, todos gregos, quase todos idosos e que falam uma única língua, aquela que costumamos brincar.

– Você acha que estou falando grego?

Aos poucos, fomos conhecendo seus moradores. Tia Margaritae, no auge dos seus 90 anos, de olho em toda a aldeia, na vida que cada um leva. Dimitre, o professor de física que passa bom tempo do dia em seu escritório transbordando de livros de filosofia, um olho em Kant, outro no computador com as imagens de oito câmeras espalhadas por seu latifúndio. Nunca entrou um ladrão ali. Mas na tela dá pra ver formigas levando folhas para dentro do formigueiro.

Vick, mulher do professor, que nos serviu um café grego autêntico, acompanhado de biscoitinhos que ela mesmo amassa a massa e coloca no forno.

Tio Fux, que não me lembro o nome, mas que ganhou esse apelido devido a aparência com o juiz do STF, com aquele topete suntuoso e um charme de Zé Bonitinho. Conhecemos tio Fux montado numa motocicleta Jawa empoeirada, com cara dos anos 1960.

Conhecemos os donos do Café do Moinho com sua horta orgânica, seus petiscos deslumbrantes e um chá dos deuses.

Conhecemos Heleni, a dona do restaurante onde os velhos amigos passam a tarde tomando café gelado e contando as novidades de Vryses. Ela nos serviu tzazik e um cabrito que estava desfiando no prato, com temperos locais, de comer de joelhos.

Conhecemos pessoas que não ficamos sabendo o nome, pessoas que nos ofereciam pepinos, cebolas e verduras no meio do caminho, enquanto caminhávamos para conhecer a plantação de oliveiras.

Em um mês em Vryses, peguei várias vezes na enxada para tirar o mato que cresce sem parar na redondeza da casa, pintei a calçada com cal branco, em desenhos à moda grega, colhi figos agora maduros e derretendo das mãos, escrevi algumas páginas do meu novo livro, roubei internet do vizinho e fiz uma salada de celeri, como os franceses.

Colhi limões pra temperar a salada, damascos com uma cestinha de pescar, fotografei o que via de bonito e pequei tomando uma Fanta Goiaba, mesmo sabendo do teor de açúcar. Andei quilômetros a pé, tomei banho no Mar Egeu, comi muito souvlaki, muito gyros, tomei muita cerveja Mythos, muita cerveja Alfa e sonhei muito.

Um dia voltei pra São Paulo e hoje estou aqui em meio a automóveis, engarrafamentos, fumaça e motocicletas. Mas o sonho ainda não acabou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

METEOROLOGIA

Quando a gente acha que uma ideia ruim vai acabar desaparecendo, ela multiplica. De uns tempos pra cá, os telejornais locais da Rede Globo inventaram de ficar piscando na tela, a temperatura nos bairros das capitais onde são exibidos. Você acaba não prestando atenção no apresentador, no repórter, na imagem, enfim, na notícia. Isso porque passa a prestar atenção naquela bobagem no canto esquerdo da tela. Lapa 19 graus, Centro 19 graus, Pinheiros 18 graus, Liberdade 19 graus… Como se não bastasse, a praga se espalhou e atingiu o Encontro com Fátima Bernardes. O telespectador fica sendo bombardeado pelas temperaturas por esse Brasil afora. Será que a turma da Globo não sabe que, hoje em dia, a coisa mais fácil que tem é ficar sabendo qual é a temperatura da cidade onde cada um está? Resumo: Você não presta atenção no debate, no especialista falando, na banda tocando, mas fica sabendo que em Porto Velho está fazendo 30 graus.

[foto Reprodução TV Globo]

MORO DE VERGONHA

O jornalismo brasileiro não conta a História do país em capítulos. Salta trechos, pula fatos importantes, esquece o desfecho, omite a própria história. Faz um jornalismo como lhe convém. A Rede Globo de Televisão fez uma verdadeira novela, pra não dizer um verdadeiro carnaval, com o que chamou de “caso do sitio de Atibaia”. Nunca disse que o sítio era do ex-presidente Lula porque corria o risco de ser processada porque, ela mesmo, sabia não ser dele o tal sítio. Mas precisa dizer ao grande público que assiste aos seus telejornais, que tudo indicava que era. Falou de um barquinho de alumínio de 4 mil reais, falou com a dona da venda, com o vendedor de tijolos, falou de um mini-cristo, de uma horta de dona Marisa, falou de uma camisa do Corinthians encontrada por lá que, seguramente, pertencia ao ex-presidente, corinthiana roxo. No primeiro dia desta semana, o MPF resolveu autorizar a venda do sítio. E o beneficiário será o seu verdadeiro dono, o empresário Flavio Bittar. A Globo, que exibiu todos os capítulos da novela, achou que não era necessário exibir o último. Silenciou-se, deixando no ar a ideia de que o sítio era mesmo de Lula. O ministro da Justiça do governo de ultra-direita, Sergio Moro, estava em Portugal na hora do desfecho e não foi procurado pela Globo para comentar o fim dessa triste página da história do jornalismo brasileiro.

AV