O PÃO NOSSO DE CADA DIA

foto ac espilotro

Todo dono de padaria era português, chamava-se Manuel, mesmo que não fosse Manuel, e andava sempre com um avental meio sujo de farinha, um casquete na cabeça e um lápis atrás da orelha. A padaria vendia pão e leite e geralmente quem entrava ali, desconhecia o plural.

– Um litro de leite e quatro pãozinho.

A padaria era simples e vendia dois tipos de pão, o de sal e o doce. Em Minas Gerais, lembro-me bem, as pessoas chegavam e pediam “eu quero um pão de sal”! Pão de sal era um pão enorme, meio quilo, que seu Manoel embrulhava num papel cinza, que era chamado de papel de pão.

No fim da vida, meu avô ficou meio pão duro e costumava cortar o papel de pão em quadradinhos pra fazer de papel higiênico, porque achava o Tico-Tico caro demais.

O pão doce era um luxo, não era o pão nosso de cada dia, acho que na minha casa só tinha pão doce em ocasiões especiais, quando vinha uma visita, uma tia mais cerimoniosa. Ele era delicioso, o pão doce. Vinha com açúcar cristal por cima e aquele miolo molinho. Tão gostoso, que o Carlos Sandroni fez uma canção pra ele e Adriana Calcanhoto gravou.

Não adianta mentir pra mim mesma

Ficar me enganando, tentando dizer

Que nunca na vida, nunca na vida eu gostei de pão doce

Porque por mais que eu queira esconder

A verdade é que eu adorava pão doce

Não podia passar sem pão doce

Bastava ver padaria, que logo eu ia, que logo eu ia

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No Natal, as padarias vendiam também o pão pra rabanada. Ele era diferente, cheio de furinhos e só servia para rabanada. Pelo menos era o que dizia a minha mãe, cercada de cinco filhos, todos querendo tirar uma lasquinha daquele pão especial que só era vendido no mês de dezembro.

Quando abro os olhos hoje, fico encantado com as padarias, que os paulistas aqui chamam de padoca. Vendem de tudo. Além do pão, vendem frios, queijos, manteiga, refrigerantes, coxinhas, empadinhas, macarons, refrigerantes, sucos, geleias, vinhos e até Moët & Chandon.

A gente para uns minutinhos na padaria e fica só observando os clientes apontando pra vitrine e a mocinha explicando.

– Esse é de azeitona

– Esse é de laranja

– Esse é de castanha.

– De frutas secas

– De linguiça

– De azeite

– De presunto com catupiry

– De aveia, de milho, de centeio, integral, sem glúten, sírio, italiano, australiano, linhaça, batata, ciabata, preto… é pão que não acaba mais.

Na padaria do seu Manuel, quem trabalhava era o seu Manuel, a mulher do seu Manuel e o filho de seu Manuel. Hoje, são dezenas de mocinhos e mocinhas uniformizadas, especialistas em pães, queijos, frios e geleias. Tem uma aqui perto de casa que contratou um sommelier que te ensina como harmonizar o vinho com os queijos e os pães.

Queijo? Foi bom ter falado em queijo. Se no meu tempo de criança só tinha o queijo Minas e o queijo prato, hoje são dezenas e dezenas.

Camembert, Brie, Gorgonzola, Mozzarella, de búfala, Gruyère, Edam, Gouda, Feta, Provolone, Roquefort, Cottage, Mascarpone, Ricota, Meia Cura… mas essa é uma outra história que conto depois.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 

2 comentários em “O PÃO NOSSO DE CADA DIA

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