1967

Tinha eu 19 anos naquele 9 de outubro de 1967. Vestia uma calça vermelha, um casaco de general e procurava um velho navio no porto em busca de um caminho, um horizonte, navegar era preciso, viver não era preciso. Era impossível levar o barco sem temporais. Foi quando vi seu nome estampado nos jornais, a fotografia que mostrava seus olhos abertos e seu coração parado. Era um corpo estendido numa mesa fria, militares tupiniquins admiravam o troféu que ainda sangrava. Morreu de susto, de bala ou vício. Che Guevara estava morto, os Beatles estavam mortos e nossa esperança sumia no ar, misturada à fumaça de um Continental sem filtro. O céu parecia não nos proteger mais. Eu era louco por ti, América. Ainda não conhecia Cuba e me armava como podia, por detrás da Miséria da Filosofia, livro de Apolo Heringer Lisboa, longe daqui, sem imaginar quem era eu e onde fora parar o seu livro de capa amarela. Meus primeiros estudos, uma faculdade pela frente, ainda não decidida se Medicina ou Jornalismo. Os meus cabelos pareciam uma juba de leão e os meus óculos redondos era idênticos aos do compositor de Give Peace a Chance. Eu não era eu inteiramente. Carolina ainda guardava tanta dor nos seus olhos fundos, o domingo no parque, o sangue no chão. Caminhávamos e cantávamos e seguíamos a canção. O dia em que Che Guevara caiu morto a gente não esquece jamais. [AV]

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