AQUELE OUTRO MUNDO

Era um garoto que, como eu, amava passear pela cidade com os pais. Com o pai, a diversão era ir de bonde e parar na avenida principal, no ponto final, que todos chamavam de Abrigo do Bonde. Sair andando pelas sombras das árvores frondosas, chegar ao Café Pérola, onde ele tomava um cafezinho ralo com muito açúcar, numa xícara de porcelana com pires de alumínio. Enquanto o menino se lambuzava com um sorvex Kibon.

Com a mãe, era saborear uma banana split na lanchonete das Lojas Americanas, dar uma passadinha no Mundo Colegial para comprar uma sunga Big – aquela do macaco – que o capitão do time de futebol da rua exigia. Voltavam pra casa de táxi, dirigido por um chofer de camisa branca, paletó azul-marinho e boné.

O menino foi crescendo e, apaixonado por discos, livros e revistas, já ia sozinho ao centro da cidade, de lotação, que também parava na avenida principal de uma cidade que fazia jus ao nome e se chamava Belo Horizonte. Todos os caminhos levavam à avenida principal e era ali, perto da agência central do Correio – que ainda não era no plural – onde ficavam as Lojas Gomes, a melhor e mais sortida loja de discos da cidade.

Foi na vitrine das Lojas Gomes que o menino viu pela primeira vez a capa do disco do Chico, aquele com duas fotos, uma Chico sério, outra Chico sorrindo. Viu também o disco Domingo, do Caetano e da Gal, o Louvação, do Gil, e o Travessia, do Milton.

O menino passava horas dentro daquela loja vasculhando vinil por vinil. Ainda não havia reggae, rap ou funk por ali. Ele se distraia com os discos de música popular brasileira, dava uma passada na sala de música clássica, onde se ouvia baixinho o concerto de Brandemburgo, de Johann Sebastian Bach, até chegar bem no fundo onde ficava os discos de jazz. Pedia ao vendedor para colocar Louis Armstrong, apaixonado que era por ele.

O menino ficava ali fingindo que estava escolhendo um disco da Mahalia Jackson, do Dizzy Gillespie, do Charles Mingus ou do Thelonious Monk, só pra ficar ouvindo Armstrong cantando High Society.

O menino saia da Lojas Gomes nas nuvens, às vezes sem comprar nada porque o dinheiro era curto e seguia seu caminho, parando de banca em banca.

Enquanto as pessoas liam as primeiras páginas dos jornais dependuradas com pregadores de roupa, o menino observava as novidades. Se encantava com aquelas mulheres lindas na capa da Manchete, com uma abelha pousada numa flor na capa da Enciclopédia Bloch, com Ronnie Von na capa da Intervalo e Maria Thereza Goulart maravilhosa na capa da O Cruzeiro, enquanto Dina Sfat ficava escondida por um plástico opaco na capa da Fairplay. Sonhava em ter todos aqueles fascículos dos Gênios da Pintura, da Ciência Ilustrada, da Bíblia mais Bela do Mundo e da Medicina e Saúde. Queria conhecer tudo.

Por fim, a livraria. Foi numa bem antiga do centro da cidade que o menino descobriu as obras completas de Monteiro Lobato, que comprou O meu pé de Laranja Lima, que folheou Ulisses, de James Joyce, que se encantou com o Flicts, de Ziraldo, e descobriu o plano de voo de Saint Éxupery.

O menino foi crescendo, começou a ganhar dinheiro trabalhando num laboratório de defesa vegetal e, com o pouco dinheiro que ganhava, só comprava livros, discos e revistas porque não pagava aluguel, não ia ao supermercado, não tinha carnês para pagar.

A casa do menino foi ficando cheia e quase transbordando de tanto disco, de tanto livro, de tantas revistas. Mas ele não se desfazia de nada, daqueles livros de marxismo que comprou aos dezoito anos, dos Irmãos Karamazov, de Dostoievski que nunca leu, do Agonia e Êxtase, do Irving Stone, Eram os Deuses Astronautas, do Erich Von Däniken, O Homem e seus Símbolos, de Carl Jung, de nada.

Ele também não conseguiu se desfazer das revistas Realidade, Senhor, Rolling Stone, Escrita, José, Ficção, Inéditos, Circus, A Pomba, do Verbo Encantado, nem mesmo das revistinhas do Mickey, do Pato Donald, do Zé Carioca, do Bolinha, da Luluzinha, do Manda Chuva, dos Jetsons e dos Flintstones.

O menino ficou velho e hoje não tem onde cair morto. Vive rodeado dessas lembranças que cobrem doze paredes de sua casa, que exalam um leve cheiro de mofo e um som de Peter, Paul and Mary.

De uns tempos pra cá, caiu a ficha do velho. Tudo isso ao seu redor é apenas o princípio do prazer, porque prazer mesmo ele tem ultimamente, quando está sentado em seu computador baixando os discos Mal dos Trópicos, do Tiago Pethit, Matriz, da Pitty, Viver, do Marcelo Falcão, Transpyra, do Felipe Cordeiro, Desastre Solar, da Laura Lavieri e Bluesman, do Baco Exu do Blues.

Mas, o velho não passa um dia sequer sem levantar a bunda da cadeira e ir até a vitrola pra ouvir, ainda em vinil, um velho disco do baiano João Gilberto chamado Chega de Saudade.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

Um comentário em “AQUELE OUTRO MUNDO

  1. Excelente crônica. Me fez viajar no túnel do tempo. Eu com meus sessenta anos ainda escuto de quando e vez minha velha coleção de vinil também.

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