UM PUNHADO DE BALAS

19 horas e vinte minutos. Rua Martinico Prado, Higienópolis, São Paulo. Ontem, saia do trabalho em passos apertados, enfrentando o vento frio que vinha em sentido contrário. Poucas pessoas na rua, apenas  seguranças de restaurantes italianos, um morador de rua já se ajeitando na esquina de Sabará, onde mora, e carros passando. De repente, vem vindo ladeira abaixo, uma mocinha que não aparentava trinta anos, a Katia. Ela foi se aproximando de mim e falou:

– Boa noite!

– Desculpe, eu tenho vergonha, estou há quatro meses desempregada e agora estou fazendo esses saquinhos de doces pra vender na rua.

Ela abriu uma sacola bonita de pano e tirou lá de dentro um saquinho com algumas balas, dois pirulitos e um pacotinho de drágeas de eucalipto.

– É uma questão de sobrevivência, estou vendendo a 5 reais. Você pode me ajudar?

Perguntei a ela:

– Você tem uma profissão?

– Sim, sou publicitária e fui demitida por causa da crise.

Eu disse que ela jornalista e ela completou: “Cara, o que aconteceu com nossa profissão?”

Sorte que eu tinha o dinheiro no bolso e dei a ela.

Ela abriu um sorriso enorme, agradeceu muito e seguiu o seu caminho.

Enfiei o pacotinho na mochila e continuei caminhando. Não sei se emocionado, se triste, se profundamente triste ou alegre. O que ela vai comprar com aqueles 5 reais?

Mais uma vez, pensei, que país de merda esse em que vivemos.

AV

 

 

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