A MORTE DE UM CANTOR

Lembro-me muito bem daquele 11 de maio de 1981, uma segunda-feira. Fazia pouco tempo que tinha voltado a viver no Brasil e trabalhava na editoria Internacional do jornal O Estado de S.Paulo. Minha função era quase de um foca, separar por assunto, os telex que iam pipocando naquele monstrengo. América do Sul, EUA, Oriente Médio, Malvinas, Europa, Ásia, acidentes, artes e espetáculos, correspondentes. De repente, no meio da tarde, a máquina de telex anunciou uma chegada de urgência. O telex vinha cheio de asteriscos no cabeçalho, que repetia freneticamente a palavra Urgente! “Parem as máquinas! disse eu, usando um jargão da época. “Morreu Bob Marley!” Um dos meus colegas de Internacional, já de cabelos brancos, tirou o olhar meio blasé da Remington e comentou: “Amanhã, ao ler o jornal, saberei quem é este senhor!” Eu, apaixonado pelo Exodus, pelo Babilonia by bus, pelo Kaya, achei que era brincadeira. E era verdade o que ouvira. Ontem, quando todos os canais de televisão entraram em plantão para anunciar a morte do cantor Gabriel Diniz, lembrei-me do dia da morte de Bob Marley. Em 1981, não havia Google, Youtube ou Spotify e era preciso mesmo aguardar o jornal do dia seguinte para, quem ainda não sabia, tomar conhecimento de saber quem era Bob Marley. Fiquei curioso. Entrei no Google, no Youtube e no Spotify e ouvi pela primeira vez a música Jenifer, aquela que diz “O nome dela é Jenifer/Eu encontrei ela no Tinder/Não é minha namorada/Mas poderia ser”.

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OS SEM-VERGONHA

Cinco meses após a posse do presidente de extrema-direita, acreditava-se que os seus eleitores estivessem mega envergonhados, depois de presenciar a média de uma trapalhada por dia, pelo menos uma grande burrada por semana. Mas não. Os eleitores parecem ter adotado a política do avestruz e, cinco meses depois, tiraram a cabeça do buraco, foram até o armário pegar a camisa amarela com cheiro de mofo e rumaram para uma manifestação que nem eles sabiam direito argumentar porque estavam ali. Sem querer querendo, todos foram para as ruas, defender o indefensável. Para fingir que não tem corrupção, se irritavam quando alguém questionava onde está o Queiroz. Para fingir que as milícias não existem, viraram a cara quando alguém perguntava quem mandou matar Marielle. As pessoas que foram ontem às ruas, saíram sem vergonha de defender uma reforma da Previdência que vai prejudicar a cada um deles, de defender cortes na educação, defender a falência dos Mais Médicos, a lei que vai colocar um revólver na mão de cada um e por ai vai. Ninguém ali estava incomodado se tinha ou não tinha Jesus na goiabeira, se menina deve vestir rosa e menino azul, se ministros caem como dominós, ninguém ali queria saber se o toma lá dá cá continua a todo vapor, se laranjas fizeram depósitos em 48 envelopes, se o ex-motorista de um remento do presidente pagou milhões em dinheiro vivo a um hospital, se o ministro da Justiça fala “conge”, se o ministro da Educação escreve errado ou se o ministro do Meio Ambiente está acabando com a Amazônia. Depois da manifestações, os avestruzes voltaram pro seu habitat e enfiaram novamente a cabeça no buraco. Sem vergonha de ser, não um avestruz, mas um burro.

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UM DISCO

Pablo Milanés, 76 anos, é a mais perfeita tradução da ilha de Cuba. Agora, reuniu em disco, 21 canções da sua melhor safra, de um concerto que deu em Habana, no ano passado. Com roupagem nova, estão clássicos eternos como De que callada manera, Yolanda, El breve espacio en que no está e Amo esta isla, claro. Um magnifico recuerdo do cantor e compositor cubano. Imperdível.

UM LIVRO

Tive a sorte, o desejo e a felicidade de ler todos os livros do Chico, desde Fazenda Modelo, Gota D’Água e Chapeuzinho Amarelo. Não quero colocar em ordem de preferência, dizer que adorei Budapeste e que ó estranhei Estorvo. Mas, na semana que nosso herói faturou o Camões, o maior prêmio literário de língua portuguesa, recomendo aqui O Irmão Alemão. Talvez porque tenho perguntado as pessoas e sinto que muitas ainda não leram. Não sei bem porque. É uma história fascinante, contada de uma maneira fascinante. Tenho uma história particular para contar. Quando trabalhava no Fantástico, lembro-me bem quando o repórter Geneton Moraes Neto saiu para entrevistar o Chico. No final da entrevista, ele perguntou pelo tal irmão alemão dele. A história era um tabu, na época, um segredo guardado a sete chaves. Chico ficou extremamente irritado com o Geneton e a entrevista acabou ali. Quando soube que Chico estava escrevendo um livro sobre o tal irmão alemão dele, lembrei-me imediatamente da cena do Geneton, visivelmente desapontado diante do compositor e escritor. Corra, compre, peça emprestado, mas não deixe de ler O Irmão Alemão, de Chico Buarque, editado pela Companhia das Letras. Em todas as boas casas do ramo que ainda existem.

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