CRÔNICA DE BOLSO

A primeira carteira de dinheiro que ganhei foi aos 16 anos, presente de aniversário da minha madrinha, Tia Celinha, a tia rica. Era uma carteira de couro marrom, com divisórias em cetim e lugar para colocar, além de dinheiro, a carteira de identidade e duas fotos 3×4.

A carteira que ganhei foi comprada numa loja na Rue du Faubourg Saint-Honoré, rua chique de Paris, onde minha tia passava as primaveras porque odiava o frio europeu e o calor do verão carioca. Gente fina, minha madrinha, era outra coisa.

Fiquei orgulhoso com aquele presente que veio embalado numa caixinha forrada com papel de seda, cheirando a incenso fino, tarde de outono debaixo de uma figueira, que só tem na Nature & Découverte, no Les Halles.

A primeira coisa que fiz foi ir ao Armazém do Chaim trocar minha mesada por um monte de notas de 10 cruzeiros, aquela do Getúlio. Queria minha carteira cheia de dinheiro, como a do meu pai.

A segunda coisa foi preencher aqueles dois espaços para fotos. Em um, coloquei a minha 3×4 que fiz no Zatz e, no outro, enfiei a foto de Teresa, minha primeira namorada, um 3×4 que ela me enviou numa carta de amor.

Vou explicar a carteira do meu pai. Era a carteira mais gorda que existia, nunca vi igual. Num tempo em que não havia cartão de crédito, cartão de débito, cartões de plástico, meu pai gostava era de dinheiro vivo.

Todo dia primeiro, ele ia ao Banco do Brasil e trazia pra casa o seu ordenado. Parte dele entregava para minha mãe, que ia colocando tudo separadinho dentro dos envelopes que ele escrevia com normógrafo e tinta nanquim: Luz, Gás, Telefônica, Mercado, Passadeira, Padaria, Médico, Colégio Marista, Colégio Sion e Imprevistos.

Uma parte do ordenado recheava sua carteira, que trazia também a carteira de identidade, a de motorista, uma foto da esposa, minha mãe, e dos cinco filhos, meus irmãos. Além de uma nota de 1 dólar dobradinha, pra dar sorte, um santinho de Santo Expedito, uma novena de Nhá Chica e um bilhete da Federal.

A carteira de Carlos Drummond de Andrade, mineiro, era parecida com a do meu pai, de couro, gorda, recheada. Nela, ele guardava um bilhete escrito à mão que dizia assim:

Recomendações de mamãe:

  1. Não guardar ódio de ninguém
  2. Compadecer sempre dos pobres
  3. Calar sobre os defeitos dos outros

Era um tempo em que o biólogo Paulo Vanzolini cantava “Praça Clóvis” no auto-falante da praça da Igreja de Santa Rita, em Cataguases:

Na Praça Clóvis/Minha carteira foi batida/Tinha 25 cruzeiros e seu retrato/25 francamente achei barato/Pra me livrar daquele atraso de vida/25 francamente foi de graça. 

No dia seguinte ao meu aniversário de 16 anos, fiquei planejando como organizar minha carteira. Além dos 3×4 meu, o de Teresa e das notas de dez cruzeiros, arrumei ali a carteira de identidade, a carteirinha do Clube Albert Scharlé, e uma nota de 1 dólar, dobradinha, como a do meu pai.

Sinto que as carteiras gordas, recheadas, cheias de dinheiro, estão sumindo do mapa. Meus amigos não andam mais com dinheiro vivo no bolso porque têm medo de morrer num assalto.

Hoje, as carteiras são fininhas e têm basicamente plástico: a carteira de motorista, o RG, o cartão Visa, o Mastercard, o do Bradesco, o cartão do aposentado, o cartão do idoso, o do INSS, o cartão do Prevent Senior, o de cliente preferencial do Ibis e o cartão de milhas da Gol, porque viajar no tempo é preciso.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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