O PORTA-VOZ

O porta-voz tem cara de porta. Vendo assim, de longe, na televisão, ele parece ter uns dois metros de altura por cinquenta centímetros de largura. Dizem que é militar, tem cara, mas quem vê cara não vê farda. Fala mal, o que não é comum entre porta-vozes. Geralmente ele está explicando pra te confundir. Anda corretamente, bem e reto,  mas vive escorregando nas palavras e atos. Faz sempre o que seu mestre manda. Parece não entender muito do riscado, do bordado, e não tem o menor jogo de cintura para um rebolado. Não conheço seus bastidores, se ri e toma café no planalto central do país com os jornalistas de plantão, como outros. Usa cabelo tipo militar talvez porque seja mesmo militar. Antes dele surgir na telinha, sempre aparece um púlpito vazio, onde ele vai se escorar, colocar um pedaço de papel com as notícias ruins ou consertar uma cagada do seu superior. O porta-voz não passa simpatia nem antipatia. É meio sem sal, sem açúcar, sem afeto. O porta-voz parece um boneco de pano, fino e cumprido, quiçá um robô dos anos 1960 que a gente dava corda e ele saia andando, dava uns passos e parava. Fica a impressão de que ele é meio idiota como o patrão, só que menos falastrão. O porta-voz fala o que sabe e com ele não tem improviso. O porta-voz nunca riu, nem mesmo por obrigação, nem mesmo das piadas sem graça do capitão. Ninguém sabe se ele é casado ou não, se ele já foi à guerra ou não, se já deu tiro ou não. O porta-voz pode até dar duro, mas não deve ser fácil ser porta-voz de um burro.

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A BESTA HUMANA

A besta humana não tem limites, nunca teve. A besta humana, de repente, ganhou poder e virou mais besta humana ainda. Vomita palavras, frases picadas, o que lhe vem na cabeça oca, tão oca que nunca soube da beleza do cantar de João Gilberto. Nunca leu Fazenda Modelo, Estorvo, Benjamim, Leite Derramado, O Irmão Alemão nem Budapeste. Vibrou, nos anos 1970, quando a censura tirou das rádios, Apesar de Você. A besta humana é incansável, já elogiou um falso brilhante em rede nacional, ao vivo e em cores. Já defendeu a fala de quem viu Jesus na goiabeira, quer ver crianças trabalhando no corte da mandioca, quer ver motorista sem carteira andando no acostamento e dando tiauzinho pra quem anda na linha. Quer ver a escola sem partido, o país sim, partido. Vê diferenças sim entre o homem e a mulher, acredita que ela deva ganhar menos porque está de barriga cheia. A besta humana não vê gente com fome nas ruas, nem mesmo a fome e o frio daqueles que dormem enrolados em cobertores de lã que não é lá, quase capacho. A besta humana não gosta de aposentado, de gays, de feministas, militantes, ativistas, de comunistas, de esquerdistas, está mais para paraquedistas. A besta humana não gosta do meio ambiente, nunca ouviu Gil, nunca leu Eça, nem aquela. Até quando viveremos ou suportaremos a besta humana é o que perguntamos todos os dias, por volta de seis horas da manhã.

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CEGUEIRA

Ele não enxerga, enxerga pouco ou não quer enxergar. Enxerga apenas de um olho, quando quer, e fica calado. Engole seco mas finge saliva. O outro olho está permanentemente fechado. Não sequer percebe o lado tosco, bruto e rude do presidente. Seu jeito fascista de ser, seu jeito cavalo de agir, dando coices quando importunado. Não gosta de ser contrariado, de ser colocado na parede. Age como age aquele superior passando em revista jovens de 18 anos, imberbes ainda, que acabaram de se apresentar para servir o Exército. Brutalidade e humilhação. O presidente é burro e fala picado porque não consegue formular uma frase inteira e de maneira fluente. O cego não quer ver nem ouvir o que a besta fala, se faz de surdo também. Sobre o desmonte do país, finge não estar por dentro. Gosta quando ele fala de armas e acha que ele está certo, e não vê problema algum da família ter viajado num avião da FAB para ir a um casamento. Não vê nada demais na ministra falando do uso de calcinhas na Ilha de Marajó, acha bacana o ministro da Educação dançando na chuva seca, acha chique a capinha cor de rosa do celular da Joyce, acha viável o implante de cabelo do chefe da Casa Civil, gosta da voz do ministro da Justiça e aplaude o idiota no campo de futebol. O cego é aquele que não lê jornal, prefere o Antagonista. Ama os WhatsApp que ainda fala do Haddad, ainda manda pessoas pra Cuba ou pra Venezuela, pergunta porque você não leva o bandido pra casa e quando o DataFolha faz a pergunta, sempre responde bom ou ótimo.

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FAKE NEWS

Acabo de ler no Libération que tossir sem parar, quando você sente pontadas no coração, não evita ataque cardíaco. Sim, de repente, no primeiro sintoma – ou não – de um enfarte, os franceses começaram a tossir sem parar. A reportagem do Libération, no entanto, alerta que se trata de uma fake news.

Esqueça! Quando sentir aquela primeira pontadinha no peito, não adianta nada sair tossindo por aí.

Nos últimos tempos, não está nada fácil ler jornais e revistas e separar o que é verdade do que é mentira. A gente desconfia de tudo, inclusive da capa da Veja com essa história dos terroristas brazucas de um grupo chamado Sociedade Secreta Silvestre.

Nas redes sociais, a gente fica com um pé atrás até mesmo com fotos. É só bater os olhos numa que vem logo aquela dúvida: não seria montagem?

Hoje fiquei sabendo:

É falso que abrir perfume com o ar-condicionado ligado provoca incêndio dentro do carro.

É falso que vídeo mostra deputado que chamou Moro de ladrão colocando dinheiro na cueca.

É falso que Padre Marcelo foi empurrado após atacar mulheres.

É falso que haja mais de 400 casos de doença causada pelo consumo de tucunaré no Brasil.

Fake news sempre existiram, mas não com esse nome, aqui no Brasil. Quem será que espalhou, um dia, que manga com leite faz mal? E olha que não tinha rede social pra gente compartilhar e multiplicar por vinte mil essa história.

De boca em boca, silenciosamente, alguém colocou na cabeça do brasileiro que manga com leite faz mal. Faz mal, não. Mata! Ninguém nesse pedação de terra tinha coragem de arrancar a fruta do pé e misturar com o leitinho da vaca que pastava sossegada no campo. A não ser um amigo meu que, rebeldezinho que era, aos seis anos de idade fez um coquetel de leite com manga, deixando todos na casa desesperados.

De meia em meia hora, o menino dizia: “Já passou uma hora eu ainda não morri, já passou uma hora e meia e eu não morri, já passaram duas horas e eu ainda não morri”. E a família, enlouquecida, esperando ele bater as botinhas a qualquer momento.

Esse meu amigo nunca morreu e já passou dos setenta.

Mas não era só de manga com leite que viviam as fake news do passado. Minha mãe, por exemplo, colocou na cabeça dos cinco filhos que sair do banho e pisar fora do tapete, no chão frio, entortava a boca. Quando ela via um de nós correndo do banheiro pro quarto, depois do banho, descalço, gritava:

– Você vai ficar que nem seu Moacir!

Seu Moacir era um homem esbelto, dois metros de altura, que trabalhava no Serviço de Meteorologia com o meu pai. E tinha boca torta. Ele era muito engraçado, mas nunca tivemos coragem de perguntar por que tinha a boca torta. Minha mãe jurava que era porque pisou no chão frio ao sair do banho, na sua casa lá no bairro da Ressaca.

E quando a gente brincava de ficar vesgo? Adorávamos juntar os dois olhos, quando a mãe da gente aparecia e dizia:

– Não faz isso porque, se bater um vento, você fica caolho pro resto da vida!

Tudo fake news!

E não eram poucas. Eu acreditava que as pessoas têm aquelas manchas roxas no rosto porque a mãe tomou vinho durante a gravidez. Fake news!

Quantos dentes de leite eu não coloquei debaixo do travesseiro, quantos dentes de leite eu não joguei no telhado, esperando a fadinha trazer uma grana boa pra mim?

Quantas noites de Natal eu não fiquei segurando os olhos com os dedos pra eles não fecharem, esperando Papai Noel chegar?

Tudo fake news!

Algumas fake news acabam caindo por terra, desmoralizadas. Mas outras não, elas sobrevivem anos e anos. Ontem, por exemplo, ouvi de um motorista de Uber, que jurou de pés juntos, que o filho do Lula é dono da Friboi.

[Crônica da semana publica no site da revista Carta Capital]

cartacaplital.com.br