TRINTA E DOIS POR CENTO

Era pouco mais de oito horas da manhã de domingo, eu caminhava rumo ao supermercado Pão de Açúcar, quando, de repente, um vulto surgiu por detrás de três pequenos pés de bananeira que ficam na calçada da Swift. A Rua Tito, na Lapa, em São Paulo, estava vazia e silenciosa e o meu susto foi inevitável. Era um senhor grisalho, paramentado de cooper dos pés à cabeça. Ele percebeu o meu espanto e comentou: “A gente leva susto à toa”. Comentei baixinho, quase que somente para os meus botões: “É mesmo”. Ele apressou os passos e foi falando alto, quase ecoando naquele passeio irregular da Rua Tito: “Isso vai acabar! Dentro de um ano, quando o presidente Bolsonaro colocar uma arma na mão de cada um, isso vai acabar. Não podemos desistir, precisamos acreditar, ter confiança!” E o silêncio foi voltando aos poucos ao bairro da Lapa, à medida que ele apressava os passos do seu tênis Nike Air e ia desaparecendo a olhos vistos, na minha frente. Não costumo silenciar, mas silenciei. Não ia comprar briga ali, num domingo de folga que estava apenas começando. Diminui o passo e fiquei imaginando. Aquele senhor era uma porcentagem. Ele faz parte dos 32% ouvidos pelo Ibope, que consideram o governo Bolsonaro bom ou ótimo. Vive desinformado, ou melhor, bombardeado por informações do seu grupo no WhatsApp. Todas as notícias que não gosta, considera fake news. Assiste ao Jornal Nacional toda noite e não ficou mais sabendo dos vazamentos da Lava Jato, sequer que Glenn Greenwald foi a Brasília e, durante uma tarde inteira, deu uma aula de Jornalismo aos parlamentares. Aquele homem na minha frente, agora distante, acredita mesmo que uma arma na mão vale mais do que dois passarinhos voando. E não é só. Crê que o ministério é composto de notáveis, já leu pelo menos um livro de Olavo de Carvalho, continua acreditando no kit gay e na mamadeira de piroca. Não soube que Damares viu Jesus na goiabeira, nem mesmo do ministro da Educação dançando na chuva seca. Aquele homem, desaparecendo lá longe, não vai mudar nunca de opinião, o que é um perigo. Certamente prefere uma ditadura militar a um governo civil. Acredita que Lula roubou e, mesmo se não roubou, merece estar preso em Curitiba. Quando a noite chegar, seguramente vai fazer a sua segunda caminhada do domingo. Olhando sempre pra baixo porque não quer olhar pra cima e ver nenhuma estrela brilhar. Vai caminhar em linha reta, acreditando em tudo que o seu mestre mandar.

AV

Um comentário em “TRINTA E DOIS POR CENTO

  1. Tá feia a coisa, Villas. Fui ao Maracanã ver a Argentina e fui ameaçado no metrô por um bolsomínion raivoso que discutia com os Argentinos. Eles são violentos. Outro dia, já tem um tempo, em Niterói um senhor também saiu gritando pela rua que isso ia acabar quando Bolsonaro fosse eleito. Um carro estava manobrando e quase tocou nele que estava no meio da rua. Ele saiu gritando “deve ser eleitor do Lula”!! É assim. A que ponto chegamos??

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