MEU ENCONTRO COM OS ÍNDIOS DA TRIBO WAIÄPI

Quando o avião da Varig abriu as portas no Aeroporto Alberto Alcolumbre, em Macapá, foi como se tivesse aberto a porta do forno da minha cozinha. Veio aquele calor lá do Norte, de baixo pra cima, contagiante.

Depois de descer os degraus, a camiseta já mostrava pontos de suor aqui e ali. O céu limpo não anunciava uma nuvem sequer. Todo azul, um azul bem de lá.

Uma van da Fundação Konrad Adenauer Stiftung estava me esperando debaixo de uma árvore lindíssima, jeito de baobá. Em poucos minutos já estava no hotel, uma construção de madeira rústica, com vista pro Rio Amazonas, quase mar.

Curioso pensar que aquele mundo de água é do mesmo rio que passava na minha vida, durante a temporada que morei em Manaus, trabalhando pro Canal 25.

Konrad Adenauer Stiftung foi o primeiro chanceler alemão do pós-guerra, de uma então Alemanha Ocidental, e que hoje da nome a uma fundação, a que me trouxe até aqui.

No dia seguinte, na mesma van, pegamos uma estrada de terra, cheia de paus, pedras e pó e fomos seguindo. Mais um trecho de trem, a viagem que parecia não ter fim até que, finalmente, chegarmos à aldeia dos índios Waiäpi.

A tribo costuma passar os invernos nas aldeias da Funai, onde há posto de saúde, enfermarias, escolas e a casa dos missionários. No verão, vivem seus dias de índio na floresta, temporada de caça e pesca.

Com olhares profundos, curiosos e visivelmente assustados, os índios pareciam nos esperar. Não abriam a boca, apenas observavam cada passo que dávamos naquela poeira amarelada.

Era início de verão e as terras abundantes acolhiam pés de macaxeira, cana, cará, inhame, pupunha e bananas com fartura. Experimentei a cana doce e a banana da terra defumada.

Ali naquela aldeia havia pouco menos de cinquenta índios. O primeiro contato que tiveram com a civilização foi em 1973. O português deles ainda é ruim, mas entendo, alguns segundos depois que falam.

Um índio aponta para a plantação e me explica que só de macaxeira, eles plantam doze variedades.

– Se a praga chega e ataca uma espécie, temos ainda outras onze.

Sábios.

– O peixe aqui é farto. Já na brasa, diz outro.

Vejo crianças correndo atrás de um bicho com jeitão de tatu, não sei se é tatu, e penso na canção de Rita Lee.

Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio/Viver pelado, pintado de verde num eterno domingo/Ser um bicho preguiça e espantar turista/E tomar banho de sol, banho de sol, banho de sol.

O sol arde minhas costas e a essa altura, fim de tarde, já estou sem camisa e com um risco de urucum no rosto vermelho.

Os Waiäpi são vermelhos.

Passei o dia ali, ouvindo histórias e contando as minhas. Antes do anoitecer, teve macaxeira, inhame, peixe e dança.

Tem dias na vida que a gente não esquece nunca. O meu encontro com os Waiäpi faz anos e eu ainda me lembro perfeitamente da van indo embora e eu olhando pra trás, cantarolando, esperando voltar um dia.

Baila comigo, como se baila na tribo/Baila comigo, lá no meu esconderijo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

É PRIMAVERA

Que primavera é essa que não podemos comemorar a chegada das flores? As poucas, quase murchas, estavam ali na cerimônia do adeus a Ágatha. Assistida por familiares, amigos, repórteres e uma boneca da Mônica. Os assassinos estavam longe, procurando novas vítimas de uma política sem pé nem cabeça, como se lá nos anos 1970, os americanos decidissem sair matando todos os vietcongs. O perigo da hora nesse país chamado Brasil chama-se Witzel, o pistoleiro que resolveu eliminar parte da população do Rio de Janeiro. A cidade do Rio, outrora chamada de Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil. Cantada por Tom, por Billy Blanco, por Caetano e por Gil. Aquela que despertou o amor no pintor Paul Gauguin. A morte da pequena Ágatha está hoje na primeira página de todos os jornais. Amanhã talvez ainda esteja, mas na quarta, passa para o corpo do jornal, até um dia desaparecer. Como desapareceu Arthur, aquele bebê atingido por uma bala perdida, ainda dentro da barriga da mãe. Quem elegeu esse maluco governador? Deviam morrer de vergonha, sair às ruas batendo panelas até ele cair. Ainda faltam mais de três anos para esse alucinado deixar o poder. É muito. Quantas pessoas inocentes ainda vão morrer nas mãos desse imbecil que desce de um helicóptero comemorando, como se fosse o gol mil de Pelé, uma ação policial que terminou com morte? Não podemos deixar esse inimigo dormir em paz. [AV]