SAUDADE DO BRASIL

Sete dias após a morte de João Gilberto, chegou o final de semana, empilhei todos os seus discos e fui ouvindo, um a um. São preciosidades que não tem preço. Não tem um melhor que o outro. Me fixei principalmente em dois, ambos com capas brancas. Um que começa com Águas de Março e outro que começa com Aquarela do Brasil, um disco chamado Brasil. Um país que praticamente não existe mais, apesar de estar tudo ai, o coqueiro que dá coco, o mulato inzoneiro. Um fruto maduro sequer, apesar de ouvir na televisão que o agro é pop, o agro é tudo, e que tá na Globo. Essa entressafra não tem sol, não tem chuva, arado arando, não tem tardinha que cai, nem barquinho que vai. Somos uma espécie de Síria, contando os mortos de cada dia, com túneis e mais túneis sem luz no fim. Ouvir João Gilberto durante dois dias foi bom. Mas foi sofrido. Sei que a bossa nova é foda, mas passou, precisamos tirar nossa nacionalidade portuguesa, passaporte na mão, descobrir novamente esse país, terra em transe, terra arrasada, terra nostra. Alguns discos são de vinil, outros compact, um no Spotify. O som é puro em todos eles porque João era meticuloso. Hoje, as coisas andam de qualquer jeito. A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, João? Eu, você, girando na vitrola sem parar e o mundo dissonante que nós dois tentamos inventar, tentamos inventar,tentamos inventar, tentamos. (AV) Agora ouça:

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