O NÚMERO 1

Hoje está fazendo exatamente cinquenta anos que o primeiro número do Pasquim chegou às bancas de todo o país. Não sei se de todo o Brasil, porque morava em Belo Horizonte e perdi os primeiros números, apesar de ser um rato de banca, desde pequenininho. Comecei a comprar, a ler, a acompanhar a turma do Pasquim lá por volta do número 9. Eu me lembro bem, estudava no Colégio Arnaldo e fazia, toda semana, uma vaquinha pra comprar o jornal. Eu era o encarregado de fazer a vaquinha, recolher o dinheiro, comprar o jornal e levar para o colégio, onde ele passava de mão em mão. Cinquenta anos depois, cá estou eu falando do jornal que fez a minha cabeça, que me fez sonhar com um jornalismo independente, sem medo, sem pisar em ovos. Que bom que vivo assim hoje, longe das garras dos patrões, aqueles que orientam, mandando sempre você virar à direita. Fui ver o que tinha nas bandas do lado esquerdo e descobri a encruzilhada, caminhos que vão para todos os lados. Graças ao Pasquim. Merci beaucoup Jaguar, Millôr, Francis, Ivan, Ziraldo, Henfil, Luis Carlos, Tarso, Sérgio Miguel, Sergio Augusto e todo o pessoal da pesada.

ALÔ ALÔ

Com o tempo, tudo desaparece. Raramente você vê um Simca Chambord desfilando pelas ruas, dificilmente você vê uma mãe dando Calcigenol Irradiado para o filho, ou alguém mascando um Ping-Pong, escovando os dentes com Kollynos. As coisas vão sumindo, sumindo, até a gente dar falta deles. Mas, de repente, desde a semana passada, começaram a retirar todos os orelhões de São Paulo, numa operação impressionante. Onde havia um, hoje existe apenas um pequeno poste de ferro sinalizando que, outrora, ali havia um orelhão. O design é brasileiro e os primeiros apareceram nos anos 1970. Virou coqueluche. Todo mundo tinha na carteira uma ficha de telefone. Depois vieram os cartões, que muitos até colecionavam. Acho que todo mundo já falou num orelhão. Talvez essa novíssima geração, não. Nos últimos tempos, ninguém mais usava. Eles serviam apenas para painel publicitário de putas, com cartõezinhos colados por toda parte. Sugiro que quem ainda conseguir ver um, fotografe, para, no futuro, lembrar daquele objeto que ganhou o nome espontaneamente de orelhão, uma ideia genial.

A HORA DO ESPANTO

Amigos meus estão assustadíssimos nos últimos tempos. Que amigos? Aqueles que não suportavam ouvir a voz de um Marco Antônio Villa, o comentário blasé de Miriam Leitão, a voz pastosa de um Gerson Camarotti, o olhar antipático de uma Vera Magalhães, a empáfia de Reinado Azevedo, a obsessão de um Augusto Nunes. Aqueles que pulavam a página 2 de O Globo pra não ver a carinha de um Merval Pereira estampada ali, em meio a tantos comentários reacionários. Nem mesmo a beleza de uma Andrea Sadi, meus amigos queriam passar os olhos. Nem aquele off cantado de Delis Ortiz eles suportavam mais. Alguns comentaristas continuam fiéis ao seu pensamento retrógado e vão com eles pro túmulo, da vida ou do Jornalismo. Outros mudaram e é por isso que os meus amigos estão assustadíssimos. Um dia, um desses amigos, o mais falante, perguntou: “O que está acontecendo? Estou achando o Villa enfático e o Reinaldo simpático”. E mesmo amigo arrematou: “É espantoso! Sabe que estou achando até mesmo que o Mourão seria melhor do que esse jumento…”

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O PONTO VERMELHO E OUTRAS ESTÓRIAS

O culpado

Claro que não tem só um culpado pelo que estamos vivendo. São muitos que se juntaram a ele e caíram todos, uniformemente, do cavalo. O maior é, sem dúvida, o playboy mineiro que se viu, um dia, diante da faca e do queijo da Canastra. E se cortou. Chegou a receber um telefonema de cumprimentos pela vitória, minutos antes a realidade de uma ficha. Colocou a mão na cintura e foi conferir na televisão, a vitória, aquela vitória que não veio. Não era bem aquilo que lhe informaram, aquilo que estava esperando. Ao lado do incrível Huck, ele assistiu seu time perder, desabar para a segunda divisão, aos 45 minutos do segundo tempo. Perdeu por pouco, mas perdeu feio, sem a necessidade de VAR. O mineirinho ficou, então, tão transtornado que pensou com os botões do seu pijama: Isso não vai ficar assim. O vice, aquele que todos julgavam ser o Todo Feio, disse que não ia matar a presidenta vitoriosa, mas deixá-la sangrar, despedaçar. E as articulações começaram a ser feitas. O Brasil seguiu em frente, sem ver as curvas da estrada de Santos e caiu numa ribanceira, num buraco fundo, difícil de sair. Hoje, ele vive numa espécie de inferno particular, em silêncio, como um autêntico mineiro. Se alimenta todos os dias de derrotas e mágoas. Trinca os dentes e pensa com os botões do seu terno Armani: que cagada!

O ponto vermelho

Tem dias que a gente se sente um pequeno ponto vermelho em meio a trevas por todos os lados. Em cima, embaixo, do lado esquerdo do peito. Não vê saída, vê, ouve que tudo não vai dar em nada, senta, levanta. Seis meses debaixo da lona de um governo de extrema-direita, que carrega nas costas uma ideologia burra e antiquada. Faz greve, uns vão, outros não vão. Liga no JN, desliga, promete nunca mais ver e segue. Tem dias que a gente se sente como um porquinho-da-índia procurando a casinha premiada como se estivéssemos numa quermesse junina em Conceição do Mato Dentro. Coloca na vitrola quase que a discografia completa de Chico. O que será que será, Vai Passar, Chame o Ladrão!, Cálice, e dá stop em Vai Passar. Sai de Chico, entra em Gil. Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá.

A velhinha de Taubaté

Quem a julgava morta, ledo engano. Ela está viva, guarda no armário uma camisa amarela da seleção e se excita toda quando entra nas redes sociais e lê Eu Vou. Ela foi em todas. No mesmo armário, numa caixa de sapatos, guarda uma selfie com o Frota e outro com a Joice. Acredita piamente no Jornal Nacional, em todas as fake news que recebeu no ano passado, e que o nosso presidente é mesmo um mito. Ri das suas trapalhadas, dos seus erros de português, das suas patadas, das suas grosserias. Acha que ele é povo. Mesmo quando diz na televisão que não entende nada disso aí, ela concorda com ele e diz “ninguém sabe tudo, eu, por exemplo, também não sei o que é déficit público”. A velhinha de Taubaté está se lixando pra essa discussão sobre usar ou não usar cadeirinha. O neto mais novo dela, que também é chamado de garoto, tem 42 anos. A velhinha de Taubaté não lê mais jornal de papel, prefere se esparramar no sofá e se deleitar com os zap zap que chegam a todo momento. Não sabe, não tem a menor noção do que é The Intercept Brasil. Ela acredita até mesmo que sua aposentadoria vai ser justa e que a revista Veja virou comunista.

O manifestante

Já segurou todo tipo de placa. Fora Dilma e leve o PT junto. Vai pra Cuba. Vai pra Venezuela. Somos milhões de Cunha. Somos todos Moro. Intervenção Militar já! É aquele cara que vestiu uma camisa amarela e saiu por aí. Postou no Face aqueles famosos Eu Vou! e trocou suas fotos no avatar várias vezes. Já foi Aécio, já foi Cunha, já foi Moro, já foi Bozo. O segurador de placas tinha a revista Veja como Bíblia, vivia citando trechos de artigos fake e postando capas de Lula desmanchando, derretendo. Era assinante e agora está esperando apenas a assinatura acabar. Costuma nem tirar mais a revista do plástico e quando o porteiro do seu prédio diz que a sua Vejachegou, ele responde ‘depois eu pego’. O segurador de placas gastou muita caneta Pilot e muitas folhas de cartolina para escrever seus protestos. Suas fotos em manifestações ao lado de Frota, de Joice e de Kim foram compartilhadas entre amigos, o que o deixou feliz da vida. O carregador de placas está esperando uma nova palavra de ordem, vinda quiçá da Globo, seja qual for. Esperando, esperando, esperando, como se fosse um Pedro Pedreiro dos novos tempos.

Os desvalidos

O nome da cidade não importa. Pode ser Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, Sombrio, em Santa Catarina, Combinado, em Tocantins, Ressaquinha, em Minas Gerais ou Nova Iorque, no Maranhão. Triste é ver o posto de saúde sem um cubano de jaleco branco, sentado na sua surrada escrivaninha de madeira, conversando com os seus pacientes, o povo do lugar. Agora resta apenas uma mesa vazia, alguns frascos de vacinas vencidas num canto, um rolo de gaze quase no fim, um vidro de álcool misturado com água, um cheiro de acetona no ar. Onde havia conversa, há silêncio, onde havia vida, há risco. Um médico contou que ganhou uma galinha viva como recompensa por ser sido salvo de uma picada de escorpião, na porta do Bar e Lanches do Pereira. Outro ganhou seis ovos caipiras e um terceiro, um bode pronto pro abate. Depois que os cubanos foram embora, o posto de saúde existe apenas no nome. Alguns desavisados ainda chegam aqui para ser consultados e voltam pra casa sem perder a esperança de ver, um dia, a estrela voltar a brilhar no céu.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br