A ARTE DE NÃO ENTREGAR OS PONTOS

Há muitos anos, a gente passa o tempo todo mostrando para as pessoas, quem está do lado dos pobres, quem se interessa pelos menos favorecidos, pelos excluídos. A gente anda na rua, olha nos olhos de cada um e fica imaginando a vida que guardam dentro de si. No ônibus, muitos cochilam, segurando uma sacolinha do Boticário – presente da patroa – e a gente sabe que ali dentro tem uma marmita preparada às quatro horas da madrugada. Vem na cabeça aquela velha canção do Adoniran: “Que é que você troxe/Na marmita, Dito?/Truxe ovo frito/Truxe ovo frito/E você, Beleza,/o que é que você troxe?/Arroz com feijão/E um torresmo à milanesa/Da minha Tereza”. Então a gente vira o disco: “A gente andou/A gente queimou/Muita coisa por aí/Ficamos até mesmo todos juntos/Reunidos numa pessoa só/Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?” Vai de Arnaldo Dias Baptista, tomando vento frio no rosto, já que o passageiro da frente o deixou semi-aberto. Eu vivo pensando em quem as pessoas votaram. Ontem vimos mais um show de horrores na televisão. Quem votou nessa gente? Quem votou no Frota, na Joyce, no Kim, no Abou, no Aécio, no capitão, no coronel, no delegado? Tem horas que a gente desanima, tem vontade de entregar os pontos, solenemente. Mas não. Desço na Avenida Angélica rumo ao trabalho, com a consciência tranquila. Eu votei no Ivan, não o terrível, o Valente.

AV

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