AMNÉSIA

“O Waze é um nome feio/Mas é o melhor meio/De se chegar.” Gilberto Gil

A minha mãe sabia o número do telefone de todo mundo. De suas irmãs, de uma tia torta, dos meus avós, dos vizinhos, o telefone da repartição do meu pai, do Colégio Marista, do Colégio Sion, do Armazém Colombo, da Farmácia Nossa Senhora do Carmo, do cara que consertava a máquina de lavar roupas Bendix.

– Qual é o telefone de tia Lili?

– 2-4767

– Qual é o telefone da Dona Celuta costureira?

– 2-6791

– E do meu avô?

– 2-3398

Está certo que os números eram somente cinco, mas ela respondia na lata, como se estive com um catálogo telefônico nas mãos.

Ninguém dizia que minha mãe tinha uma memória de elefante, mas tinha. Sabia o número de seu Alceu taxista, de seu Valdivino alfaiate, de dona Olímpia que fazia balas delícia, do doutor Aldo, nosso médico, do Depósito de Águas São Lourenço e de Dona Elvira, que fazia salgadinhos para as festas. Era só perguntar que ela dizia.

Hoje, se tirar o celular das mãos das pessoas, ninguém mais sabe o telefone de ninguém. Já fui vítima de roubo de iPhone e fiquei num mato sem cachorro. Não sabia o número do telefone da minha casa, da minha mulher, de nenhum dos quatro filhos.

Lembrei da minha mãe que sabia o telefone da Rádio Patrulha, do Corpo de Bombeiros e da Ambulância, que chamávamos de Assistência. Minha mãe era incrível.

Hoje, deixamos a memória de lado. Não é preciso saber mais número algum, nem mesmo a tabuada. Outro dia eu dei vinte mil réis pra pagar três e trezentos e a caixa do supermercado teimou que tinha de voltar dezesseis e setecentos. E eu achando quer dezessete e setecentos.

Até dois mais dois, as pessoas colocam na calculadora do celular pra saber se são quatro ou cinco.

Com o endereço é a mesma coisa. Você sabe onde mora o seu maior amigo, sua maior amiga, seu colega de trabalho? Saber você pode até saber, mas qual é o nome da rua, o número da casa, do apartamento? E o CEP?

De repente, já perceberam? Os taxistas tiveram, todos eles, um surto de amnésia. Peguei um táxi na porta do Sírio-Libanês e pedi pra ir até a Paulista, que é praticamente na esquina. O motorista não sabia o caminho. Perguntou o número e já abriu o Waze. Quando chegou na Paulista, eu pedi pra seguir até a Doutor Arnaldo, e ele titubeou, como se fosse um meme do John Travolta: É pra lá ou pra cá?

Como ninguém mais escreve carta ou manda convite de papel, pra que saber o endereço das pessoas? Nem mesmo o e-mail a gente precisa guardar. É só começar a escrever o nome na tela que ele se forma rapidinho.

Andando pela Rua Aurélia, na Lapa, perto do Pão de Açúcar, eu achei um papel cor de rosa jogado no chão. Achei que era uma listinha de supermercado, que adoro ver, peguei. Não era, era uma espécie de Waze pré-histórico, que dizia o seguinte:

Pega o ônibus Terminal Grajaú.

Pega o trem sentido Osasco.

Descer: Estação Santo Amaro.

Pega o metrô Linha 5 Lilás.

Descer Estação Chácara Klabin.

Pega o metrô linha 2 Verde sentido Vila Madalena.

Descer: Vila Madalena.

Pega ônibus Hospital das Clínicas.

4 paradas.

Descer: Rua Aurélia

Se eu encontrei o papelzinho cor de rosa jogado numa calçada da Rua Aurélia, é um bom sinal, certeza de que a pessoa chegou.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

ELE

Ele é um ser menor, um quadradinho amarelo num oceano verde. Ele não consegue crescer, se orientar, seguir. Ele patina na lama e está condenado a patinar. Não consegue raciocinar, estudar, concluir. Ele só sabe atirar. Um ser pequeno, quase ninguém, que chegou lá. Ele vive a ruminar e seu sonho foi e é  atirar, antes de calcular. Ele não é ninguém, um sem importância, um trapalhão. Quisera ser um Zacarias, um Mussum, um Didi, um Dedé. Ele não passa de um mané, um zé ninguém, um qualquer. Eu avisei! [AV]

NADA A DECLARAR

O outrora herói do Brasil está completamente mudo. O circo pegando fogo, o cabaré em chamas e ele caladinho. Nunca tem nada a declarar. O outrora todo poderoso está sendo fritado, fervido em banho maria, abandonado dentro de um barco furado. Depois que sua mulher postou aquela foto cafona da mesa esperando o ministro da justiça para tomar uma sopa quente numa noite fria, em que víamos a colher enrolada num porta-guardanapos, ele nunca mais abriu a boca. Vai aos poucos transformando-se num ministro à milanesa, desmontado por um louco de plantão. Sergio Moro deve estar perdendo o sono ou, no mínimo, dormindo em maus lençóis.

RETRATO DO BRASIL

Já foi um, hoje é outro. Já foi o Cristo Redentor, a Baia de Guanabara, o coqueiro que dá coco, mulato isoneiro. Já foi o sambódromo, o tucano, o tatu, o tuiuiú. Já foi o tamanduá bandeira, o verde e o amarelo, o soco no ar, o milésimo gol de Pelé. Já foi a feijoada, o tutu, o acarajé. Já foi o drible, a Jules Rimet, o Mané. Já foi a mulata do Sargentelli, a Ieda Maria Vargas, a Maria Teresa Goulart. Já foi Jorge Amado, Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade. Já foi Di Cavalcanti, Helio Oiticica, já foi Portinari. Já foi Jobim, já foi Vinicius, já foi Noel. Já foi um patropi, abençoá por Dê e boni por naturê, ma que belê. [AV]

PÓLVORA

Muita gente acha burrice querer ver o circo pegar fogo, torcer contra. Torcer contra, você está torcendo contra  você. O Brasil indo pro buraco, você vai junto. Esse é o argumento. Parece lógico. Só parece. Eu brasileiro, confesso: Torço contra porque nunca vou torcer a favor de um chefe de governo que elogia e homenageia torturadores. Não vou torcer a favor de quem odeia negros, gays, trans, militantes, feministas, movimentos sociais, movimentos sem terra, cultura & civilização. Ele que se dane. Imagine se o Brasil dá certo nas mãos de quem tem um pé no fascismo, no racismo e tudo de ruim que termina com ismo. Desde 2016, quando as pessoas vestiram uma camisa amarela, inflaram um pato gigante, ajudaram a dar um golpe e me mandaram pra Venezuela, o Brasil apertou os passos para mergulhar no abismo. Não vai ser eu quem vai acudir esse país agora. O país que eu quero é exatamente o contrário do país de Jair Bolsonaro. [AV]

UMA FOTOGRAFIA

Pombos existem em todos os lugares, em todos os cantos do mundo. Parecidos, quase iguais. Vira-latas, circulam pelas calçadas, avenidas, parques. Equilibram-se em fios, meio-fios, telhados inclinados. Pombos, pombas, filhotes. Uns mais mansos, outros menos. Uns ariscos, uns amuados, quase doentes. Comem de tudo um pouco, ciscam, engolem, engasgam. Gosto de fotografar pombos. Este, por exemplo, onde estava? Isso não é quiz, este estava num parque em Montevidéu, a capital do Uruguai. 

[foto Alberto Villas]