UMA FOTOGRAFIA

Rua Clelia, ao lado do Sesc Pompéia, conhecido também como Sesc Fábrica. Isso porque Lina Bo Bardi reformou uma antiga fábrica para transformar em um centro cultural. Todas as manhãs passo por ali de ônibus e vejo um homem, caprichosamente, fazendo da calçada, a sua vitrine para vender livros. São metros e metros de livros colocados lado a lado. Do ônibus vejo cada capa, tentando, de longe, decifrar cada volume. Passo por ali e sigo feliz para o trabalho. Dia desses, prometo parar e saber a história do homem que vende livros numa calçada de São Paulo.

[foto Alberto Villas]

TEREMOS SAUDADE DE QUÊ?

Pode parecer, mas não sou tão nostálgico assim, aquele que vive remexendo o passado, procurando relíquias no fundo do baú, encontrando bilhetinhos de amor cujo perfume sumiu com o tempo. Sinto saudade, de vez em quando apenas.

Saudade dos Beatles em cima do telhado cantando Let It Be, saudade do Cine Pathé, da Mesbla, saudade do disco voador da Estrela, saudade do pirulito de chocolate da Kibon, saudade dos soldadinhos que vinham dentro do vidro de Toddy.

Sinto saudade do cachorrão do Ted’s, sinto saudade do milk-shake do Xodó, sinto saudade da Livraria Van Damme, da coxinha da Torre Eiffel, da Padaria Savassi, do suco Yuki, dos fascículos da História da Música Popular Brasileira dependurados numa banca de jornal na Rua da Bahia. Sinto saudade de Belo Horizonte.

De vez em quando sinto saudade do lança-perfume, da caneta Parker 51, da tinta Super Kink Azul Real Lavável, do travel cheque, do sabonete Gessy e da colônia Pinho Campos do Jordão.

Sinto saudade do Frevo número 2: O Recife tá longe/A saudade é tão grande/Eu até me embaraço/Parece que eu vejo/O Haroldo Matias no passo/Valfrido e Cebola, Colasso/Recife tá perto de mim/Saudade que eu tenho/São maracatus retardados/Que voltam pra casa cansados/Com seus estandartes pro ar.

Sinto saudades mais recentes também. Sinto saudade da Fotóptica, da Videolocadora 2001, do envelope verde e amarelo, de rebobinar fita K-7 com caneta Bic, dos cards do chocolate Surpresa e do Orkut.

Dizem que a palavra saudade só existe em português. Saudade daqui, de Portugal, de Cabo Verde e Macao. Uma saudade danada, eu sinto da rapadura da Fazenda do Sertão, da língua com ervilhas frescas da Vó Romilda, da couve-flor empanada da minha mãe, do bife à caçarola do meu pai, do Mandiopã, do Tenente Rip Masters, do sargento O’Hara, do cabo Rusty, do Rin-Tin-Tin e do Guarapan.

Teremos saudade de que no futuro? Do WhatsApp, do Instagram, do Facebook, do Twitter, dos emojis, do kkk, do rsrsrs, do blz, do coraçãozinho vermelho ou roxo, da mãozinha indicando joia ou batendo palminha?

Será que um dia sentiremos saudade do Tiago Leifert apresentando o The Voice Brasil, do Luciano Huck consertando uma lata-velha, do Se Joga, de todo mundo falando legado, do Wesley Safadão cantando Na cama que eu paguei?

Será que a palavra saudade vai existir no futuro? Será que vamos ouvir tem dias que eu morro de saudade da bolinha colorida rodando no meu computador ou tem dias que eu morro de saudade daquela vozinha do telemarketing? Será que alguém vai sentir saudade do Galvão Bueno, da Joice Hasselmann, do véio da Havan ou do Faustão?

Não! A saudade é apenas uma dor pungente, a saudade é uma coisa que mata a gente, morena.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapiital.com.br

UMA FOTOGRAFIA

O lixo numa calçada do bairro de Higienópolis, em São Paulo, é o retrato da miséria brasileira. O lixo, embalado em sacos plásticos, foram remexidos por moradores de rua, em busca de comida, de latinhas para serem vendidas, em busca de qualquer coisa.

[foto de Alberto Villas, feita da janela do ônibus Lapa, na noite de 22.10.19]