DELETOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA

O tio brigou com o sobrinho, o sobrinho brigou com a prima, a prima brigou com o vizinho, que brigou com o açougueiro, que brigou com o cliente, que brigou com o manobrista, que brigou com o cara do lava-jato, que brigou com o porteiro, que brigou com a mãe. Tudo por causa de política.

O genro brigou com a sogra, a sogra brigou com a nora, a nora brigou com a moça que vende Natura, que brigou com a diarista, que brigou com a patroa, que brigou com a vó, que brigou com o cara da Net, que acabou deletando todo mundo do grupo da família. Tudo por causa de política.

Política e políticos sempre existiram. Eram outros. O Israel Pinheiro, o Magalhães Pinto, o Leonel Brizola, o Miguel Arraes, o Ademar de Barros, o Negrão de Lima, o Francisco Julião, o Gregório Bezerra, o João Goulart, o Juscelino Kubitscheck.

Todo mundo brincava com eles. Eu crio frango, o Magalhães Pinto. Eu sonho com ovelha, o Nelson Carneiro. Eu pinto paredes, o Jânio Quadros. Minha casa é de madeira, a do Ademar de Barros, eu gosto de laranja, o Negrão de Lima.

E aí por diante.

Ninguém na família brigava por causa de política. Tinha um pessoal que era Juscelino roxo. Quem era Juscelino não enchia o saco de quem era Lacerda. Quem era Jânio não enchia o saco de quem era Ademar. Ninguém se importava se o amigo era de direita ou de esquerda. Ninguém sabia quem votava em quem, diziam que o voto era secreto e tudo bem.

Será que o entregador de leite era janista? O carteiro lacerdista? E o padeiro brizolista? E o tintureiro? E o apresentador do Repórter Esso? E a Emilinha? E o Cesar de Alencar? E o Cauby?

Era cada um na sua.

O mundo mudou. Muita gente deixou de jantar no Spot porque lá agora só tem bolsominion. Tem gente que entra na Casa Santa Luzia e nem olha pro lado, finge que não está ouvindo porque todo mundo tem cara de ter votado no Bolsonaro. Conheço gente que nem passa mais na porta do Allianz Parque, porque o mito é palmeirense.

Dividiram o Brasil!

– Nós vamos na casa do Rubão, mas nem toque em política porque ele votou no Bozo, tá? Ele, a mulher e as filhas.

Tem cara que jogou no lixo todos os discos do Lobão, do Fagner, do Ultraje e do Barão. Nunca mais leu um poema de Ferreira Gullar, uma coluna de Fernando Gabeira, um comentário do Augusto Nunes, nunca mais sintonizou na Jovem Pan ou viu um capítulo da novela com Regina Duarte no Viva.

Separaram as pessoas!

Ele não importa se Lobão, Fagner, Alexandre Frota, Janaina Paschoal, Miriam Leitão, Reinaldo Azevedo ou Marco Antônio Villa viraram a casaca. Não gosta mais deles e pronto.

Uma senhora foi alugar um quarto da casa dela pelo Airbnb e quando viu a foto da futura inquilina fazendo arminha com a mão e outra fazendo selfie com o pato amarelo na Paulista, desistiu na hora.

Ela entra no ônibus e fica desconfiada. Será que o ilustre passageiro ao lado votou no Bozo? Por precaução, muda de lugar.

Foi assistir a Democracia em Vertigem e trocou de poltrona quando ouviu um casal sussurrando que Dilma roubou. Quase saiu do cinema e abandonou o filme, tão bom, no meio.

Ela nunca mais vestiu uma camisa amarela e saiu por aí. Passou a torcer contra o Brasil, seja em amistoso, na Copa ou no Pan.

No volante, ultrapassa o carro ao lado e faz uma cara de nojo pro motorista que colou um adesivo Lava Jato Eu Apoio, no vidro traseiro.

Desliga a TV quando aparece o Merval, o Valdo Claro ou a Leilane Neubarth. Deixou de frequentar o Ici Bistrô, só porque um dia cruzou com o FHC na mesa ao lado, comendo um cassoulet.

Recentemente fez uma limpa no Facebook e deletou meio mundo, só porque desconfiou que meio mundo votou no #EleNão.

Fez um podcast reunindo todas as merdas que o presidente falou em sete meses e perdeu doze amigos de uma só vez.

Saiu do grupo Amigos da Lapa, Fraldões da UFMG, Parentes & Parentas e do grupo Turma da Coca-Cola, que um membro postou #lulaladrão.

Ninguém mais tem sossego!

Um dia, ele postou a frase Lula Livre, foi deletado e bloqueado imediatamente pelo padrinho, pelo sogro, pela cunhada e pelo advogado do pai.

Mas, por que o título desta crônica é Deletou a família e foi ao cinema? Oras! Porque depois de uma hora e doze minutos de discussão na mesa do jantar, ele abandonou o prato de macarronada com frango e nem esperou o pavê de sobremesa. Deletou o avô, o cunhado torto, a madrinha, o primo, o sogro, o namorado do irmão, a concunhada, o tio e foi ao cinema.

[Crônica da semana publicada no site da revista Cara Capital]

Leia outras crônicas: cartacapital.com.br

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