ESQUECERAM DE MIM

Quando um brasileiro leva um escorregão nas montanhas de Katmandu, os repórteres de telejornais logo encontram alguém da família que mora no Brasil e colocam no ar aquelas reportagens da mãe, da tia, da avó chorosa e apreensiva vendo a imagem do jovem acidentado na televisão Logo logo ficam sabendo onde ele estudou, de que gosta, o que come, como vive. Mostra o quarto dele, os seus livros preferidos e por aí vai. Pergunto: E o militar brasileiro, da comitiva de Bolsonaro, preso na Espanha com 39 quilos de cocaína? Ninguém foi atrás da família dele aqui, dos amigos, dos vizinhos, da escola onde estudou… Por quê? O assunto é menos interessante que um brasileiro que escorregou em Katmandu?

AV

FAZENDO DE PALHAÇO

Não encontram o Amarildo, não convocam o Queiroz, não sabem quem matou Marielle, não prendem o Aécio, não soltam o Lula, não fazem o que deveria ser feito. Mas colocam na cadeia, supostos bandidos que teriam supostamente rackeado o suposto celular do suposto ministro. E tudo é tratado pela imprensa como uma coisa da maior seriedade. Ora, o jornalista Glenn Greenwald já havia anunciado, há semanas, que iriam prender supostos supostos. Não revelam o nome, mas apenas que um deles seria supostamente um DJ. Percebem que estão nos fazendo de palhaço? Será que prenderam o MC Fudeu?

VAI PRO MARANHÃO!

Fico deveras impressionado com a burrice de alguns seguidores do Messias. Vamos lá. Um deles, autoproclamado TerraFrancisco, postou no Twitter o seguinte: “Vestindo a bandeira de Cuba @alcione_marrom vc só defende o seu interesse, já deletei todas as suas músicas”. O que mais me impressiona é que, em poucos minutos, 2.126 pessoas já tinham cravado o coraçãozinho lá, tipo “amei!” O que me impressiona. O fato de o tal TerraFrancisco sequer ter dado um Google “bandeira de Cuba” para checar se aquela bandeira – do Maranhão – com uma estrela branca, era mesmo de Cuba. Das 2.126 pessoas, a maioria quase que absoluta também não checou e amou. Um outro internauta, o Leo Calil – e uma bandeirinha do Brasil na frente – escreveu o seguinte, também no Twitter: A tal de Alcione, com uma camisa com a bandeira de Cuba, bradar contra Bolsonaro, em defesa do Nordeste. Dúvidas: 1) Ela voltou a morar no Maranhão, terra dela? 2) Alguém já viu ela promover uma simples campanha para abrir um poço artesiano em favor de alguma família nordestina? 711 coraçõezinhos em cinco minutos. Leo Calil, que não faço a menor ideia de quem seja, também não deu um Google pra conferir. Viu estrela, é Cuba! Desculpe a sinceridade mas você me fez lembrar aquele trecho de um vídeo do Caetano que circula há anos nas redes sociais. Confira!

 

O ELEITOR TÍPICO

O eleitor típico é aquele que dizia, em outubro passado, “qualquer um, menos o PT”. O eleitor típico é aquele que votou em qualquer um. E hoje, mesmo sem dar uma avestruz, acha que tudo vai bem como dois dois e dois são cinco. Ele defende o porte de arma para proteger os seus bens, mesmo sem saber dar um tiro, mesmo sem ter bens. Ele torce para ser entrevistado pelo Datafolha pra cravar “bom ou ótimo”. Não se interessa muito pelo desmonte do país, acredita piamente no Messias, gosta do jeitão dele, da maneira popular como diz “paraíba”, como diz que tem governador “sacaneando” ele. O eleitor típico não está nem aí pra liberação de agrotóxicos, pro fim da Ancine, pros 48 envelopes com dois mil cruzeiros em cada um, pra quem vai ser o embaixador do Brasil nos States, onde está o Queiroz ou quem matou Marielle.  Não se importa se temos uma doida varrida num ministério ou um posto Ipiranga em outro. Se o ministro do Meio Ambiente quer cortar árvores ou se o ministro da Educação tem um português ruim. Ele ama de paixão o ex-juiz, é capaz de gastar todo o seu fôlego para encher com o seu ar o boneco inflável do agora ministro. Acredita em hackers e na organização criminosa que roubou os diálogos da Lava Jato. Está se lixando pro Intercept e nem cita Glenn Greenwald nos papos de botequim porque não sabe falar direito o nome do jornalista americano. O eleitor típico não vê problema no PIB negativo e nem se lembra que o Pib maior de Dilma era chamado de Pibinho. Ele acha que bandido bom é bandido morto e, mesmo sem saber direito onde fica a Venezuela e Cuba no mapa, ele gosta de mandar algumas pessoas pra lá, quando os parcos argumentos acabam. O eleitor típico ama fazer arminha com as mãos e agora chama a Veja, a Globo e a Folha de comunista. Ele sequer se deu o trabalho de olhar no Aurélio o significado de “viés” ou “nepotismo” e segue em frente, dando suas opiniões. Ele concorda com o o presidente eleito quando ele diz que o Brasil precisa produzir “filmes de heróis” e acha mesmo que aqui não tem faminto porque não tem esquelético. É a favor da reforma da Previdência e qualquer outra reforma que venha a ser proposta pelo político preocupado com o implante de cabelos. O eleitor típico  é isso e muito mais. Vou continuar, outro dia.

AV

 

EU NÃO FUI

Vivíamos uma confusão urbana, suburbana e rural naquele verão de 1969, quando começaram a chegar as primeiras fotografias, radiofotos rajadas mostrando kombis floridas, impalas conversíveis, camionetes estropiadas e gente a pé.

Com seus jeans desbotados, camisetas puídas, all stars maltrapilhos, jujus, balangandãs coloridos pelo corpo e sonhos na cabeça, o destino era uma fazenda perto de White Lake, na cidade de Bethel, no estado de Nova York, nos Estados Unidos. Ali, vacas leiteiras ruminavam fenos em 600 acres e debaixo de muito sol. A meteorologia prometia chuva naquele fim de semana, naqueles três dias de paz e música.

Um único anúncio no New York Times fez com as pessoas corressem às lojas de discos e comprassem, por um punhado de dólares, o direito de passar ali trinta e seis horas ouvindo Joe Cocker cantando With a Little Help From MyFriends, Janis Joplin, Jefferson Airplane, Grateful Dead, The Who, Creedence Clearwater Revival, Santana, Crosby, Stills, Nash & Young.

O estado de calamidade pública foi decretado quando mais de 500 mil pessoas já estavam ali reunidas, envoltas em cobertores e muita lama, banhos de rios, algumas nuas, como se fosse uma grande balbúrdia

Com os cabelos desgrenhados, os corpos e as mentes brilhantes, os hippies já tinham se espalhado pelo mundo, falando como quê de língua de fogo para que todos entendessem como é viver como os passarinhos, livres, leves e soltos.

Eu já usava minhas calças vermelhas, meu casaco de general cheio de anéis. Já sonhava em ir descendo por todas as ruas, tomar aquele velho navio, eu não precisava de muito dinheiro, graças a Deus.

Eu não gostava do Alice Cooper e perguntava onde estava o meu rock and roll. Perdidamente apaixonado, ainda ouvia Márcio Greyck cantando Minha Menina.

E veio a chuva e vieram os relâmpagos, os trovões, quase tufões, e veio a lama, era a lama, era a lama. Depois chegaram as fotografias em branco e preto na Rolling Stone e coloridas na Life. E eu gastei o pouco dinheiro que tinha comprando essas revistas que guardo até hoje.

Um dia, voei para Amsterdã e, na Praça Dan, vi os últimos hippies curtindo os seus baratos ao som de Give Peace a Chance e All is Need is Love. Um dia cheguei a Copenhague e fui passar o dia fotografando Christiania, onde ainda havia um restinho de sonho, aquele que nunca acabou.

Hoje, eu sei que o futuro esperado que eu não dei, sei que é impossível levar um barco sem temporais e suportar a vida como um momento além do cais. Sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer, que eu não acredito mais em você.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br