OLHA A FACA!

Por Alberto Villas

Olha a faca! Olha a faca! Mas não vimos o sangue no chão. O puro aço de um punhal luminoso também não era de puro aço luminoso como aquela velha canção mutante. Era talvez uma faca de cozinha, dessas precisando ser afiada, que custa a cortar carne de segunda, custa a tirar a casca da cana e fere a laranja ao descascar. Talvez foi a faca a culpada de tudo e hoje não adianta reclamar com o bispo. Foi aquela faca meio suja, cabo de madeira, quem a livrou dos debates, de explicar o PIB, os juros bancários, o desmatamento da nossa floresta maior, as leis que devem ser respeitadas, os mais médicos, a lista da geografia da pobreza e o nosso país fora, os direitos dos negros, dos índios, dos gays, das mulheres, os estupros de cada dia. Ele não saberia explicar nada, não sabe número nenhum, não compreende bem as coisas e, naquela época acreditava que um posto de gasolina seria a salvação da pátria. Uma pátria amada que ele enxergava armada. Foi a faca a culpada, que o transformou em pobre coitado. Onde estará hoje aquela lâmina cega se não temos um museu do horror. O bispo, dizem, foi parar num hospício qualquer, duvidoso. A imprensa esqueceu dele e hoje sentimos uma faca imaginária rasgando o céu que não nos protege mais, rasgando direitos, perfurando tudo que havia dado certo. A faca invisível continua por ai e é de cortar o coração.

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