O MUNDO DA CRIANÇA

Filho pequeno não é fácil. Quando o meu primeiro nasceu, eu jurava que nunca deixaria o pobrezinho levar um tombo, bater a cabeça na quina da mesa, escorregar no box do banheiro, brigar na escola, chorar. Bobagem, Julião já passou dos quarenta anos e guarda até hoje algumas cicatrizes pelo corpo, de tantos tombos que tomou, esperto que era. Correndo de meia pela casa, foi o mais grave. Nove pontos na testa. Mas virou um homem inteiro, ético, bacana.

Riponga em Paris, não deixava ele ver televisão – o ópio do povo – tomar Coca-Cola – produto do imperialismo – ou comer qualquer coisa industrializada que tivesse acidulante, corante, emulsificante ou coisa parecida. A carne, a gente substituía pela soja, o chocolate por uma mistura de cereais e o refrigerante pelo suco de pamplemouse, espremido com as mãos e sem açúcar. Fui assim uma espécie de Bela Gil do século passado.

Veio a segunda, a Sara, e a história começou a mudar. Ela chorava, batia a cabeça na quina da mesa, escorregava pela casa andando de meia, adorava escalar o vão da porta, tomava chuva e vento encanado. E eu não achava assim tão grave, ficava menos aflito. Aprendi que criança precisa chorar, cair, tomar chuva, se defender.

Maria Clara, a terceira, foi mais tranquilo ainda. Eu já tinha passado dos 40 anos e via a vida com outros olhos. Ela cortou o dedo numa lata de leite Ninho, deu pontos, tomou antitetânico e a vida continuou. Mas repito, filho pequeno não é fácil. Nunca me esqueço dos banhos quase frios no meio da madrugada pra baixar a febre, as compressas e as idas ao Pronto-Socorro do Samaritano com a menininha fazendo corpo mole de verdade.

Marília, a quarta, seguiu a mesma linha. Febre, dedinho cortado brincando com a bicicleta de cabeça pra baixo e uma história engraçada pra contar. Ela, pequenininha, seis meses, precisava de uma foto pro passaporte. E lá fomos nós numa maquina de tirar fotos 5X7. Enquanto a mãe colocava as moedas e apertava o botão, eu segurava a menina, tentando focá-la na tela. Quando a foto saiu naquele buraquinho de vento, lá estava ela de corpo inteiro numa foto 5X7, que a Polícia Federal não aceitou, claro.

Mas eu vim aqui pra falar de comida. Hoje, a moda é deixar a criança comer do jeito que ela quiser. Os pais modernos abandonaram definitivamente a papinha, o amassadinho, a colherzinha, aquele papo furado de abre o bocão ou olha o aviãozinho.

O negócio agora é entregar pro bebê a comida em sua forma mais natural possível. Beterraba, batata, cenoura, abobrinha, mandioquinha, para que ela sinta a consistência, a textura e o sabor de cada alimento. Tenho visto bebê brigando com uma manga inteira, sem dentes tentando morder uma maçã e outros lutando para chupar uma laranja cortada ao meio. É divertido, principalmente pra quem já tem quatro filhos criados.

Lembro-me bem que aquele ritual de cozinhar os legumes, cozinhar o ovo e separar a gema e depois passar tudo no liquidificador. Era um trabalhão danado. Depois, ainda tinha de acrescentar uma manteiguinha, esperar esfriar um pouco, sentar o bebê na cadeirinha e começar aquela novela diária de fazê-lo comer.

Que eu me lembre, Sara era a mais rebeldezinha dos quatro, às vezes cuspia a comida na primeira aterrisagem do aviãozinho e achava graça. Cansamos, então ela acabou sendo pioneira em provar os alimentos separados. Lembro-me bem que ela se apaixonou pelo limão, que chupava como se fosse um pirulito e sem fazer careta.

Quarenta anos atrás, em pleno 1979, a gente resolveu deixar que ela comesse sozinha. E foi assim. Hoje, ela cuida muito bem do meu neto Raul, é uma dedicada professora de História e que, pequeninha, comia até mesmo um chuchu cozido com gostinho de tênis Conga e sem fazer cara feia. A foto acima não me deixa mentir.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

foto Alberto Villas

 

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